OURICURI CAIÇARA: SERRA DO OURO
(25 a 30 de janeiro de 2011)
Preâmbulo
“Não devemos protelar nossos objetivos, porque isso não passa de subterfúgios pra que nunca executemos o que desejamos”. Essas palavras proferidas pelo professor Gerson, durante a reunião que antecedeu o primeiro Ouricuri Caiçara 2011, me fizeram perceber que deveria continuar com os planos de viajar, independente de ser o único Caiçara de Palmeira dos Índios a confirmar presença nessa empreitada (os outros participantes, por motivos variados e em sua maioria justificáveis, como foi o caso dos capoeiras: Lucas, Karina, Ana Paula e Mônica, foram pressionados a desistir). Confesso que o medo do desconhecido, tanto das possíveis adversidades de um local inóspito como a Serra do Ouro, quanto de pessoas estranhas a mim, sobretudo pela minha condição de ser mulher e desconhecer as outras participantes do Grupo de Maceió, causaram-me certo desconforto no início, mas refleti sobre as palavras do Mestre e percebi que desistir por medo, sem uma justificativa plausível não seria atitude de um Caiçara, afinal se adotei essa Família, não quero ser vista como mero apêndice, quero constituir parte do alicerce que sustenta nosso grupo. Então próxima parada: Serra do Ouro...
25 de janeiro de 2011 – O encontro da Família Caiçara
O grupo de Palmeira, a priori, tinha combinado de conseguir um meio de transporte em que fossem todos juntos, com a desistência dos meus companheiros, fui pressionada a me reprogramar. Enfim, no dia 25 de janeiro de 2011, fui até a rodoviária de minha cidade e embarquei (12:00h) num ônibus da Empresa Palmeirense, chegando à Maceió junto ao Posto da Rodoviária Federal, por volta das 14 horas. Estava eufórica e simultaneamente desconcertada por perceber que havia chegando cedo demais ao ponto de encontro definido: a enorme gráfica azul, localizada paralela ao Posto (o combinando foi às16 horas). Decidi então sentar e aguardar ansiosa pelos demais Caiçaras.
Finalmente, avistei os primeiros colegas que chegavam (Natany, Fernando, Raul, Jhonata Henrique, Leilane e Marcos) a maioria trajando o fardamento Caiçara como solicitou o Mestre, nesse curto espaço de tempo, embora com ainda pouca intimidade, o grupo brincou bastante com o peso das mochilas, algumas bem pesadas, indicando futuras complicações na árdua caminhada do dia seguinte. Após aguardar algum tempo, foram chegando mais Capoeiras e por volta das 16:30 h, eis que surge o professor Gérson dentro de uma Van, a qual nos levaria até Murici.
A chegada ao Novo Hotel foi muito tranqüila, marcada por uma instalação hospitaleira e amigável, até porque tudo já tinha sido previamente planejado pelos capoeiras coordenadores. O grupo então se distribuiu em três quartos, sendo um destinado às quatro meninas presentes (Natany, Thássia, Leilane e eu) e os outros dois divididos entre os demais companheiros do sexo oposto (Confesso que ser mulher nessas horas é muito conveniente: ficamos com o único quarto em que tinha ar-condicionado).
Após nossa instalação, com a autorização do Mestre, partimos rumo às proximidades do hotel a fim de conhecer a região circundante. Alguns metros a frente encontramos uma praça, palco de nossas primeiras conversas com o grupo maior (ali, percebi que era a gênese de um grupo harmônico e unido). Próximo das sete horas da noite retornamos para o jantar, como solicitou o Mestre. A refeição muito saborosa e em abundância, foi servida em uma grande mesa (caso eu fosse cristã, até ousaria dizer que tudo aquilo me lembrava a última Seia dos Apóstolos). O discurso predominante, mormente dos mais experientes, era: “encham o bucho, porque amanhã vocês sentiram saudade disso aqui...”.
Fome saciada reunimo-nos defronte do hotel, onde as últimas considerações foram explanadas. Foi o momento de apresentação formal do grupo, cada um comentava suas perspectivas sobre a Família Caiçara. Nesse momento, alguns companheiros que embora não sendo capoeiras, porém se identificam com a filosofia de nossa empreitada, como era o caso de Adriano (apelidado de “Zapata” mediante suas convicções políticas) e Henrique foram apresentados. O Mestre ainda distribuiu um roteiro a ser respondido por todos no retorno da viagem. Grosso modo, ele nos fazia refletir: Quem somos? O que pretendemos na vida? Onde estarei daqui a alguns anos? (de maneira alinear, lembro das palavras de Jhonatan Henrique quando já na cabana, na Mata, parafraseando o Professor Gérson afirmava: “potencial sem direção é uma flecha no escuro”. Concordo plenamente. Paralelo a isso, as experiências de outros Ouricuris foram compartilhadas, servindo-nos de modelo.
