segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tamuia


Relatório do Ouricuri Caiçara 2011.1


Introdução

Durante séculos indígenas de tronco lingüístico macro-jê e macro-tupi procuram estabelecer sua reflexão existencial a partir de um contato próximo com a natureza. Esses grupos no Nordeste brasileiro costumam ainda hoje se afastar por determinados períodos do ano e morar na mata. Constroem então casas cobertas com palha de palmeira pindoba e ouricuri e por essa razão esse momento de reflexão muitas vezes é chamado de ouricuri, fazendo referência às folhas das palmeiras.

O processo civilizatório estabelece uma nova forma do homem lidar com a realidade. Compreendemos que a cultura se constrói a partir da interação do homem com o ambiente para daí construir sua subsistência. Como as cidades oferecem novas formas de interação do homem com o ambiente, julgamos importante o contato temporário do homem com um ambiente menos artificial que os das cidades. Ouricuri, portanto, além de representar uma tradição antiga é um momento de encontro, aprendizagem e superação do homem frente às adversidades que encontramos para nos mantermos vivos.

O Grupo Caiçara vem desde o seu nascimento realizando 2 ouricuris anuais como oportunidade reflexiva para seus integrantes. Um encontro ocorre próximo do solstício de verão e o outro no solstício de inverno. O ouricuri da chuva geralmente envolve uma longa caminhada, mas o ouricuri do sol geralmente ocorre num ambiente de mata fechada. Este relatório descreve o ultimo ouricuri do sol que ocorreu nas matas da Serra do Ouro, localizada no município alagoano de Murici.

Preparação

O ouricuri na Serra do Ouro já se processa há vários anos e por este motivo havíamos decidido que seria melhor efetuarmos este ouricuri na Serra da Nacéia que fica localizada entre os municípios alagoanos de Atalaia e Boca da Mata. A Serra da Nacéia é a mais alta de Alagoas e dela, apesar de estar localizada na zona da mata, podemos enxergar o mar. Todavia, a área estava muito desmatada, havia muitas habitações nas encostas da serra e a água era escassa e suja. Como tínhamos previsão de mais de 25 pessoas participando deste momento, muitas delas pela primeira vez, julgamos que seria inadequado levarmos um contingente tão elevado e despreparado para um lugar inóspito como aquele. Um grupo preparado certamente não teria dificuldades, mas não era o caso deste momento em que vários caiçaras participavam pela primeira vez.

Mudamos então para um local já bem conhecido nosso: Serra do Ouro. Seria mais seguro, pois os recursos necessários ao nosso estabelecimento no local por vários dias seriam garantidos. Assim, o Severino fez uma inspeção antes no local marcamos nosso evento para o dia 25 de janeiro de 2011.

Primeiro Dia – A Partida e o Novo Hotel

Nosso primeiro dia é um corre-corre para todos, arrumação das malas e verificação dos equipamentos. Partimos de Maceió no final da tarde. Todos foram para a Polícia Rodoviária Federal e eu fui providenciar o transporte. Em contato por telefone fiquei sabendo que Thássia, Arthur e Rodrigo ainda não tinham chegado no horário marcado, por essa razão tive que atrasar. Pois, o motorista da van já possuía passageiros e não poderia esperar beirando a pista. Quando fui informado da chegada deles parti imediatamente. Saímos no final da tarde e chegamos em Murici próximo do entardecer.

Marcamos para jantar juntos as 19:30 e liberamos todos para que pudessem conhecer a cidade. Nesse momento o Cícero Adriano (Havião), conhecido posteriormente como Zapata, chegou e uniu-se a mim e ao Severino. Fomos dar uma volta na cidade e quando retornamos o Marcos, o Raul e outros estavam comendo antes dos outros. Então mudamos um pouco a programação e acabamos liberando a alimentação para todos.

Ao final da refeição nos reunimos na frente do Novo Hotel, que era o local que iríamos passar a noite. Demos as instruções gerais e frisamos a necessidade de unidade e respeito no grupo. Fomos dormir em seguida, mas o sono demorou a chegar.

Segundo Dia – Longa Caminhada e Montagem do Acampamento 

No dia 26 de janeiro saímos do Novo Hotel um pouco mais das 03h:00min da madrugada. Andamos, andamos e andamos, 20km no total. Carregávamos peso, o percurso era íngreme em sua maior parte, mas mesmo assim fizemos o percurso com uma média de 4km por hora. Fizemos algumas paradas e por isso chegamos ao local um pouco mais de 09h:00min da manhã. Após descansarmos enquanto comíamos uma jaca partimos para o local definitivo de nosso ouricuri.

Eu, Severino e o Fernando fizemos essa inspeção e ficamos no local dos antigos ouricuris. Voltamos em seguida com o grupo que estava nos esperando um pouco mais acima e começamos a construção de nossas cabanas. Nos dividimos em três grupos. Eu fiquei com um, Severino com outro e o Fernando com o terceiro. Durante as construções enquanto ainda estávamos ocupados com a parte estrutural da cabana o Severino mandou seu grupo coletar todas as palhas de palmeira que estavam próximas. Isso deixou os demais grupos com uma dificuldade, pois precisavam caminhar mais para conseguir as palhas.

