quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Arthur

Preâmbulo

“Você é doido é?” “Tem o que fazer não?” foram alguns clichês muito escutados por mim, e talvez pelos outros caiçaras, quando havia o comentário da nossa caminhada até o São Francisco, a pé. Para quem gosta de ter uma vida comum e letárgica; para quem está satisfeito em viver na frente da TV assistindo romances e aventuras, com a vontade de está ali, mas sem coragem, essa nossa caminhada foi, realmente, uma coisa de quem não tem o que fazer. Entretanto, essas mesmas pessoas, ficaram fascinadas ao verem o registro desse Ouricuri, admirando os que participaram desse feito. Pois bem, se quem apenas viu o registro e ficou fascinado, imaginem os indivíduos que estavam ali presentes! Isso foi único na minha vida. Aprendizados que estarão presentes até o fim da minha vida e que, com certeza, contribuiu para minha formação como pessoa.
A preparação
O aviso sobre o Ouricuri Pajuçara – Foz do rio São Francisco foi dado desde o ano passado (2009), e o planejamento foi feito com cautela pelo nosso Mestre Tamuia. Eu fiquei interessado nesse desafio desde o começo, e sabia que iria ser difícil. Comecei a me preparar fisicamente desde o começo do mês de julho, pois meu desejo era de chegar à foz a pé. Fui com o mestre fazer a rota, com o carro, e presenciei o tamanho do desafio, fiquei muito animado, principalmente com os 20 km finais de puro deserto, até chegar à Foz. Falei: - Mestre, esse negocio vai ser irado, só estou com receio da travessia do Gunga, acho que ali vai ser a pior parte. Ele respondeu: - Você acha mesmo? Bixo, é não! Desafio vai ser depois dessa travessia. Eu olhei o mapa e pensei: Oxe! É nada, o resto é tranquilo. Foi tranquilo a ponto de inflamar os meus tendões do pé e me forçar a parar no Pontal do Peba, mas cheguei até a Foz, de carro, mas cheguei.
Na semana do início da caminhada nós cinco nos reunimos na casa do Rafael para visualizarmos o mapa, decidir trajetos, estratégias e os equipamentos que iriamos precisar. Nessa mesma reunião ficou decidido todo o caminho a ser percorrido, incluindo a passagem pelos 25 km finais de deserto, marcamos um dia para comprar os equipamentos e a reunião encerrou. Na mesma semana fomos comprar, juntos, o que era preciso: fogão, gás, facas, linhas de mão, anzóis, chumbo, chapéu, mochila, etc. Fui ainda comprar meus alimentos: 1kg de feijão, 500 gramas de fubá, rapadura, tomate e castanha-do-pará. Na quinta-feira, um dia antes da partida, fizemos outra reunião para verificar as mochilas de cada um, para ver se faltava algo; estava tudo certo. Fui para casa dormir, com um pouco de ansiedade, mas muito confiante que iria passar por aquilo tranquilamente.
Dia da Partida (Sexta-Feira)
Sexta-feira, dia da partida, parecia um dia normal, peguei as coisas para ir ao local de encontro. Arrumei o que faltava (inclusive papel higiênico colocado pela minha irmã, apesar de não ter usado ele) e fui pegar o Gluck em casa, nós fomos os primeiros a chegar ao local de partida, logo após chegou o Fernando (com suas panelas penduradas na bolsa), um pouco depois chegou o mestre com uma bagagem mais pesada de todas, e por fim, o Rafael. Nesse exato momento eu pensei: -Bixu, ele vai mesmo! E, sinceramente, não estava achando que ele iria conseguir, por conta da lesão no joelho.
Nesse intervalo de espera apareceu um indivíduo no local onde estávamos e durante meu alongamento ele veio conversar perguntando do que se tratava aquilo, eu expliquei e continuei conversando.No diálogo ele falou: - Amigo, você sabe o que é mais preciso numa caminhada como essa? Eu respondi: - Precisa disciplina para se preparar pra ela. Ele falou: - Também! Mas isso é antes! Pra essa caminhada é preciso humildade. Na verdade aquilo foi o início de uma pregação da palavra de Cristo, que logo cortei e voltei a me alongar. Cada um foi para um lado.Logo após, todos foram chegando ao local e partimos.
Caminhando e todos nos olhando, quando chegamosna praia da avenida, passou um carro de som tocando a música da campanha do Collor.Aquilo foi o início de uma tortura psicológica, foi o primeiro desafio enfrentado por mim, eu fui com a “danada” na cabeça até a massagueira, foi difícil, mas superei. Passando pela central de polícia, um pouco mais a frente, estava um carro da TV alagoas e uns “caras” com câmera e microfone, estávamos famosos! O mestre deu a entrevista e continuamos. Nesse momento estava presente o caiçara Paulo para prestigiar nossa partida. Continuamos e fizemos a primeira parada em frente a Braskem, bebemos água e já sentimos as dificuldades surgindo: peso e calo nos pés, mas nada nem perto de insuportável. Prosseguimos, passamos pelo DENTRAN já anoitecendo, nossa próxima parada foi na polícia rodoviária, ficamos embaixo de uma tenda na beira da pista e deitamos, o peso já iria começar a incomodar e a música do Collor ainda atrapalhava minhas reflexões.
Peguei uma rapadura e fui com ela até a Barra Nova, lá nós paramos num ponto de ônibus e descansamos, os calos já estavam incomodando um pouco mais e retirei o tênis, calcei as havainas. Caminhamos um pouco mais até chegarmos na massagueira onde encontramos um caminhão cheio de melancia e laranja, enchi o estômago de líquido. Continuamos e já estava sendo muito cansativo, só asfalto, farol de carro, mato, beira de pista, peso da mochila e calo no pé; pelo menos isso serviu para esquecer a música do Collor, nada como uma tortura para esquecer de outra. Paramos mais na frente num posto de combustível que tinha um vira-lata e um vigia escutando uma música, de muito mal gosto por sinal. Ali tive o primeiro aprendizado consciente, espantar cachorro quando ele tentar hostiliza-lo; é só abrir os braços e inclinar o corpo para baixo, se aproximando do cão, bem, foi assim que o Mestre espantou o cachorro. Eu utilizei este artifício mais na frente.
Continuamos a andar e paramos no francês, onde cada um de nós fizemos as ligações para nossos familiares, e logo após, zarpamos. O caminho começava a ficar mais longo, o cansaço apertava, o mestre já sentia um pouco do peso de sua mochila, mas o Gluck já tinha ajudado um pouco ao leva-la por alguns Km, agora era minha vez. Botei aquela mochila nas costas, me enverguei um pouco, e fui em direção a Barra, estávamos nos coqueirais antes da Barra e eu já andava com dificuldade, fiquei um pouco para trás, mas não sozinho, nessas horas aparecia o apoio do caiçara mais cheio de garra e mais inteiro de todos, o hábil Fernando; sempre que alguém estava muito atrás ou muito na frente e sozinho, ele ficava do lado fazendo companhia, aquilo já é suficiente para ganhar mais forças nessas horas. Na metade do coqueiral passei a bolsa pro Gluck novamente, andamos mais um pouco e chegamos na trilha que levava à praia. Chegando na praia, montamos o acampamento (meu segundo aprendizado concreto: montar barracas), nesse momento me lembro bem das palavras do mais experiente caiçara, depois do Mestre, ele nos “acordou”: -Bora mermão, ninguém fica parado aqui não! Por alguns centésimos de segundo eu não tinha gostado daquilo, mas logo após concordei com ele e a partir daí eu percebi que ninguém mais parava. Cada um se acomodou em suas barracas e dormiram apesar da “cama” ser dura e irregular, foi um alívio.
Amanhecendo na Barra de São Miguel – Travessia do Gunga
 No outro dia, uma manhã linda, o mar azul brilhando, cenas que compensam a dor dos calos (eu não sabia que aqueles calos eram “fichinha” pra o que nos esperava). Desmontamos o acampamento, pegamos nossas bolsas e 2 bambus cada um, e fomos em direção ao Gunga. No caminho surgiam vários comentários, várias conversas, algumas músicas e a areia fofa nos cansava. Subimos para o interior da Barra de São Miguel já perto do “Arquipélago do Sol”, e sentamos numa calçada com sombra. Ali avistamos uma caminhonete preta passando e dentro estava o Paulo, ele nos procurou desde o começo da Barra. Aquilo deu um grande ânimo ao grupo, e eu estava renovado para atravessar o gunga. No caminho compramos água, pão e um bendito salame, que se fosse fabricado sairia mais rápido do que apenas fatiado pela, cheia-de-vontade, atendente da padaria. Fomos pegando galhos secos no caminho e chegamos no local do início da travessia. A partir daquele momento começamos a construção da balsa (que irei ensinar aos meus filhos e a quem quiser aprender). Nosso engenhoso Mestre nos orientou naquela construção e não se abalou pelos comentários pessimistas alheios, como: “Pra quê é isso aê? Oxe, vocês não vão pra canto nenhum com esse negócio!” Um comentário poderia me desanimar se eu não confiasse no Mestre, mas eu estava certo que iria dar certo como planejado. Terminamos a balsa e levamos pra travessia, colocamos as coisas em cima e entramos na água, quando comecei a remar, vi que ia dar tudo certo, não tinha correnteza para atravessar, além disso, estávamos sendo acompanhados por um jangadeiro que aproveitou para tirar fotos, isso me deu mais confiança. Do outro lado estava Thássia, Nice e Paulo nos esperando, o que dava mais força ainda pra chegar. Chegamos e pensei: -“Véi! Isso foi muito bom! Mas, isso não foi o desafio.” Minha opinião já mudava.

