Relatório
do Ouricuri Caiçara 2011.1
Introdução
Durante séculos indígenas de tronco
lingüístico macro-jê e macro-tupi procuram estabelecer sua reflexão existencial
a partir de um contato próximo com a natureza. Esses grupos no Nordeste
brasileiro costumam ainda hoje se afastar por determinados períodos do ano e
morar na mata. Constroem então casas cobertas com palha de palmeira pindoba e
ouricuri e por essa razão esse momento de reflexão muitas vezes é chamado de
ouricuri, fazendo referência às folhas das palmeiras.
O processo civilizatório estabelece uma nova
forma do homem lidar com a realidade. Compreendemos que a cultura se constrói a
partir da interação do homem com o ambiente para daí construir sua
subsistência. Como as cidades oferecem novas formas de interação do homem com o
ambiente, julgamos importante o contato temporário do homem com um ambiente
menos artificial que os das cidades. Ouricuri, portanto, além de representar
uma tradição antiga é um momento de encontro, aprendizagem e superação do homem
frente às adversidades que encontramos para nos mantermos vivos.
O Grupo Caiçara vem desde o seu nascimento
realizando 2 ouricuris anuais como oportunidade reflexiva para seus
integrantes. Um encontro ocorre próximo do solstício de verão e o outro no
solstício de inverno. O ouricuri da chuva geralmente envolve uma longa
caminhada, mas o ouricuri do sol geralmente ocorre num ambiente de mata
fechada. Este relatório descreve o ultimo ouricuri do sol que ocorreu nas matas
da Serra do Ouro, localizada no município alagoano de Murici.
Preparação
O ouricuri na Serra do Ouro já se processa há
vários anos e por este motivo havíamos decidido que seria melhor efetuarmos
este ouricuri na Serra da Nacéia que fica localizada entre os municípios
alagoanos de Atalaia e Boca da Mata. A Serra da Nacéia é a mais alta de Alagoas
e dela, apesar de estar localizada na zona da mata, podemos enxergar o mar.
Todavia, a área estava muito desmatada, havia muitas habitações nas encostas da
serra e a água era escassa e suja. Como tínhamos previsão de mais de 25 pessoas
participando deste momento, muitas delas pela primeira vez, julgamos que seria
inadequado levarmos um contingente tão elevado e despreparado para um lugar
inóspito como aquele. Um grupo preparado certamente não teria dificuldades, mas
não era o caso deste momento em que vários caiçaras participavam pela primeira
vez.
Mudamos então para um local já bem conhecido
nosso: Serra do Ouro. Seria mais seguro, pois os recursos necessários ao nosso
estabelecimento no local por vários dias seriam garantidos. Assim, o Severino
fez uma inspeção antes no local marcamos nosso evento para o dia 25 de janeiro
de 2011.
Primeiro
Dia – A Partida e o Novo Hotel
Nosso primeiro dia é um corre-corre para
todos, arrumação das malas e verificação dos equipamentos. Partimos de Maceió
no final da tarde. Todos foram para a Polícia Rodoviária Federal e eu fui
providenciar o transporte. Em contato por telefone fiquei sabendo que Thássia,
Arthur e Rodrigo ainda não tinham chegado no horário marcado, por essa razão
tive que atrasar. Pois, o motorista da van já possuía passageiros e não poderia
esperar beirando a pista. Quando fui informado da chegada deles parti
imediatamente. Saímos no final da tarde e chegamos em Murici próximo do
entardecer.
Marcamos para jantar juntos as 19:30 e
liberamos todos para que pudessem conhecer a cidade. Nesse momento o Cícero
Adriano (Havião), conhecido posteriormente como Zapata, chegou e uniu-se a mim
e ao Severino. Fomos dar uma volta na cidade e quando retornamos o Marcos, o
Raul e outros estavam comendo antes dos outros. Então mudamos um pouco a
programação e acabamos liberando a alimentação para todos.
Ao final da refeição nos reunimos na frente
do Novo Hotel, que era o local que iríamos passar a noite. Demos as instruções
gerais e frisamos a necessidade de unidade e respeito no grupo. Fomos dormir em
seguida, mas o sono demorou a chegar.
Segundo
Dia – Longa Caminhada e Montagem do Acampamento
No dia 26 de janeiro saímos do Novo Hotel um
pouco mais das 03h:00min da madrugada. Andamos, andamos e andamos, 20km no
total. Carregávamos peso, o percurso era íngreme em sua maior parte, mas mesmo
assim fizemos o percurso com uma média de 4km por hora. Fizemos algumas paradas
e por isso chegamos ao local um pouco mais de 09h:00min da manhã. Após
descansarmos enquanto comíamos uma jaca partimos para o local definitivo de
nosso ouricuri.