Logo mais, João Arruda juntou-se a nós, embora esse capoeira não ficasse conosco no decorrer de toda jornada desse Ouricuri, sua chegada foi comemorada mediante sua bravura e experiência já reconhecidos. Por fim, fomos para os quartos dormir, sabendo que 3 horas da madrugada partiríamos.
Aquele momento servira pra nos aproximar ainda mais (quatro mulheres em meio a um público preponderantemente masculino). Nosso quarto tinha uma vista fascinante, admirávamos as estrelas enquanto tentávamos dormir. Contudo, a euforia e ansiedade, aliada ao coro dos mosquitos não permitiram tal façanha. Thássia e eu demoramos a pegar no sono, diferente de Natany e Leilane. Independente disso, três horas em ponto, o Mestre batia a nossa porta, convocando-nos o quanto antes a acordar e descer.
1º dia (26 de janeiro de 2011) – Caminhada íngreme x Noite infernal
Por volta das 3:30h, estávamos na estrada. Um grupo formado por 18 Caiçaras. A alvorada ainda estava em seu apogeu, demonstrando um céu límpido e lotado de estrelas. Alguns brincavam de astrólogos apontando as constelações (Escorpião, As Três Marias). Mal começamos a caminhar e o peso das mochilas já aterrorizava costas, pescoço e demais membros inferiores, em alguns Caiçaras a situação era ainda pior, a mochila do Mestre, por exemplo, estava super pesada, tanto que eu não conseguiria erguê-la nem por alguns instantes.
Logo no começo formaram-se três grupos, caracterizados pelos ritmos distintos de caminhada, uns iam mais a frente em relação a outros, todavia em nenhum momento os grupos ficaram sem o auxílio de algum Tuxaua, como haverá determinado o Mestre, justamente pra evitar complicações de um público que em sua maioria participava do Ouricuri pela primeira vez.
A estrada era formada em quase toda sua extensão por ladeiras ora de chão batido, ora asfaltado. Nos primeiros quilômetros o percurso foi tranquilo, pois ainda apresentava uma trajetória um pouco mais plana que o final, embora com alguns obstáculos: como é uma região com alto índice pluviométrico, havia no decorrer da estrada inúmeras poças de água, algumas capazes de molhar até o calcanhar. Em uma dessas ocasiões, o peso da mochila não permitiu um pulo maior que o previsto e acabei atolando meu tênis na água, o mesmo ocorreu com o “Zapata”, isso me preocupava na medida em que a umidade aumentaria a fissão entre os dedos originando bolhas.
A primeira pausa para o descanso ocorreu depois de concluído 50% do caminho, sob uma mangueira, era mais de 6 horas da manhã, o sol já começava a despontar no horizonte. O peso das mochilas já atormentava bastante. Aproveitamos pra descansar e comer frutas, pois sabíamos que a partir dalí, tudo ficaria pior. Seguimos viagem adentrando uma estrada asfaltada já na Serra do Ouro, a priori pensei em usar protetor temendo a insolação, contudo, já dentro da Mata, a sombra das árvores impedia qualquer desconforto do gênero, o que era um alívio.
Em contrapartida, a jornada ficou mais complicada, a estrada agora asfaltada tornou-se um aglomerado de serras mais íngremes dificultada pelo peso martirizante das mochilas. Em uma das paradas para o descanso, embora exaustos, descemos até uma pequena cascata a fim de encher os cantis de todos, foi muito gratificante, pois a paisagem era belíssima. De volta à estrada.
Em outra parada para descanso, Severo (Severino), conseguiu habilmente colher uma Jaca e algumas mangas saboreadas por todos, momento merecido de confraternização. Nessa mesma ocasião, fez-se um sorteio definido três grupos a serem coordenados pelos Caiçaras mais experientes: Mestre Tamuia, Severino e Fernando. Cada grupo, em média com cinco ou seis integrantes, deveria fabricar sua própria barraca. Fiquei no grupo do Severino.
Chegamos ao ponto planejado pelos coordenadores do evento por volta das 10:30h (após 7 horas de caminhada). Ao que tudo indica, devido alguns contratempos com o local de instalação previsto, nos acomodamos na mesma região em que ocorreram outros Ouricuris.