Rumo ao coqueiral
Esse dia foi de lazer, ficamos no gunga por um bom tempo, conversando, descansando, comendo sanduíche de atum e suco de laranja com beterraba que minha irmã trouxe. Mergulhamos e brincamos na balsa, com o Fernando e Rafael em cima, até o Paulo também querer subir... Houve um naufrágio! Mas tudo se resolveu. Fim do lazer, o sol indo embora, partimos rumo ao fim do coqueiral, coloquei uma barraca nas costas e fui com peso a mais do que antes. Os calos incomodavam muito, e a areia fofa nos cansava mais, andamos todo o coqueiral e, antes do início das falésias, nós acampamos. Ali eu estava sentindo que o desafio estava por vim, senti o prazer da travessia e do descanso no Gunga, e a dor da caminhada pelo coqueiral. Esses são momentos que induzem à reflexão sobre sua vida, muita coisa passava pela cabeça, sobre a vida que eu tinha e a necessidade de valoriza-la mais. Nesse acampamento fizemos uma reflexão em grupo, e concluímos que a dificuldade seria grande, que os laços de amizade entre os integrantes iriam aumentar e que precisávamos de confiança um no outro para ajuda mútua. Durante a reflexão destaquei o treinamento que fiz não foi suficiente, pois não calculei o peso, a areia foda, a fome, os calos, o sono, o frio, etc. Concluí que precisava de um treinamento constante e que para isso, minha vida deveria estar toda organizada: estudos, lazer, atividades físicas, etc. Mas outro momento compensou a dor: durante a noite havia uma imensa quantidade de estrelas no céu, algo não visto na cidade, vi umas duas constelações e uns OVNI’S, que na verdade eram a luz de varas de pesca um pouco distante de nós. Enquanto isso, o mestre preparou a nossa comida, numa pequena panela aquecida por uma chama de um mini botijão de gás, este fazia um peso considerável dentro da mochila. Cada um pegou seu recipiente (prato ou garrafa pet cortada) e encheram de comida, foi esse nosso jantar (carne-de-sol, feijão, arroz e tomate). Até ali não utilizei quase nenhum alimento que levei. Depois da refeição fomos todos dormir, num chão duro e desnivelado, um pouco desconfortável, mas era o suficiente para descansar.

3º dia – Falésias, Dunas de Marapé e o Rio Poxim
O dia amanhece, arrumamos as bolsas, lavamos os talheres e recipientes de comida, utilizando a areia molhada, como sempre fizemos, e continuamos a caminhada rumo à Lagoa Azeda. A partir daí iniciou uma longa caminhada por uma bela paisagem, entramos no território das falésias, um dos locais mais bonitos vistos, pessoalmente, por mim. Os raios solares davam um brilho que pareciam sair de dentro daquelas formações geológicas, isso foi um grande estímulo para superar a dor dos calos e o cansaço acumulado e reforçado pela areia fofa. Durante esse trecho eu coloquei e retirei o tênis duas vezes, para tentar aliviar a dor dos pés, mas, descalço o pés estavam sendo machucados pela areia e a inclinação do terreno, já com o tênis os calos aumentavam, no fim resolvi guardar o tênis e seguir descalço. Nós alternávamos a caminhada pela areia fofa e por um tipo de restinga ao nosso lado que, às vezes, tinha como caminhar por ela, o que era preferível. Passávamos por alguns riachos e descansávamos em alguns deles, aceleramos a velocidade para chegar no tempo previsto, começamos a trotar e adiantamos uma boa parte do percurso, a bolsa do Mestre estava muito pesada e acabou rompendo uma alça, mas logo em seguida ele improvisou e continuou normalmente.
Mais a frente encontramos dois obstáculos inesperados, duas barreias de pedras intercaladaspor trechos deareia, onde passamos cautelosamente e ninguém se machucou. Logo em seguida avistamos o povoado de Lagoa Azeda e fizemos uma parada por lá, montamos as redes e descansamos; no local tivemos o apoio do Severino e do César. O descanso foi bem proveitoso e saímos rumo ao rio Poxim, adiantamos consideravelmente o percurso passando pelas dunas de Marapé, esta possuía uma vegetação com muitos espinhos, dificultando um pouco a caminhada. Fiz companhia ao Mestre enquanto o Gluck, Fernando e Rafael estavam à frente. Um pouco mais a frente chegamos ao rio Jequiá, fizemos a travessia, que foi bastante prazerosa, conversamos um pouco com alguns turistas e partimos.