Eu, Severino e o Fernando fizemos essa
inspeção e ficamos no local dos antigos ouricuris. Voltamos em seguida com o
grupo que estava nos esperando um pouco mais acima e começamos a construção de
nossas cabanas. Nos dividimos em três grupos. Eu fiquei com um, Severino com
outro e o Fernando com o terceiro. Durante as construções enquanto ainda
estávamos ocupados com a parte estrutural da cabana o Severino mandou seu grupo
coletar todas as palhas de palmeira que estavam próximas. Isso deixou os demais
grupos com uma dificuldade, pois precisavam caminhar mais para conseguir as
palhas.
Como todos estavam bastante fatigados decidi
unir o grupo do Fernando ao meu e para isso precisamos ampliar ainda mais a
cabana. Isso nos consumiu mais tempo e recursos. Chegamos ao final do dia e
ainda não tínhamos coberto totalmente nossa cabana. Mandei então que alguns
fossem ajudar o Severino para que tivéssemos pelo menos uma barraca coberta
durante a noite.
A barraca do Severino foi concluída e isso
ajudou muito pois choveu bastante durante a noite. Mesmo assim o Douglas,
Rodrigo, Fernando e Jonathas preferiram dormir na barraca que ainda não havia
sido concluída.
Terceiro
Dia – As Desistências e a Bonança
No dia anterior o Henrique Cahe, o Arthur e o
Marcos passaram muito mal devido o esforço excessivo. Os outros também estavam
bastante desolados com exceção das meninas e dos rapazes que já haviam passado
pela empreitada em outros momentos. Assim, desistiram de continuar o Cícero
Adriano que passou mal do estomago, o Marcos Prochazca, o Henrique Cahe e o
Raphael Lessa. O João precisou retornar pois conforme relato do mesmo tinha
atividades profissionais. Ficaram no grupo para continuar o ouricuri o Arthur,
Rodrigo, Guilherme, Raul, Severino, Jonathas, Douglas Julião, Fernando,
Thássia, Nathany, Isvania, Leilane e eu.
Nesse dia terminamos de concluir as barracas
e cuidamos de nossas provisões. Tudo começou a ficar calmo e estávamos prontos
para nossas reflexões. Passamos então a planejar os demais dias. Já era
quinta-feira e precisávamos focar nossas ações. Durante a noite conversamos
sobre a necessidade de sermos honestos com nós mesmos e definirmos as decisões
de nossas vidas. O discurso girou em torno do fato de que as pessoas que não
são honestas consigo não conseguem força e perseverança.
Um episódio marcante deste dia foi uma
brincadeira de mal gosto que tirei com meu amigo Havião e que me deixou muito
mal durante todo o resto do acampamento.
Quarto
Dia – Descanso Merecido
No quarto dia, fizemos tudo muito devagar e
com muito relaxamento. Apenas no final da tarde começamos a fabricar arcos,
bodoques, sarabatanas e flautas. Comemos durante a noite fazendo mais reflexões
e nos preparando para o dia seguinte em que faríamos uma longa caminhada pela
mata. Aconteceu que a Nathany precisou retornar neste dia pois recebeu
comunicado do falecimento de sua prima que já estava doente no hospital. O
Douglas Julião acompanhou ela até uma parte do caminho onde ela conseguiu uma
carona.
Quinto
Dia – Caminhada pela Mata e Construção de Armadilhas
No quinto dia, sábado, deixamos a Leilane e o
Fernando preparando nosso almoço enquanto nós entramos mata adentro em direção
norte. Subimos a serra pela mata e chegamos na Estação Serra do Ouro da UFAL.
Tiramos fotos, falamos com os responsáveis e começamos nosso retorno.
Quando chegamos no local o almoço já estava
pronto. Comemos, descansamos, cantamos e começamos a trabalhar nas armadilhas.
Ensinei a turma a fazer algumas armadilhas
utilizando o próprio material da mata. Trabalhamos com armadilhas de laço,
aratanha. Discutimos sobre a fabricação das armadilhas e finalizamos nossas
atividades com nossa ida ao banho diário. Durante a noite fizemos nossa
reflexão final e nos preparamos para sair no dia seguinte.
Fomos dormir e estávamos todos concordando
que seis dias juntos passaram muito rápido.
Sexto
Dia – O Retorno
Acordamos cedo e queimamos todo material que
havia ficado e não era biodegradável. Começamos a caminhada e quando chegamos
na parte plana pegamos uma carona num caminhão. Ao chegar na entrada de Murici
comemos todos no Restaurante da Vovó. Tomamos sorvete e pegamos uma vã.
Descemos todos no Macro, com exceção da Leilane e do Jonathas que tiveram que
descer antes.
Considerações
Finais
Momentos como este são de máxima importância,
pois além de testarmos nossos limites, aprendemos a conviver com as pessoas em
seu aspecto mais verdadeiro. Aprendemos muito e formamos laços que não são
desfeitos com tanta facilidade. Esperamos que todos que participam possam
sentir em toda plenitude a riqueza deste momento de reflexão.