Mal chegamos e o Mestre já nos advertiu na agilidade que deveríamos ter na fabricação das barracas, uma vez que estava escurecendo rápido. Cada grupo se instalou em pontos diferentes, contudo próximo um do outro. Cada coordenador seguia suas próprias prioridades, no nosso caso, Severo subdividiu o grupo delegando funções distintas. Os homens colheram bambus e palhas de pindoba a fim de montar a base e a coberta da barraca, esta era uma tarefa muito árdua mesmo pra guerreiros tão fortes como esses, pois todo esse material pesado era colhido em terrenos íngremes e escorregadios, a mim foi solicitado à limpeza do local (encontramos na ocasião uma cobra de duas cabeças e um escorpião).
Devido alguns contratempos, o grupo do Fernando juntou-se ao do Mestre Gérson, demandando a construção de uma barraca maior. Infelizmente no fim da tarde, apenas nossa barraca estava finalizada. A escuridão do ambiente só era quebrada com a iluminação de algumas lanternas e lamparinas. Com dificuldade, Severo ainda conseguiu ascender uma singela fogueira, contudo não deu tempo cozinhar nada, nosso jantar foi granolas, castanhas de caju, amendoim e coisas afins. Naturalmente todos se aglomeraram em nossa barraca que ficou super lotada, estava frio e pra piorar a situação começou a chover bastante.
Provavelmente esse foi o momento mais difícil desse Ouricuri. O chão estava muito úmido, os mosquitos e formigas faziam a festa. Enquanto que alguns tentaram dormir sentados, outros ainda deitaram nas redes, atrapalhando as pessoas que ficavam embaixo das mesmas. Alguns companheiros (Rodrigo, Douglas, Guilherme, Fernando, Raul e Jhonata Henrique), foram pra outra barraca, pois lá, embora as redes estivessem encharcadas e o teto inacabado, ao menos tinha mais espaço. A estratégia era manter-se junto primando pelo calor humano. Minha rede estava bem no meio da barraca, mas era inviável descansar nela, felizmente Guilherme cedeu-me sua rede e seu saco de dormir, fiquei relativamente confortável. A noite infernal demorou a passar... Paradoxalmente ainda mantíamos o bom humor.
2º dia (27 de janeiro de 2011) – Caiçara: União de forças
Acordamos cedo. Severo e Fernando logo já tinham acendido a fogueira (nosso fogão). O dia prometia ser longo e cheio de trabalho. Na ocasião, cinco companheiros foram embora (João Arruda, Henrique (professor), Rafael, Zapata e Marcos) alguns por cansaço e outros que já tinham avisado que não seguiria toda jornada. Vale ressaltar um acontecido importante: por meio de uma brincadeira mal calculada, o Mestre acabou constrangendo o companheiro Zapata, a expressão de arrependimento tomou conta do cabisbaixo Mestre. Esse fato aparentemente corriqueiro nos ensinou a ter mais cuidado com nossas atitudes, pois mesmo sem intenção, nossas ações podem ter como reação conseqüências nocivas a terceiros que admiramos. Nosso café da manhã foi novamente o mesmo da noite anterior.
Após a saída do pessoal, iniciamos nosso trabalho. Um grupo foi buscar água na bica, próxima de onde ficamos alojados, tanto pra beber quanto cozinhar, e outro já voltou a construir a barraca inacabada. Natany e Severo dedicavam-se a cozinhar nosso almoço. Almoçamos uma comida muito saborosa. Votamos a barraca, mais palhas de pindoba foram necessárias. Embora fosse um trabalho não tão frágil, me identifiquei bastante com o manusear do facão e o corte das palhas, sobretudo com a ajuda da Thássia.
As forças se voltaram à construção da barraca. Todos se empenhavam ao máximo. Outrossim, a quantidade de trabalho era equânime ao bom humor e disposição do grupo. Aproveitamos pra dialogar sobre temáticas do cotidiano: qualidades/defeitos masculinas e femininas, identidade e personalidade, enfim meandros das relações humanas. Minhas posições um tanto eloquentes renderam-me o apelido de “Simone de Beauvoir”. Adorei o apelido, pois gosto da sensibilidade intelectual e pessoal da escritora. Contudo, defendi-me: “Não sou feminista, apenas sou contra o machismo”. Esses homens... (risos).