Chegada ao Rio Poxim e a caminhada à Feliz Deserto
Nesse percurso até o rio Poxim os meus pés estavam mais machucados e forcei um pouco mais durante uma tentativa de corrida, causando uma lesão nos tendões. Chegamos no rio Poxim eu estava um pouco machucado, mas ainda não estava no meu limite, acampamos ao lado do rio e dormimos depois da refeição. Ainda de madrugada nós levantamos para atravessar o rio durante a maré baixa, entretanto, um pequeno erro na tabela das marés nos deu uma informação errônea e “pegamos” a maré um pouco mais alta do queesperávamos. Isso não foi um grande obstáculo, fui o primeiro a entrar no rio para verificar a profundidade, ela estava na altura apropriada para passagem, pegamos nossas bolsas e atravessamos.Caminhamos um bom tempo ainda no escuro até chegarmos à lagoa do pau pela manhã, lá encontramos uma barraca aberta e montamos as redes para descansar enquanto esperávamos um almoço preparado pelo pessoal da barraca. Nós comemos bem e continuamos a caminhada, tiramos algumas fotos e brincamos um pouco com a machadinha do Mestre, ficamos arremessando-a num tronco para finca-la. E no interior do povoado de Coruripe utilizei a técnica para espantar cachorros, concebida no início da caminhada, mas não funcionou e o vira-lata avançou pra cima de mim, utilizei o plano B, correr, este deu certo porque o cachorro desistiu de mim.
Chegamos no pontal de Coruripe e tiramos algumas fotos no farol, despachamos muita bagagem inútil e prosseguimos bem mais leves. Mais a frente encontramos o rio Coruripe, estávamos nos preparando para atravessa-lo enquanto o Fernando fez isso a nado para pedir apoio de jangadeiros a fimde transportarem nossa bagagem. Colocamos as bagagens na jangada e atravessamos a nado, o rio estava com uma forte correnteza e me cansou muito para chegar ao outro lado, pensei que não conseguiria. Prosseguimos a caminhada para Miaí e durante o percurso o Mestre perguntou se faríamos uma caminhada dessa novamente. Bem, eu tive alguns lapsos de arrependimento durante momentos de dor, mas nem cogitaria, hoje, a idéia de não participar de outra caminhada desse tipo. Chegamos emMiaí de Cima, descansamos e comemos para seguir caminho até Miaí de Baixo, e quando chegamos já era noite, fizemos uma breve parada e seguimos para Feliz Deserto, que, apesar do nome, não me recorda nenhuma felicidade.
Caminhamos muito em direção a essa cidade, meu pé estava muito lesionado e eu me esforçava para andar, e por isso, esse foi o percurso que mais me induziu à reflexão, o ambiente era propício para isto: escuridão total, terra plana, um silêncio da natureza com sons de pegadas, clima agradável e muita dor no pé. Cada vez que passávamos de algum riacho a esperança de chegada aumentava, mas muitos riachos não estavam previstos e passamos por dezenas deles. Nós avistávamos a praia do Peba e, antes dela, uma “maldita” luz amarela indicando a localização de Feliz Deserto. Nós caminhamos muito mesmo, e essa luz ficava perto e, logo em seguida, se distanciava, causando uma tortura psicológica. Eu particularmente estava bem atormentado, meus tendões doíam muito e pensei em parar seis vezes antes de chegar verdadeiramente no meu limite, o Gluck me ajudou muito a dar forças pra prosseguir, desde Coruripe, e o Rafael, mesmo com o joelho lesionado pegou minha bolsa para levar. Andei mais uns 500 metros após ele ter pegado minha bolsa, e não aguentei mais, pedi para montarmos o acampamento ali mesmo, um pouco antes de Feliz Deserto.
Montamos a barraca, coloquei o meu casaco, comi alguns chocolates que o Mestre comprou para nos animar, e fui dormir bem desgastado e com medo de ter havido algo muito sério com meus pés. A noite não parou por aí, nós não colocamos uma lona de cobertura na barraca e, justamente nesse dia, choveu. A água escorreu pela barraca e encharcou meu casaco, fiquei com frio, engilhado e com a dor da lesão. No dia seguinte levantamos para ir à Foz do São Francisco, eu estava andando com muita dificuldade, mas continuamos. A luz amarela estava apenas a 300 metros de onde acampamos, pensei em jogar uma pedra nela, mas teria que andar para chegar até ela, e isso eu estava evitando fazer desnecessariamente.
Reta Final – Pontal do Peba
Caminhamos em direção ao Peba e já avistávamos de perto, eu estava sempre um pouco atrás do resto do grupo, e a única coisa que utilizei para ganhar forças foi cantar, repeti a música “Beira-mar auê beira-mar” umas 12 vezes até chegar à pousada no Peba. Chegamos na pousada e descasamos, ali eu percebi a importância do que o homem me falou enquanto me preparava para partir na Pajuçara, ter humildade. Tive que tê-la e deixar o orgulho de lado para desistir da caminhada, e foi o que fiz. O Gluck estava um pouco mais inteiro e com mais força de vontade para continuar a caminhada, apesar de está muito lesionado também, e continuou mesmo com incentivos, de um pessoal que estava na pousada, para ele não prosseguir. Nós comemos e os quatro foram em direção à Foz, eu fiquei na pousada esperando o Jipe para pega-los e traze-los de volta. Após algum tempo o jipe chegou e nós fomos busca-los, no caminho avistamos o Mestre e o Gluck, que logo subiu no carro não aguentando a dor, faltando cerca de 5 km para a foz. O Mestre, Rafael e Fernando continuaram correndo, o Fernando foi o primeiro a chegar e foi o único que não estava machucado. A chegada foi muito prazerosa, tiramos algumas fotos e fomos para um ponto de ônibus na estrada para “pegar” uma van em direção a Maceió. Dentro da van eu estava com muito medo de ter ocorrido algo grave no meu pé e, junto com uma hipoglicemia, isso estimulou a eu passar mal, minha vista escureceu toda e só melhorou quando abaixei a cabeça, a moça do meu lado meu deu água e eu peguei uma rapadura para fornecer um pouco de açúcar ao corpo. No fim, chegamos em Maceió inteiros, com as panturrilhas mais hipertrofiadas e com sensação de missão cumprida.Apesar de eu não ter sentido esta sensação no momento, senti alguns dias depois.
Muitos aprendizados foram obtidos ao longo dessa caminhada que juntos me ajudam a formar uma pessoa mais madura, melhor e autônoma dentro de mim. Fortaleceu muito os laços de amizade entre os integrantes, pois, como já disse um amigo: para conhecer um homem, caminhe quatro dias e quatro noites com ele. Isso foi o que aconteceu. São momentos que levarei por toda minha vida, e com certeza, repetirei várias experiências desse tipo para me fortalecer cada vez mais. “Alguns pensam em fazer algo no qual se orgulhem, outros fazem.”

