Terça feira 25 de janeiro de 2011, meu primeiro Ouricuri com os caiçaras e como caiçara.
Acordei às 3h, pois às 4h partiria para Maceió com meu primo. Chegando, fui para casa de minha tia onde minha irmã estava, pois, era mais próximo do local marcado para o encontro com os caiçaras. Ao chegar conversei com minha irmã que me deu a maior força e logo dormi. Depois de uma hora acordei almocei com ela tomei um bom banho em seguida fui ao encontro dos outros caiçaras. Cheguei primeiro, mas, logo chegaram Raul, Marcos e Isvânia. Em cada olhar víamos quão ansiosos estávamos e quão importante seria participarmos desse momento que, para mim, uma das maiores experiências de vida que já tive.
Comparávamos o peso das bolsas quando Fernando, Douglas e Nathany chegaram. Conversávamos enquanto esperávamos os outros, confesso que estava um pouco nervosa por não ter noção de como seria, mesmo assim, estava confiante. A turma começava a se conhecer quando o mestre chegou com o carro que nos levaria a Murici. Eu estava muito feliz, gosto de conhecer o desconhecido, viver cada momento como se fosse o último...
Chegamos a Murici aproximadamente às 17:30 e fomos colocar as coisas no quarto do hotel onde passamos a noite. Antes da janta uma andada pela cidade, parando na praça onde havia gansos e/ou patos que geraram discussões, muito engraçado.
Eu e Tássia voltamos antes para o hotel, pois, queria tomar logo um banho, aproveitar o chuveiro. Após um bom jantar nos reunimos para as primeiras orientações dadas pelo mestre Gérson Alves, nosso corajoso e forte líder, que foram reforçadas pelas palavras e experiência de Severino, Fernando e João. Nos apresentamos e em seguida Gérson nos fez refletir sobre o que queremos, quais os nossos objetivos e o que estamos fazendo para conseguir o que desejamos distribuindo algumas perguntas que em alguns momentos confesso, não soube responder, mas me fizeram pensar sobre tudo isso. Em seguida fomos dormi, nós meninas conversamos muito em nosso quarto e apesar dos mosquitos consegui dormi muito bem.
Às 2:50h do dia 26 acordei tomei um banho e fui com as meninas ao encontro dos outros caiçaras. Partimos rumo a Serra do Ouro no frio da madrugada e com o céu estrelado iluminando nosso caminho. Alguns andavam mais rápido outros, como eu, um pouco mais atrás,porém, sempre acompanhada por Severino ou Arthur. Passávamos por várias serras e nada da do ouro a mochila começava a incomodar e pensava ‘será que vou mesmo conseguir’? As conversas ajudavam a esquecer as dores nas costas devido ao peso da mochila e os calos que começavam a se formar em meus pés. Em alguns momentos sentia vontade de parar e voltar, mas, desistir para mim seria pior do que qualquer dor que depois pudesse sentir e só quando cheguei percebi isso.
Já recuperada continuamos, o percurso ia se mostrando ousado com várias ladeiras ruins de subir onde o ar parecia querer fugir completamente dos pulmões, mal conseguia falar. Ao chegarmos a uma fonte fomos tomar banho, primeiro as meninas, a água era gelada mas muito relaxante e enquanto estávamos apreciando aquele momento os meninos gritavam: já está bom! Então voltamos e Fernando nos fez companhia enquanto os outros tomava banho, todos prontos partimos novamente. Para mim uma experiência única e inesquecível, sempre contemplei a natureza mas, não tinha noção de seu poder sobre nós!
Continuamos a caminhada, a paisagem ficava cada vez mais bela e a sensação era bastante prazerosa, apesar de todo cansaço. Paramos mais na frente onde tinha outra fonte cerca de 30 minutos, essa foi uma das paradas mais importantes para mim, comemos nego bom, rimos bastante, tomamos água e deitamos na estrada enquanto alguns foram encher seus cantis.Enquanto Gérson, Severino e Fernando procuravam o melhor local para acamparmos alguns meninos foram a procura de água. Severino trouxe-nos uma deliciosa jaca, outros trouxeram manga foi muito divertido parecíamos ter esquecido um pouco de todo cansaço.
Fomos enfim conhecer o local e já começar a construção das barracas que, a princípio, seriam três, mas, decidiu-se que duas seria suficiente. A disposição e o trabalho coletivo foram pontos fundamentais para que tudo saísse como planejado, os meninos foram pegar palhas e bambus as meninas abriam as palhas e as amarravam com sisal sobre a estrutura de bambu e alguns troncos. A noite chegou e junto com ela a chuva, como apenas uma barraca (a menor) ficou pronta completamente, tivemos que ficar todos na mesma barraca, alguns no chão, outros em redes, outros ainda preferiram ir para a barraca que estava com o teto inacabado, mas havia redes armadas que, mesmo estando molhadas, era melhor que o chão para eles. Eu dormi muito bem no chão, não era o que estava esperando, mas depois de estarmos ali ficamos sujeitos a tudo que a natureza nos oferecia.
Durante todas as noites fomos prestigiados por uma orquestra formada por alguns integrantes junto aos bichos do mato... .
Ao acordarmos no dia 27 ainda chovia e logo fomos terminar a outra barraca depois de termos tomado um saudável café da manhã. Cantamos, conversamos e rimos durante a construção da segunda barraca. Enquanto Gérson e Fernando davam o acabamento final na barraca, eu e as meninas fomos tomar banho, foi muito engraçado. Eu gostava muito de observar tudo associando a minha vida e as das pessoas que me rodeiam, passei a compreender mais algumas e entender menos outras.