Como todos estavam bastante fatigados decidi unir o grupo do Fernando ao meu e para isso precisamos ampliar ainda mais a cabana. Isso nos consumiu mais tempo e recursos. Chegamos ao final do dia e ainda não tínhamos coberto totalmente nossa cabana. Mandei então que alguns fossem ajudar o Severino para que tivéssemos pelo menos uma barraca coberta durante a noite.

A barraca do Severino foi concluída e isso ajudou muito pois choveu bastante durante a noite. Mesmo assim o Douglas, Rodrigo, Fernando e Jonathas preferiram dormir na barraca que ainda não havia sido concluída.

Terceiro Dia – As Desistências e a Bonança

No dia anterior o Henrique Cahe, o Arthur e o Marcos passaram muito mal devido o esforço excessivo. Os outros também estavam bastante desolados com exceção das meninas e dos rapazes que já haviam passado pela empreitada em outros momentos. Assim, desistiram de continuar o Cícero Adriano que passou mal do estomago, o Marcos Prochazca, o Henrique Cahe e o Raphael Lessa. O João precisou retornar pois conforme relato do mesmo tinha atividades profissionais. Ficaram no grupo para continuar o ouricuri o Arthur, Rodrigo, Guilherme, Raul, Severino, Jonathas, Douglas Julião, Fernando, Thássia, Nathany, Isvania, Leilane e eu.

Nesse dia terminamos de concluir as barracas e cuidamos de nossas provisões. Tudo começou a ficar calmo e estávamos prontos para nossas reflexões. Passamos então a planejar os demais dias. Já era quinta-feira e precisávamos focar nossas ações. Durante a noite conversamos sobre a necessidade de sermos honestos com nós mesmos e definirmos as decisões de nossas vidas. O discurso girou em torno do fato de que as pessoas que não são honestas consigo não conseguem força e perseverança.

Um episódio marcante deste dia foi uma brincadeira de mal gosto que tirei com meu amigo Havião e que me deixou muito mal durante todo o resto do acampamento.


Quarto Dia – Descanso Merecido

No quarto dia, fizemos tudo muito devagar e com muito relaxamento. Apenas no final da tarde começamos a fabricar arcos, bodoques, sarabatanas e flautas. Comemos durante a noite fazendo mais reflexões e nos preparando para o dia seguinte em que faríamos uma longa caminhada pela mata. Aconteceu que a Nathany precisou retornar neste dia pois recebeu comunicado do falecimento de sua prima que já estava doente no hospital. O Douglas Julião acompanhou ela até uma parte do caminho onde ela conseguiu uma carona.

Quinto Dia – Caminhada pela Mata e Construção de Armadilhas

No quinto dia, sábado, deixamos a Leilane e o Fernando preparando nosso almoço enquanto nós entramos mata adentro em direção norte. Subimos a serra pela mata e chegamos na Estação Serra do Ouro da UFAL. Tiramos fotos, falamos com os responsáveis e começamos nosso retorno.
Quando chegamos no local o almoço já estava pronto. Comemos, descansamos, cantamos e começamos a trabalhar nas armadilhas.

Ensinei a turma a fazer algumas armadilhas utilizando o próprio material da mata. Trabalhamos com armadilhas de laço, aratanha. Discutimos sobre a fabricação das armadilhas e finalizamos nossas atividades com nossa ida ao banho diário. Durante a noite fizemos nossa reflexão final e nos preparamos para sair no dia seguinte.

Fomos dormir e estávamos todos concordando que seis dias juntos passaram muito rápido.

Sexto Dia – O Retorno

Acordamos cedo e queimamos todo material que havia ficado e não era biodegradável. Começamos a caminhada e quando chegamos na parte plana pegamos uma carona num caminhão. Ao chegar na entrada de Murici comemos todos no Restaurante da Vovó. Tomamos sorvete e pegamos uma vã. Descemos todos no Macro, com exceção da Leilane e do Jonathas que tiveram que descer antes.

Considerações Finais

Momentos como este são de máxima importância, pois além de testarmos nossos limites, aprendemos a conviver com as pessoas em seu aspecto mais verdadeiro. Aprendemos muito e formamos laços que não são desfeitos com tanta facilidade. Esperamos que todos que participam possam sentir em toda plenitude a riqueza deste momento de reflexão.

sábado, 9 de abril de 2011

Rodrigo Gluck


            Por conta da minha falta de responsabilidade, não teve como eu fazer um relatório na estruturação que foi posta por outros colegas caiçaras, onde relatos de dias, e acontecimentos específicos são descritos, ao invés disso resolvi postular os benefícios que essa experiência proporcionou em minha vida.

Primeiramente gostaria de agradecer ao mestre Gérson e pelos colegas que participaram deste evento, por me proporcionar uma experiência que muitos não terão nem se quer a audácia de pensar em relação, durante suas vidas. Já que essas vidas são cômodas, e que freqüentemente não são regidas por eles, mas por aparelhos controladores do estado.