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Relatório Ouricuri Caiçara
Pajuçara / Foz do Rio São Francisco
30.07.2010 a 03.08.2010


A caminhada ate a Foz do Rio São Francisco (Piaçabuçu-AL), contou com a participação de cinco bravos guerreiros Caiçara, dentre eles o Mestre Tamuia (Gérson) a frente com sua experiência de outros Ouricuri.
Partimos de Maceió-AL, precisamente da praia de Pajuçara, por volta das 15h do dia 30 de Julho. O Início foi tenso por estarmos carregando um peso nas mochilas de aproximadamente 15 a 18 Kg e outras superando ate os 20Kg, desde a saída a tensão tomou conta de nós por todo aquele material que carregávamos para nossas possíveis necessidades. A caminhada ate a Foz contém aproximadamente uns 150 Km, do ponto que partimos ate o destino final.
No primeiro dia caminhamos ate a Barra de São Miguel-AL, onde fizemos algumas paradas estratégicas para descanso e repor energias com água, rapadura e/ou nego bom. A primeira parada foi em frente a Braskem ainda em Maceió-AL, a outra foi no posto da Policia Rodoviária Federal, mais a frente quando chegamos em Massagueira, encontramos um caminhão que vendia frutas, compramos melancia e laranja e comemos no próprio local, depois de Marechal Deodoro-AL, paramos em um posto de gasolina, antes da parada final desse dia, alguns Km antes de chegar na Barra, montamos nossas barracas e enfim tivemos nossa primeira noite de sono, alguns guerreiros sentiram febre por conta do peso que carregaram durante o primeiro dia.
Segundo dia, chegamos a Barra lá encontramos com o Paulo que foi dar um apoio e um grande apoio. Chegando na Barra, vem logo em seqüência o primeiro grande desafio, atravessar o Gunga nadando. Ate o local da travessia por onde passávamos já ia juntando o material para construir a balsa para colocar as mochilas e atravessar nadando. O material utilizado para fazer a balsa: bambu, galhos secos e finos, torçal, e a lona da barraca. A beira do Gunga, encontramos o Pai do Mestre e o Cesão, onde junto ao Paulo, também nos deu uma grande força e apoio. Um momento de descontração na construção da balsa, foi quando apareceu um senhor que era pescador de massunim e já chegou falando, “o que vocês estão fazendo? Pegaram essas coisas onde?”, explicamos e o senhor continuou falando, “vão atravessar o Gunga nadando? Com isso? Atravessa nunca!”, o Cesão então disse “ Atravessa sim! Vamos cinquentinha?, o senhor calou-se e foi embora. A balsa teve que ter umas reformulações rápidas antes de ser concluída, contratamos um jangadeiro para ir acompanhando só por segurança e atravessamos, do outro lado Nice e Thássia estavam a nossa espera, com um lanche feito por elas e pela mãe do Arthur.
O cansaço bateu e utilizamos à tarde para descansar e repor as energias tivemos um pequeno atraso por conta disso, mas mesmo assim ao cair a noite tentamos recuperar o tempo, mas mesmo assim nos atrasamos e tivemos que parar e dormir nas Falésias após o Gunga, antes de Lagoa Azeda.
Terceiro dia, uma das partes com uma dificuldade que superamos foi exatamente a passagem pelas falésias, pois o terreno não ajudou, a areia muito fofa e a inclinação foi grande, mas mesmo assim continuamos e a beleza da paisagem compensava as dificuldades, o Sol também foi um elemento que afetou mais o desgaste durante a caminhada. Passamos por 4 rios, mas não foi preciso atravessar. Bem próximo de Lagoa Azeda tivemos que passar pelas pedras, pois não tinha outro caminho a não ser encarar esse desafio, pedras que não visualizamos nos mapas. Conseguimos chegar por volta do meio dia e lá ficamos a espera do Cesão e do Severo, enquanto esperávamos por ele armamos nossas redes numa barraca de um pescador local. Quando chegaram fomos presenteados com galeto, refrigerante, frutas e doces. Não demoramos muito, pois tínhamos que correr atrás do tempo perdido. Adiantamos o passo e final da tarde passamos pelas Dunas de Marapé, onde atravessamos o Rio Jequiá. Já era noite quando chegamos as margens do Rio Poxim, ali montamos nossos equipamentos e dormimos.
Quarto dia, um erro de 2 horas na tabela da maré fez com que atravessássemos o rio com as malas na cabeça e a água acima do nosso peito. Acordamos pela madrugada por conta da maré e seguimos nosso destino, esse dia foi o mais cansativo, pois acordamos antes do Sol nascer e seguimos em direção a Lagoa do Pau (já no município de Coruripe). Quando o Sol nascia já estávamos passando por Lagoa do Pau rumo ao Pontal do Coruripe. Chegamos no Pontal antes do meio dia, descarregamos alguns materiais desnecessários para o seguimento da caminhada. A chuva apareceu, mesmo que passageira, o clima tava frio quando chegamos no Rio Coruripe. Então eu fui o primeiro a cair na água e atravessar, passei por maus momentos por conta da correnteza, mas consegui chegar ao outro lado da margem. Em seguida veio o Mestre e logo após foram juntos: Arthur, Rafael e Rodrigo. Já passava do meio dia quando deixamos Coruripe e nosso próximo destino era Feliz Deserto, mas entre eles tinha Barreira (logo do outro lado do Rio Coruripe), Miaí de cima e Miaí de baixo. Passamos os dois primeiros e final da tarde chegamos em Miaí de baixo, paramos, nos alimentamos e a noite caiu e seguimos ate Feliz Deserto, o frio da noite e a quantidade de rios que passamos foi grande, se bem que os pequenos rios só molhava nossos pés, mas a cada um que passávamos o frio tomava conta de mim e a vontade de urinar era inevitável, por incrível que pareça mas a cada rio que passava era eu parava e tinha que urinar. Já dava para ver a luz do poste de Feliz Deserto, ali foi nosso foco, mas parecia que quanto mais andava a luz não chegava, então por problemas de lesões de alguns companheiros decidimos parar e dormir. O Mestre nos veio com uma boa surpresa, ele havia comprado em Miaí uma caixa de chocolate, então antes de dormir, comemos os chocolates.
Último dia, o desgaste foi grande do dia anterior, então o Mestre permitiu que dormíssemos um pouco mais afinal não estávamos mais atrasados, conseguimos recuperar o tempo perdido. A noite não tínhamos noção da distância que estávamos da luz de Feliz Deserto, quando amanheceu vimos que estávamos bem próximo dela. Faltava uns 30km para nosso destino final. Passado o Feliz Deserto, já estávamos no Peba, Piaçabuçu. Chegamos a um restaurante antes do meio dia, ali paramos para descansar e seguir rumo a Foz. Lá encontramos alguns trabalhadores que ficaram admirados pelo feito conseguido ate ali. Um dos trabalhadores pegou no pé do Rodrigo e ficou tirando onda dele que ele não agüentava mais continuar, e ficou com resenhas com ele, acredito que isso o motivou a ir ate a Foz. Chegava a hora tão esperada, estávamos a 20km da Foz, mas o obstáculo final era muito difícil, pois a paisagem era a seguinte: de um lado o mar do outro uma espécie de deserto. Isso abalou o psicológico, mas mesmo com essas adversidades continuamos rumo a Foz. Faltando alguns Km para a chegada, pedi permissão ao Mestre para adiantar e tentar chegar o mais rápido “correndo”, pois nos km finais nós estávamos revezando andava 5mim e corria 5mim, então pedi para não parar mais e continuar correndo ate a Foz. Consegui chegar ao destino, uma linda paisagem, valeu muito à pena tudo que passei junto dos meus amigos, a recompensa vale muito mais do que qualquer valor financeiro que venha ser ganho, para mim não tem dinheiro no mundo que pague a felicidade que tive em chegar a Foz, do jeito que cheguei e passando pelo que passei junto os Caiçaras. Logo após minha chegada, Rodrigo e Arthur chegaram trazendo o nosso transporte de volta e minutos depois o Mestre Tamuia (Gérson) e o Rafael juntou-se a nós. O objetivo estava completo, todos nós conseguimos fazer o que poucos conseguiram ou nem vão fazer.
Aprendi muito durante todos esses dias, cresci bastante e amadureci como homem. Voltei com uma visão diferente do mundo, afinal uma caminhada igual a nossa me fez mudar realmente. Os momentos de reflexão foi muito importante, pois neles conhecemos um pouco mais de cada um, e a confiança dentre os Caiçaras presente cresceu muito no meu modo de ver, em um das reflexões o Mestre nos disse mais ou menos assim: “Se você quer conhecer um homem de verdade, caminhe com ele três dias e três noites, no final pode dizer que realmente você o conheci.” Só tenho que agradecer a cada um dos Caiçaras (Mestre Gérson, Arthur, Rafael e Rodrigo), pois aprendi muito com cada um deles e não posso esquecer do grupo de Apoio: Paulo, Cesão, o Pai do Mestre (não me recordo do nome), Severino, Nice e Thássia. Caso tenha esquecido algum nome, peço minhas desculpas. Gostaria de concluir com a frase que encerra o vídeo muito bem produzido pela Thássia, “Alguns pensam em fazer algo do qual possam se orgulhar, outros fazem.”