Algumas pessoas foram embora, umas pelas condições físicas que não era as melhores outras por compromissos ou simplesmente por não acreditarem em si próprios e se fartarem com tão pouco. Mais aliviados, pois, o trabalho mais pesado havíamos concluído, jantamos e nos reunimos para refletirmos sobre aquele dia, foram momentos necessários para nosso crescimento, tudo que aconteceu nesse dia serviu para todos de uma forma ou de outra. Fomos dormi, dessa vez com mais conforto, cada um em suas redes. Confesso que a pessoa que mais sentia falta e que mais queria ouvir era meu pai, pois sei que ele gostava daquilo tanto quanto eu.
Dia 28, um friozinho! Durante a madrugada meu lençol e minha rede molharam e senti frio durante a noite devido ha algumas goteiras que tinha, mas foi pouco. Ao levantarmos fomos para outra barraca onde a cozinha estava instalada fazer e tomar café, antes Nathany teve que ir embora pois sua prima faleceu e Douglas a acompanhou até certo ponto onde ela pegou carona para Murici, ficamos um pouco triste mas ... é algo incompreensível, mas, natural.
Decidimos fazer cuscuz, mas não tinha pano, então cedi minha blusa que por sinal estava usando e que disseram ter dado um gostoso sabor ao cuscuz um gostinho de perfume, que não senti, estava muito bom, para mim tudo estava bom. Ficamos descansando depois do café, alguns tentavam cortar a madeira pra fogueira que por sinal deu muito trabalho. O Mestre nos ensinou a fazer sarabatana e arapuca muito interessante! Vi quão sábios eram todos que tiveram que sobreviver apenas com o que a natureza lhes oferecia. Fomos então tomar banho, ajudar na janta, que nesse dia estava muito salgada,devido ao charque no feijão. Momentos de reflexão antes da janta, as palavras do Mestre que, sempre sabias, nos fazia pensar sobre o que queríamos quais nossos objetivos, avaliei melhor meus valores a não desperdiçar as oportunidades que tinha. Jantamos e fomos dormi, antes ri muito com Fernando e seu personagem, o pato Donald, ele faz muito bem.
Ao almoçarmos descansamos e orientados pelo Mestre tentamos fabricar arcos e armadilhas, Severino, antes, improvisou um banco de bambu muito bom e tentou arriscar uma flauta. O tempo passou rápido e fomos tomar banho antes que ficasse escuro, alguns meninos já tinham ido logo as meninas me acompanharam, nesse momento aconteceu algo engraçado: enquanto eu e as meninas tomava banho Mestre e Severino foram atacados por mosquitos e quando eu e as meninas subíamos para ir para a mangueira quase fomos atacadas por formigas enormes, tivemos que correr, sem falar que fui privilegiada por alimentar alguns carrapatos nas pernas e pés que hoje resultou em vários carocinhos que coçam muito mas que está sobe controle, depois outros integrantes perceberam também que estavam na mesma situação.
Voltamos, jantamos, agradecemos e fomos dormi, estava com a sensação de missão cumprida e já estava com saudades, pois, todo meu corpo agradecia por todos os dias ali. Vi quão importante é para nossa vida a preservação da natureza até porque, em momento algum tive crise alérgica, coisa que é frequente na cidade, estava até pensando em visitar aquele local mais vezes.
Dia 30, acordamos cedinho e fomos organizar tudo para a volta, enquanto isso fomos contagiados pela voz e a musica de Guilherme que sempre quieto foi nos mostrando aos poucos seu talento, todos o acompanhavam em sua canção, tudo pronto o que pertencia a mata lá ficou o que não, queimamos ou trouxemos. Ao chegar onde tomávamos banho, enchemos os cantis e fomos serra a baixo a caminhada agora mais rápida e tranquila um grupo foi na frente o outro mais atrás e estes andaram menos, pois, pegamos uma carona em um caminhão, muito engraçado! Aliás não sei em que momento deixei de rir, mais a frente os outros subiram também. O caminhão pulava muito e a garrafa de água do Fernando pulou, resolvendo ficar lá.Chegamos a Murici e fomos ao restaurante da vovó almoçar antes de voltar a Maceió, ficamos bem satisfeitos com o almoço e seguimos para Maceió, eu desci primeiro porque meu pai me esperava no aeroporto, estava com uma bela trança nos cabelos amarradas com sisal feita pela Isvânia. Foi engraçado, pois quando cheguei no estacionamento alguma pessoas olhavam meio que disfarçando para mim e meu pai antes que ele falasse qualquer coisa dei um forte abraço nele, ele só falou: ôxe!
Então voltei para Arapiraca, com muita saudade de tudo que havia acontecido, mas é isso! O que me resta a fazer é compartilhar com todos os interessados esses momentos e esperar o(s) próximo(s) onde estarei presente.
Quero aqui agradecer a todos, principalmente aos que ficaram até o fim, pois, foram estes que fizeram com que tudo desse certo aponto de ser considerado um dos (ou o) melhores Ouricuri realizados pelos caiçaras até hoje.
Salve caiçaras! Que possamos, sem desanimar, continuarmos nossa luta ensinando e fazendo com que sejamos lembrados como os grandes mestres.
Salve grande Mestre! Obrigada pelo exemplo de liderança que fostes e que és demonstrando-nos quão grande é seu coração, sempre nos incentivando e nos colocando a prova para que pudéssemos perceber nosso valor e nosso limite.
Grande abraço a todos...
Os vencedores !!!!!!!!!!!!!!!
Voando como Águia, voando alto...
Dando voltas no universo, dando voltas lá no céu,
com asas de luz, com asas de amor...
Ai que taiaiai ai que taiaiai
Ai que taiaio ai que taiaio...
"Shitara" és guerreira demais, Capoeira.
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