No fim da tarde, a segunda barraca estava finalizada e todas as redes estavam armadas. Organizamos grupos pra ir tomar banho na bica, primeiro as meninas e depois os rapazes. A estrada que dava acesso à bica não era muito distante, entretanto requeria astúcia, pois era constituído por ladeiras íngremes e escorregadias. Próximo a bica, existe uma enorme árvore de manga rosa, a qual nos cedeu frutos saborosos, sendo um dos meus recantos favoritos. Nesse dia, durante o banho percebemos a ocorrência de inúmeros pontos pretos pelo corpo de Leilane, posteriormente, com a ajuda do Mestre, percebemos que se tratava de pequenos carrapatos oriundos das pontas da folhas ou ainda do contato que tivemos com o chão da barraca. Aparentemente, eles adoravam parasitar a Leilane e o Arthur. No meu caso, só encontrei dois parasitas durante toda nossa estádia.
Já era noite. Na ocasião procedeu-se nosso primeiro momento de reflexão formal. O Mestre solicitou que todos explanassem suas considerações sobre o grupo e sobre o Ouricuri. Percebi no discurso a alegria e satisfação geral em participar desse Ouricuri, caracterizado por uma família harmônica e integrada. Jantamos. Logo mais, ainda improvisamos uma animada roda de música. Foi incrível. Enfim, todos foram dormir.
3º dia (28 de janeiro de 2011) – Descanso Merecido
Acordamos cedo. Como sempre Severo e Fernando já estavam no “fogão”. A tranquilidade do momento só foi quebrada pela expressão de desespero de Natany, ela acabara de descobrir que sua prima, doente e internada no hospital de Maceió, havera falecido (em suma, o Mestre tinha proibido o uso do celular de forma indiscriminada, permitindo seu uso apenas a noite, entretanto, esse caso demandou exceção). Ela teve que abandonar a jornada, sendo Douglas o Caiçara que a acompanhou até a casa mais próxima a qual lhe ofereceu carona até Murici. Ficamos muito tristes com o acontecido, mas nosso retiro continuava.
Este se configurou no dia mais tranquilo de todos. Em geral, passávamos mais tempo na barraca do Severo, pois era lá onde fazíamos a fogueira e consequentemente, as refeições. Após o almoço, ficamos a conversar as futilidades do dia-a-dia. Esses momentos, embora triviais, foram de extrema importância na aproximação e (re) conhecimento do grupo. E o que é melhor, tudo isso feito tomando o delicioso café de rapadura do Fernando. Ainda cantamos bastante, mormente, a cantiga ensinada por Guilherme, a qual se tornou nosso “hino oficial”:
“Voando como Águia, voando alto.
Dando voltas no Universo, dando voltas lá no céu,
Com asas de luz, com asas de amor
Ai que taiaiai, ai que taiaiô”
Por volta das duas da tarde, o Mestre desperta do seu cochilo e nos chama a aprender a construir objetos com o próprio material da Mata: arapuca e zarabatana. Foi muito interessante perceber como o bambu, sisal e coisas naturais se transformam em objetos úteis à sobrevivência na mata. Infelizmente o tempo foi curto e não deu pra todos fabricarem seus próprios instrumentos.
Já era quase tarde, mais uma vez tomamos banho, jantamos e fizemos nosso segundo momento de reflexão. Discurso da noite: “O dia foi muito agradável, o grupo é muito unido e alegre, hoje em nada lembrou o inferno de outras noites”. Ainda cantamos um pouco e fomos dormir.
4º dia (29 de janeiro de 2011) – Desbravando a Mata Serra do Ouro
Como de costume acordamos cedo. O Mestre nos convocou a desbravar a Mata. Todos os Caiçaras foram, com exceção de Leilane e Fernando, isso porque a primeira estava com uma enorme bolha no pé e o segundo ficou pra fazer companhia e ajudá-la no que fosse necessário. Adentramos a Mata entusiasmados, seguindo o Mestre que ia a frente abrindo caminho com o facão. Durante a jornada, a qual também era um tanto vertical e úmida requerendo astúcia de todos, íamos parando, ouvindo atentos as curiosidades explanadas por nosso “Guia”.
No auge da escalada, chegamos até uma estação de estudos sobre modificações genéticas da cana-de-açúcar, pertencente à Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e algumas Organizações interessadas. Ainda exploramos o local e travamos um diálogo rápido de saudação com o vigia do local. Nesse percurso, encontramos uma pequena barragem de águas límpidas Arthur, Raul e Jhonata Henrique até se aventuraram em nadar. Logo voltamos pro acampamento, estávamos famintos e cansados, mas contentes com as descobertas realizadas.