Fernando Ramos Godoi de Albuquerque

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Gerson

RELATÓRIO DA CAMINHADA A FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO

Preâmbulo

Foram muitos os desafios e os detalhes divertidos na grande empreitada de ir de Maceió a Foz do Rio São Francisco andando e carregando grande peso de bagagem nas costas. É impossível relatar tudo, mas espero que fique registrado aqui, pelo menos, parte do grande esforço que fizemos durante esses dias.

Quando concluí o feito achei ter realizado uma grande conquista. Entretanto, logo que cheguei um amigo me comunicou que do mesmo ponto que eu parti com quatro amigos, em 1922, na Praia de Pajuçara, quatro alagoanos partiram em uma jangada rumo ao Rio de Janeiro, na época Capital Federal. Esses alagoanos percorreram 1000 milhas náuticas e conseguiram realizar o feito. Vale frisar que eles dormiam e comiam amarrados a jangada. Depois de saber disto pensei: alagoano é bicho desgraçado, quando um pensa que fez algo grande outro já superou.

No dia após ter voltado da aventura, quarta-feira dia 4 de agosto de 2010, estava no ônibus da Empresa Palmerense rumo a Palmeira dos Índios às 06:00 horas da manhã, quando sentou em minha frente um caboclo que julguei já conhecê-lo de algum lugar. Puxei assunto e logo descobri que era Joseildo Rocha da Silva, maratonista campeão da prova de Los Angeles em 1992, representante brasileiro das olimpíadas de 1992 e campeão da prova de Chicago de 1993. Ele falava que por semana corria mais de 150 km na época que concorria. Hoje ele está no anonimato e trabalha como professor em Palmeira dos Índios.

Bom, estes dois episódios apagaram um pouco o brilho do feito para minha própria percepção. Ter ido andando até a Foz do São Francisco já não era algo tão grandioso assim, mas ao mesmo tempo me instigou a fazer muito mais para ser mais um alagoano que realiza grandes feitos. Vamos ao Relatório.

A Preparação

Antes da viagem propriamente dita, realizamos todos os preparativos para que não saísse nada errado. Eu juntamente com o Arthur Grangeiro fiz todo o percurso de carro e verificação de todos os pontos críticos indo para cada uma das praias que era possível ter acesso de carro. Além disso, imprimi todos os mapas detalhados por meio de satélite (Google Earth) e fomos conferindo e marcando detalhes de distância e pontos que poderiam servir de apoio e descanso.

Fizemos uma reunião final na casa do Rafael e lá discutimos todo nosso planejamento estratégico, tático e operacional. Nos reunimos dias antes da viagem, após a reunião para comprarmos os equipamentos e materiais que faltavam. O Fernando foi conosco fazer as compras, mas teve que sair mais cedo devido o seu compromisso profissional.

Providenciamos todos os equipamentos necessários e os mantimentos que iríamos precisar. Levamos um fogão portátil, duas barracas, facas, equipamento de pesca, uma muda de roupa, uma machadinha, redes, facão, lanternas, comida e água. Ninguém levou uma bolsa com menos de 15 kg e algumas chegaram a ter peso de 30 kg.

A Partida (sexta-feira)

No dia 30 de julho, saímos da Praia de Pajuçara, pouco mais de 15:00 horas, exatamente do ponto em que habitualmente treinávamos capoeira (em frente ao ginásio do Clube de Regatas Brasil) em número de cinco pessoas: eu, Rodrigo Gluck, Fernando Godoy, Arthur Grangeiro e Rafael Cabral. Quando chegávamos no Jaraguá a Irmã do Arthur, apareceu de carro e fez algumas fotos e vídeos.

Andamos até a central de polícia localizada na praia da avenida sem encontrar mais nenhum companheiro, quando lá, Eduardo César membro da equipe de apoio apareceu e confirmou seu encontro conosco no domingo em que esperávamos já estar nas praias de Coruripe.

Continuando nossa caminhada antes de chegarmos à área verde da Brasken fomos surpreendidos por uma equipe de reportagem da TV Alagoas. Fomos perguntados sobre nosso destino e os objetivos da caminhada. Isso animou e motivou a turma, demos boas risadas com os depoimentos, principalmente com o Rafael de óculos escuros. Alguns passos a mais o Paulo Lamenha, membro dos caiçaras apareceu para nos prestigiar e dar forças. Pronto, daí por diante éramos somente nós.

Realizamos uma parada em frente a Brasken, já na parte final e a outra só aconteceu em frente ao posto da Policia Militar da Ilha Lagunar de Santa Rita, quando lá chegamos já havia escurecido. Descansamos cerca de 15 minutos, comemos algumas frutas, castanhas e cereais. Colocamos rapadura na boca e continuamos a caminhada. Ao chegarmos numa das entradas da Barra Nova havia um caminhão carregado de melancia, laranja e jerimum, vindo de Sergipe. Paramos compramos uma melancia e chupamos, levamos algumas laranjas para aumentarmos um pouco mais o peso da bagagem que particularmente para mim já começava a irritar. O Rodrigo decidiu trocar a bagagem dele comigo, para ajudar, penso que ele não pensou nos outros dias de caminhada, porque minha bagagem estava muito pesada mesmo.