Em novembro tinha avisado ao mestre Tamuia, que em janeiro minha participação do processo do ouricuri seria bastante difícil, pois eu estava com uma viagem marcada para visita meu pai fora do estado. A viagem não aconteceu, mas agradeço ao mestre pelo adiamento desse evento para minha possível participação. O que me possibilitou uma experiência única em minha vida.

Após minha participação no ouricuri anterior pelo grupo caiçara, a minha perspectiva era grande para essa edição, ainda mais sendo uma experiência diferente de uma caminhada. Desta vez a proposta seria de um confinamento de cinco dias numa mata fechada com um grupo de pessoas, essa idéia surtia dois efeitos em minha pessoa, a ansiedade e o medo. Acredito que sejam normais essas sensações para todos que estão prestes a realizar um grande feito.

Quem me conhece há algum tempo, como é o exemplo do Arthur, sabe o quanto a minha entrada no grupo caiçara proporcionou-me uma mudança, são inúmeras as características de limitações que eu possuía, e que contornei, com os treinos e eventos que o grupo realizou. (isso me faz   lembrar uma pergunta que o mestre me fez há uns dias, onde perguntou se minha entrada no grupo tinha valido a pena. Na minha cabeça ele só poderia estar de brincadeira, pois era totalmente visível as mudanças positivas que se apresentavam. Eu interpretei como uma pessoa querendo ganhar elogio por uma coisa obvia, rsrsrsrs).

No final de dezembro acabei realizando outra viagem, essa para visitar meu tio em salvador, com um grupo de amigos. Meu tio tem uma formação militar e ate hoje trabalha no ramo de segurança privada. Os dois amigos que seguiram viagem comigo também tinham formações militares e logo os temas mais freqüentes eram em relação a experiências no quartel. No final da viagem ficou inevitável a comparação e a cobrança de meu tio em relação a mim, pois por eu não ter relações com forças militares eu não “sabia viver”, e por um sentimento normal de proteção, acabou vendo-me como fraco e imaturo.. Isso gerava em mim um grande desconforto, pois eu havia me esforçado tanto durante esse ano que tinha passado, e mesmo assim as pessoas próximas a mim não notavam.

Essa viagem me possibilitou grandes reflexões a cerca de minha vida, e como tanto meu tio, como minha mãe e os restantes dos familiares, não tinham culpa de ter uma visão de mim como sendo uma pessoa fraca e acomodada. Se durante 20 anos de minha vida eu me comportei de uma determinada forma e somente um ano dessa existência eu mudei e comecei a entender a arte de viver. Eles têm todo o direito de duvidar de meus feitos, pois só com resultados eu posso mudar essa concepção a respeito de mim.

Foi com essas e outras motivações que seguir rumo a Murici. Para junto à experiência da caminhada até a foz do São Francisco, esses eventos foram ferramentas que possibilitaram uma mudança em minhas fraquezas.

Neste evento algo importante foi trabalhado em minha vida, por eu ter tido um crescimento muito rápido em um ano, minha estima estava muito alta, apesar da visão de minha mãe e de meu tio em relação a mim. Na minha cabeça eu não tinha mais o que aprender na faculdade em relação aos professores que ali si encontravam, e agora me incomodava em receber conselhos, justamente por não dar valor à opinião dos outros, em relação a minha constituição como pessoa.

            O acampamento me possibilitou o momento de avaliar e conhecer inúmeras fraquezas que eu possuía e estava acomodado em trabalhá-las. A maioria dos discursos na hora do desabafo nas noites do acampamento era referente à capacidade de superação que maioria ali conseguiu superar, já que muitos não pesavam que fossem conseguir chegar ate aquele ponto.

No meu caso foi o inverso, minha estima estava tão elevada que na minha cabeça eu era capaz de passar por isso com bastante facilidade. No imaginário e ideal do sujeito, ele tem grandes capacidades e facilidades, o problema é quando este volta à realidade, e percebe que as coisas não são tão simples. Por conta disso o grande foco para mim foi volta à enxerga minhas limitações. Na mata vi que a única coisa que eu era útil era em trabalhos braçais. Se prevalecesse a lógica do mundo de hoje, onde os trabalhos intelectuais são mais valorizados que os físicos, eu estava lascado na mata. Por sorte a realidade lá é outra, cada um possui tarefas especificas para um crescimento mútuo.

            Com essa experiência de ouricuri, pude renovar meus objetivos e reconhecer novos pontos que tem de ser trabalhados, além disso, consegui conhecer pessoas novas e outras antigas, mas de ponto de vista distinto. Foram cinco dias de bastante aprendizado e de divertimento também. Fico realmente grato por mais uma lição de vida que o grupo Caiçara me proporcionou. Continuarei trabalhando para por meio de ações  ser reconhecido dentro do grupo e na arte da vida.


Obrigado a todos os Caiçaras, Salve!