Felizmente, Fernando e Leilane preparam um almoço muito saboroso, elogiado por todos. O fim da tarde foi muito produtivo. O Mestre continuou a nos ensinar construção de armadilhas, algumas com estratégias bem curiosas, dignas de filmes. Ademais, ainda fabricamos arcos, flechas, talheres e flautas. Era nítida a preocupação do Mestre em que cada Caiçara produzisse algo com suas próprias mãos. O grupo tava tão empolgado com as atividades que já era quase noite quando fomos tomar banho: tornamo-nos alvos fáceis dos mosquitos e afins, embora com todo repelente usado. Nesse ritmo frenético e dinâmico, o dia passou rápido.
Decidimos essa noite inverter o processo e o último momento de reflexão antecedeu o jantar. Com certeza, o momento reflexivo dessa noite foi peculiar, com tom de nostalgia de tudo que havíamos vivido até então. Grosso modo, o discurso da noite: “Apesar de passamos por inúmeros obstáculos e sofrimentos, tudo valeu a pena, e o êxito desse Ouricuri se deve a harmonia e integração desse grupo que procurou sua superação em coletividade. Sentiremos saudade”. Essa última noite foi marcada ainda por uma roda feita em volta da fogueira ao som de cantigas animadas de capoeira embalada pelo pandeiro de Arthur. Acredito que tenha sido um dos momentos mais divertidos.
5º dia (30 de janeiro de 2011) – A despedida da Família Caiçara
Ao amanhecer do dia, juntamos todas as coisas trazidas por nós. Queimamos todos os materiais de plástico tendo o cuidado de não deixar pra trás qualquer sujeira nociva a natureza. Sempre ao som de nosso coro favorito (“Voando como águia...”), pegamos entusiasmados a estrada de volta a Murici. Nosso grupo agora se resumia a 12 Caiçaras. Durante o retorno formou-se dois grupos, sendo que o mais atrasado liderado pelo Mestre Tamuia, ficou muito atrás levando em consideração seu desvio a residência que auxiliou Natany, em dias anteriores, a fim de agradecer a disponibilidade em ajudar uma Caiçara.
Na ocasião, eu acompanhava o grupo da frente, contudo parafraseando um ditado popular: “Os últimos serão os primeiros”, ouvimos um som alto de buzina, ao olharmos pra trás nos deparamos com o “grupo mais atrasado” sobre a carroceria de um caminhão, ingressamos também na carona, contentes por não ter que caminhar novamente todo aquele percurso até Murici. A viagem foi hilária, uns iam sentados curtido os balanços nada sutis do caminhão enquanto que outros, como eu, preferia a sensação de liberdade trazida pelo bater do vento na face junto à grade dianteira. A jornada de quase 5 horas foi feita em aproximadamente 20 minutos. Chegamos a Murici por volta das 10:00h. Ainda almoçamos uma comida caseira muito boa em um pequeno restaurante familiar (Restaurante da Vovó) e aguardamos uma van que nos levasse até Maceió. O carro chegou. Durante toda a jornada, o grupo foi cantando animadas músicas de capoeira.
Leilane e Jhonata Henrique foram os primeiros a descer. O resto do grupo ficou em frente o supermercado Makro. De lá, cada um seguiu seu próprio caminho. No meu caso, o pai de Fernando (Sr. Afrânio) gentilmente levou-me até a Rodoviária de onde peguei um ônibus da Empresa Palmeirense e retornei a minha residência, em Palmeira dos Índios. Família Caiçara voltava agora a sua rotina em meio à “sociedade civilizada”.
Conclusão
Quando decidi ir pra esse Ouricuri, muitos amigos falavam em tom de brincadeira: “Você é louca, não tem juízo, ir pro meio do mato...blá, blá, blá...” Porém, sempre estive convicta dessa atitude, até porque eu me perguntava: o que é Loucura? Cheguei à conclusão de que ser louca, em muitos casos, é apenas uma questão de perspectiva. Se ser doida é fazer o que se gosta com responsabilidade independente do que pensa a sociedade (e mesmo nossa própria família biológica, no meu caso um tanto preconceituosa), ótimo, sejamos loucos. Acredito que esses sejam os mais felizes, ao menos dentro da sua própria realidade.