Em frente à entrada da Massagueira após a Ponte Engenheiro Celso, fizemos outra parada. Descansamos um pouco mais, cerca de 20 minutos. Bebemos água, colocamos algumas paçocas na boca e fomos andando em direção ao Francês. Aceleramos o ritmo e só paramos quando estávamos a menos de um quilometro da entrada do francês em um posto de combustível que já estava fechado. Tiramos as bagagens das costas e depois de retomarmos as forças, continuávamos com o desafio. Passamos direto da entrada da Praia do Francês e fomos parar em um posto mais afastado. Lá tiramos algumas fotos com as pernas para cima enquanto descansávamos e legamos para nossas pessoas amadas. Quando partimos o Arthur pegou minha bagagem que já estava comigo desde a parada da Massagueira.

Realizamos mais uma parada em mais um posto fechado. Peguei minha bagagem novamente e continuamos andando até a Praia da Barra de São Miguel. Quando estávamos bem próximo da chegada da Barra um tio do Rodrigo apareceu de carro e perguntava se não queríamos carona, dispensamos e continuamos andando. Não chegamos a entrar na cidade pois julgamos ser menos perigoso dormir na praia antes da cidade. Montamos nossas barracas já era quase meia noite. O Rodrigo dormiu em uma barraca junto com o Rafael e eu dormi em outra junto com o Fernando e o Arthur. Perguntei quem ficaria com o apito de aviso e o Rodrigo se prontificou. Tive muita febre devido o esforço exagerado, mas dormir como uma pedra.

O 1º Dia Completo (sábado): Construção da Balsa e Travessia do Gunga

No dia 1º de agosto levantei junto com o amanhecer, enquanto os outros dormiam coletei alguns bambus para construção de nossa balsa que atravessaria a Lagoa do Roteiro. Os outros acordaram ainda antes das 06:00 horas dividimos a quantidade de bambu e continuamos a caminhada para a Lagoa. Enquanto andávamos o Paulo Lamenha chegou na Barra nos procurando, vimos ele e isso foi de grande ajuda, pois pudemos ir coletando o material necessário a fabricação da balsa enquanto andávamos e ir colocando esse material em sua caminhoneta. Chegamos na praia que fica em frente ao Gunga, separada apenas pela Lagoa do roteiro antes das 09:00 horas, lá o Eduardo César e meu pai estavam a nossa espera. Comemos antes de iniciar a construção da balsa. A finalidade da balsa era levar nosso material sem que ele se molhasse até o outro lado. Terminamos a balsa depois de 11:00 horas e o mar já havia começado a encher. Enquanto construíamos não faltou gente de toda natureza para nos desanimar e dizer que aquilo não daria certo. Um pescador nativo que passou falava enfaticamente que aquela balsa que construíamos não chegaria nunca ao outro lado e todos nós acabaríamos nos afogando.

Quando tentaram desencorajar o Rodrigo ele deu uma grande lição de confiança no grupo. Ele respondeu: “o que o mestre decidir junto com o grupo a gente vai fazer, se é para continuar e atravessar, nós vamos fazer isso.” Vale frisar que Rodrigo não é alienado, muito menos bobo. A resposta que ele deu deixou claro que a decisão de continuar caberia a nós do grupo, respeitando nossa organização hierárquica interna e não a pessoas alheias a nossa realidade, que não participaram de nosso planejamento e preparação da empreitada.

Quando terminamos a construção da balsa meu pai e o César já havia ido embora. Nesse momento, a Thássia e a Nice já estavam do outro lado, na Praia do Gunga, nos esperando com um lanche muito saboroso – pelo menos assim dizia o Arthur. O Paulo foi de carro até o outro lado de carro nos esperar e contratamos um canoeiro para não colocar ninguém em risco caso algum problema acontecesse. Enquanto andávamos na praia um siri beliscou o Rafael que saiu aos pulos deixando os que estavam próximo dele bem assustados por não saber o que era.

A travessia foi um momento importante, achávamos que seria o mais difícil, mas haveria ainda muitos desafios. Quando chegamos do outro lado nos juntamos a Nice, a Thassia e ao Paulo. É muito bom ver nossos companheiros quando estamos passando por desafios. Comemos, descansamos bastante e já no final da tarde foi que retomamos a caminhada. Andamos até o início das falésias e lá montamos nossas barracas. Durante a noite fizemos uma reflexão, ligamos para as pessoas que gostamos e preparamos um feijão para comer.

O Segundo Dia (domingo) – As Falésias, as Pedras e o Rio Jequiá

Levantamos todos no outro dia junto com o amanhecer, tiramos algumas fotos e continuamos com a caminhada em um dos cenários mais belos que já pude ver. Fizemos nossa primeira parada na Lagoa Doce e depois a cada pequena lagoa fazíamos uma pequena parada. A alça de minha bolsa rompeu e fiquei muito assustado pensando como iria continuar. Mas, foi fácil de resolver, amarrei a alça e continuei. O cenário era lindo, mas a caminhada era bastante difícil. O Sol era forte e não havia abrigo. Um pouco antes do povoado encontramos um grande desafio, uma barreira de pedras muito difícil de ser ultrapassada porque a arrebentação do mar batia diretamente nelas. Mas, conseguimos atravessar sem ninguém se machucar. Já era quase 11:00 horas quando chegamos ao povoado de Lagoa Azeda.

No povoado paramos em um mercadinho, bebemos bastante água e nos reabastecemos. No final do povoado encontramos uma palhoça feita por pescadores e lá armamos nossas redes. Depois de algum tempo Chegou o César e o Severino. Eles trouxeram comida e refrigerante. Foi bom vê-los, já era domingo e ficamos muito animados. Antes das 14:00 horas partimos e precisávamos apressar o passo. Precisávamos passar dois grandes rios antes da maré ficar muito cheia. Chegamos ao acesso de Jequiá da Praia e lá havia algumas barracas vendendo refrigerantes, bebidas e churrasquinhos. Comemos alguns churrasquinhos e bebemos mais água. Fomos deste ponto até a desembocadura do Rio Jequiá correndo. Este local chamava-se Dunas de Marapé e tem vegetação muito espinhosa. Enquanto corríamos os espinhos de mandacaru, palmas e outros cactos nos furavam, pois estávamos descalços, mas esse era o menor dos problemas diante do estado que já se encontravam nossos corpos.

Chegamos no Rio Jequiá e o atravessamos a nado depois de colocar a bagagem em uma embarcação local. Do outro lado encontramos alguns turistas que estavam organizados em casais e com seus filhos. Conversaram bastante conosco e depois de nos perguntarem bastante sobre o grupo se despediram, pois precisávamos partir. Fomos bem apressados tentando chegar ao Rio Poxim antes da maré estar cheia. Mas, quando lá chegamos já começava a escurecer e a maré estava muito alta para atravessarmos com as coisas que carregávamos. Acampamos então na beira do rio. Essa seria nossa terceira noite longe de casa. Nos programamos para levantar às 2horas e 30 minutos, pois indicava na tabela que por volta de 04:00 horas a maré estaria seca. Cozinhamos feijões e comemos antes de dormir. Eu na verdade apenas coloquei a comida no fogo e dormi sem esperar ela cozinhar. Estava muito cansado. Nesta noite não conseguimos falar com nossas pessoas queridas pois não havia sinal de rede. Mas, estávamos felizes visto que havíamos chegado em Coruripe. Fizemos nossa reflexão enquanto a comida cozinhava.

O Terceiro Dia (segunda-feira) – Rompendo Tendões na Grande Caminhada

No horário determinado eu levantei depois de ter novamente muita febre. Fui olhar o rio e vi que ele não estava completamente seco. Achei estranho, mas percebi que havia um erro no registro da tabela de marés. Acordei os outros apressado e desmontamos o acampamento. Atravessamos o rio com a bagagem na cabeça. O Arthur foi o primeiro a entrar no rio para verificar a profundidade e após sua travessia seguimos todos atrás dele.

Andamos durante a escuridão, a outra alça de minha bolsa rompeu devido o peso, mas novamente amarrei e prosseguimos. Chegamos no povoado de Lagoa do Pau enquanto amanhecia. Encontramos uma única barraca aberta. Falamos com os donos e pagamos para que cozinhassem um cuscuz junto com camarão e peixe. Armamos nossas redes e descansamos enquanto a comida era preparada. A comida estava deliciosa e nós estávamos muito cansados, mas mesmo assim continuamos a caminhada até o Pontal do Coruripe. Esse seria o dia que mais andaríamos com paradas curtas, apenas, para descansar. Quando chegamos no farol do pontal entrei em contato com uma companheira minha para ela guardar parte dos equipamentos que não iríamos mais precisar. Foi um alívio para todos reduzir o peso da bagagem. Deixamos todos os equipamentos de pesca e as mudas de roupa. Além disso, passamos a levar apenas a comida necessária. Julgamos ser melhor passar alguma privação que continuar carregando tanto peso. Até nossos sapatos ficaram. Após algumas fotos continuamos com a caminhada em direção ao Rio Coruripe.

Quando chegamos no rio começamos a improvisar uma balsa e quando ela já estava quase pronta uma jangada pequena atravessou nossas coisas com um pescador. Ele estava muito embriagado e nós rimos bastante com ele. Não paramos, andamos bastante até o Miaí de Cima. Lá almoçamos e armamos nossas redes para descansar. O grupo estava exausto e as dores nas pernas e nas costas eram muito grande. Saímos de lá no final da tarde. e já era muito escuro quando chegamos ao Miaí de Baixo. Paramos um pouco naquele povoado, mas não vimos uma única pessoa, pois paramos nos barcos de pesca. De lá ficamos avistando as características daquele local. A parada não foi longa, porque de lá víamos as luzes do Pontal do Peba e isto nos animava. Mas, de onde estávamos até as luzes havia mais de 20 km de areia fofa com peso nas costas, ah... Não posso esquecer! Havia também milhares de pequenos rios que precisávamos atravessar, mas não sabíamos disto porque não dava para ver do satélite. Continuamos andando com a pretensão de chegar na entrada de Feliz Deserto que dá acesso à praia. Mas, por mais que andássemos parecia que não chegávamos nunca. Intimamente eu estava confiante que dormiríamos nas praias do Peba, mas quando estávamos a menos de 300 metros da entrada de Feliz deserto o Arthur apareceu com os tendões lesionados por esforço repetitivo e comunicava sua impossibilidade de continuar naquela noite.

Descarregamos as coisas e montamos o acampamento nas pressas. Nesta noite não cozinhamos. Eu havia comprado alguns doces em Miaí de Cima e distribui para todos. Fizemos a reflexão, comemos e dormimos. Eu imaginava levantar todos por volta de 03:00 horas da manhã, embora já fosse mais de meia noite. Mas, às 03:00 horas quando acordei vi que estavam todos muito cansados e eu também estava acabado. Decidi então que dormiríamos todos um pouco mais para recobrarmos as forças mesmo que precisássemos atrasar a viagem.

O Quarto Dia (terça-feira) – Desafio Final: O Deserto até o Rio

Quando todos levantaram já eram quase 06:00 horas. Nos banhamos na água gelada do mar, como fazíamos todos os dias quando acordávamos, e comemos alguma coisa para prosseguir andando, agora já bem próximo de terminar nosso desafio.
Chegamos cedo numa pousada de cor azul. Aceleramos o passo propositalmente para que todos pudessem perceber quem agüentaria ou não a etapa final. Quando chegamos na pousada ficou claro para o Arthur que seria impossível para ele atravessar as últimas dezenas de quilômetros. Ele então se encarregou de providenciar o carro de apoio que iria nos buscar. Vale destacar que o ponto que nós chegamos já é considerado a foz do São Francisco e que o Arthur não continuou porque as lesões o impediam realmente de andar. Não eram apenas dores, eram tendões muito inchados e músculos que não obedeciam mais aos comandos cerebrais.

Continuamos então em número de quatro, com o Rodrigo e o Rafael bastante machucados e o Fernando como se ainda não tivesse sofrido nada. O Rafael saiu de Maceió com os ligamentos do joelho rompidos, mas sua incrível resistência à dor e sua persistência o fizeram chegar até esse ponto. O Rodrigo ficou lesionado devido o esforço repetitivo. Enquanto nos dirigíamos ao rio, que dá acesso ao deserto, um carro passou a toda velocidade e quase nos atropela. Quando chegamos no rio este carro estava atolado e seu dono desesperado e com muita arrogância solicitava nossa ajuda. Achei aquela cena engraçada. Estávamos todos muito cansados e exaustos, mas aquele homem não fazia a menor idéia de onde vínhamos e nem do nosso estado físico, ele estava apenas preocupado em resolver o seu problema independente dos objetivos dos outros e do fardo que eles carregavam. Mesmo assim, fomos todos tentar ajudá-lo. Foi inútil, o carro estava todo dentro do rio e era impossível tirá-lo dali com força braçal. Mas, enquanto tentava ajudar e via o homem irritado, inclusive conosco, pensei como aquele episódio acontece de forma diferente o tempo todo. Digo, as pessoas quase sempre não calculam o risco do que se envolvem e depois se comportam como vítimas tentando sair do atoleiro que elas mesmas se colocaram. Vi que na verdade o rio não é mal, muito menos entrar dentro do rio, mas a depender da falta de avaliação que uma pessoa faça, o rio pode até matar alguém afogado ou deixá-lo numa situação difícil. O engraçado é como a pessoa que está atolada se irrita com todos, julga não ter culpa de nada e não se importa com os objetivos, nem com o fardo de quem às vezes só está tentando ajudar. Naquele momento lembrei de como as pessoas podem ser frias e insensíveis quando se vêem ameaçadas, ainda que tenham sido elas mesmas as culpadas por estarem naquela situação.