A experiência ainda me proporcionou outras descobertas. O Mestre com toda sua perspicácia socrática fazia-me cair em contradição em muitos dos diálogos travados. Percebi então como minhas idéias e personalidade estão no ápice de sua construção. Se isso me preocupa? Não. Afinal todo ser está em processo contínuo de (re) construção. Como já filosofava Raulzito, não tenho dúvida de que é melhor ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Isso evita maniqueísmos e idéias absolutas carregadas de preconceitos e limitações.
Ademais, embora eu sempre reflita sobre questões do gênero, esse Ouricuri intensificou sob outra ótica algumas inquietações. Ora a pseudo-vida que levamos em meio à “sociedade civilizada” nada mais é do que o reflexo de uma organização fútil e egoísta, carregadas de ideologias alienantes que destróem o que o ser humano tem de mais precioso: sua habilidade inata/cultural de comunicação e planejamento. Afinal como o próprio Mestre Tamuia nos interroga:
De onde vem o arroz que você come todos os dias? Você planta o feijão que come? Você criou, matou ou caçou a carne que devora cotidianamente? Você deve ao menos saber de onde vem o seu sustento? Presumo que você seja capaz de calcular o esforço humano que existe por trás de seu alimento?
Acredito que não. Esse retiro serve justamente pra fazer pensar essas questões. Portanto, alicerçada ainda em nosso Mestre posso afirmar que o objetivo desse Ouricuri foi cumprido com êxito: desenvolvendo em nós um elo entre o que somos e nossa brasilidade nativa, fazendo-nos pensar nosso papel social e nosso papel enquanto ser existencial.
Por outro lado, nada disso seria possível sem a presença de uma Família integrada como a nossa imersa em uma atmosfera de respeito à alteridade e as diferenças, sobretudo a de gênero. Cada um contribuindo com suas peculiaridades, mormente os Caiçaras que ficaram até o fim da jornada e com quem mantive mais proximidade:
Arthur – inteligente e muito bem humorado. Além de forte e perspicaz.
Rodrigo – guerreiro corajoso, ágil e com resistência física invejável.
Fernando – exímio cozinheiro, também forte e ágil. Além de tudo ainda é cavalheiro, pois está sempre pronto a ajudar a todos.
Guilherme – sua timidez oculta um pouco seu potencial, mesmo assim demonstra ser um ótimo cantor, além de corajoso, é extremamente altruísta e cavalheiro (nunca esquecerei que me cedeu sua rede na “noite infernal”. Valeu!).
Severo – hábil em liderar, muito experiente e sábio. Também muito cavalheiro (cedia-me sempre que necessário um espaço em sua exígua rede, uma vez que a minha era desconfortável (aquelas com enormes lacunas) e vivia encharcada pelas goteiras da barraca. Valeu!)
Douglas – forte e destemido. Está sempre pronto a ajudar o Outro.
Raul – muito educado e cavalheiro.
Jhonata Henrique – muito divertido e forte. Exímio “Caçador”, o melhor do grupo (risos). Junto com os outros meninos da nossa barraca (Raul, Guilherme e Severo), conversávamos até tarde sobre inúmeras temáticas do dia-a-dia. Diversão garantida.
Natany – exímia cozinheira, sempre bem humorada e divertida.
Leilane – Caiçara de fibra, tem um espírito de cooperação muito aflorado.
Thássia – das meninas, foi com quem mantive mais contato. Sempre muito corajosa, topava qualquer desafio sem pensar duas vezes. Identifiquei-me demais com ela, pois não é fútil e nem “mamífero de luxo”. Sua gargalhada é contagiante.
Mestre Tamuia – extremamente idôneo. Preocupava-se com cada movimento do grupo, evitando possíveis problemas. Muito corajoso e inteligente desenvolve com maestria seu posto de liderança.
Todos vocês me ensinaram que o essencial a sobrevivência, às vezes é mais simples do que parece, sem necessariamente precisar de toda parafernália da vida moderna. Longe de hipocrisias, sinto que faço parte desse grupo. Agora me sinto uma Caiçara (inclusive essas foram as palavras proferidas por mim no último dia de reflexão do acampamento). Acredito que a conquista desse sentimento tenha sido minha maior recompensa.
Por fim, diante de tudo que vivenciamos, ouso afirmar que Caiçara implica em liberdade, mas não uma liberdade anárquica e/ou inconsequente. Caiçara é sinônimo de liberdade com responsabilidade personificada em nosso Mestre Tamuia e em todos nós. Obrigada, Família Caiçara!
Salve a Caapoeira!
Isvânia Alves dos Santos
Palmeira dos Índios, 05 de fevereiro de 2011
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