Depois deste episódio saímos mais cansados do que estávamos, mas tínhamos um objetivo a ser alcançado e isso nos fazia persistir. Novamente refleti que quando não temos rumo na vida podemos modificar nosso caminho facilmente e desistir de nossos propósitos. Para não desistir é preciso estar bem certo de onde devemos chegar. Mesmo quando estamos certos de nossos propósitos e do rumo que queremos dar, as pessoas que se atolam por atravessar em nossas vidas, sem saber muito bem o que lhes espera na frente, acabam roubando muito de nossas forças e nos deixando atrasados. Sem falar que acabam sendo engraçados por ficarem irritados achando que nós é que não estamos ajudando e que de certa forma somos os culpados do atoleiro.

Prosseguimos e com menos de 10 km fizemos uma parada junto a um grupo de pescadores. Estávamos preocupados com o horário pois a maré encheria e teríamos que chegar na foz no máximo às 16:00 horas. Estávamos tão fadigados por carregar peso durante vários dias e dormir pouco que sentíamos que se forçássemos mais o nosso corpo lesionaríamos nossos músculos. O encontro com esses pescadores foi desanimador, pois eles ao olharem para nosso estado imaginavam que éramos aventureiros desprovidos de planejamento. Pensaram que estávamos naquele estado por simplesmente termos saídos do Pontal do Peba até aquele ponto do deserto. Coube aí nova reflexão, as pessoas geralmente nos vêem como elas são, se são frágeis, nos vêem assim; se fortes e persistentes, também nos perceberão deste modo. Além disso, as pessoas dificilmente sabem a história de nossa caminhada e quando contamo-la, quase nunca acreditam, principalmente se for uma jornada muito difícil. Julgam sempre que nosso cansaço é por razão semelhante ou inferior ao delas. Somente quando conseguimos deixar clara a nossa jornada e nossas pretensões é que alguns conseguem perceber que nosso brilho e nossa luz são diferentes.

Os pescadores num primeiro momento diziam que do ponto que nós estávamos até a Foz era muito longe, mas depois de convencermos eles de onde vínhamos eles refizeram o discurso e disseram que logo, logo chegaríamos lá.

Encontramos quase no meio do deserto um pescador solitário que nos deu água e quando estávamos avistando a antena que fica próxima a foz, o Fernando solicitou permissão para ir correndo em nossa frente, pois corríamos o risco de não conseguir chegar pois já era 15:00 horas. O Fernando que estava em melhores condições físicas poderia chegar e pelo menos ficaríamos felizes por saber que um de nós atingiu o propósito. Ele logo sumiu de nossa vista. O Rafael também adiantou e eu fiquei um pouco mais atrás com o Rodrigo que não conseguia mais controlar as pernas e sofria de grande dor.

Já bem próximo à antena o carro de apoio apareceu junto com o Arthur. O Rodrigo disse que iria completar o restinho do percurso em cima do carro, pois de fato não conseguia mais andar e agora precisávamos correr. Corri bastante e consegui alcançar o Rafael. Terminei o resto do percurso correndo lado a lado com o Rafael. Quando cheguei ao rio junto com o Rafael senti uma alegria poucas vezes experimentada em toda minha vida.
Garanto que o prazer experimentado por todo o corpo foi maior que o que sentimos quando chegamos ao ápice com uma mulher que muito desejamos. E falo isso esclarecendo que nada na vida é tão prazeroso como uma mulher que desejamos. Mas, aquele era o prazer da missão cumprida.

Completamos o percurso exatamente as 16:00 horas da terça-feira dia 04 de agosto de 2010. No total gastamos quatro dias e quase uma hora. Mas, em termos de crescimento, anos de amadurecimento não se comparam a esses quatro dias.

Considerações Finais

Podemos levar a vida de diferentes formas. Podemos viver procurando um objetivo e um sentido previamente traçado para ela. Podemos seguir os objetivos que outros apontam como interessantes, podemos desistir no caminho, podemos persistir. Podemos até mesmo imaginar que nada faz sentido e que não se faz necessário deixar a vida amarrada por objetivos. Mas, particularmente para mim é importante pensar que mesmo que a vida em si não tenha sentido eu posso traçar objetivos para minha existência e com isso construir um sentido belíssimo para a minha vida. Nada é mais prazeroso que se perceber como o autor e o ator de sua própria existência, de tal forma que nos desperte alegria quando damos uma de expectador do espetáculo que criamos.

Durante esse percurso pensei muito em pessoas que desenvolvi muito apresso em minha vida. Pensei nos planos que fazia com algumas, mas ao mesmo tempo pude ir percebendo que quando nos afastamos de todos, isso trás dores boas. Dores boas porque podemos ir sentindo como algumas pessoas usam afastamentos de nós para se fortalecer no intuito de viverem suas vidas independentes dos planos que nós fazemos junto com elas. Sofremos por isso e achamos até certa falsidade, mas na verdade esses afastamentos que trazem dores são bons, pois podemos ver quem de fato confia em nossa capacidade e disposição de viver uma vida diferente, do mesmo modo que nos dispusemos a trilhar um caminho diferente. E aqueles que não enxergam essa capacidade em nós, são tão pequenos como as pessoas que tentavam nos desencorajar ao longo de nossa caminhada ao São Francisco. Essas pessoas não agüentam seguir nossa jornada, e como diz a sabedoria caambembe: apenas os semelhantes se atraem.


Maceió, setembro de 2010
Gérson Alves da Silva Jr
Tamuia Caambembe

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Letras várias


Mas o facão bateu em baixo, compadre
A bananeira caiu
Mas o facão bateu em baixo, compadre
A bananeira caiu
Cai, cai, cai bananeira
A bananeira caiu
Cai, cai, cai, cai, cai bananeira
A bananeira caiu
A canoa virou marinheiro
A canoa virou marinheiro,
Oi no fundo do mar tem dinheiro
A canoa virou marinheiro,
Oi no fundo do mar tem dinheiro
A manteiga derramou
Vou dizer a meu senhor, que a manteiga derramou
Vou dizer a meu senhor, que a manteiga derramou
A manteiga não é minha, é para filha de ioiô
Vou dizer a meu senhor, que a manteiga derramou
A manteiga é do patrão, caiu n'agua e se molhou
Vou dizer a meu senhor, que a manteiga derramou
A manteiga é de iaiá, a manteiga é de ioiô
Vou dizer a meu senhor, que a manteiga derramou
A manteiga é do patrão, caiu no chão e derramou
Vou dizer a meu senhor, que a manteiga derramou
Abalou Capoeira abalou
Abalou Capoeira abalou
Mas se abalou, deixa abalar
Abalou Capoeira abalou
Mas se abalou, deixa cair
Abalou Capoeira abalou
Adão, Adão
Adão, Adão
Oi cadé Salomé, Adão
Oi cadé Salomé, Adão
O foi na Ilha de Marè
Adão, Adão
Oi cadé Salomé, Adão
Oi cadé Salomé, Adão
O Salomé foi passeia
Adão, Adão
Oi cadé Salomé, Adão
Ai meu tempo
Ai, meu tempo, faz tanto tempo
que o meu tempo não volta mais
quando os negos de Aruanda
cantavem coros iguais
Ai, meu tempo, faz tanto tempo
que o meu tempo não volta mais
quando os negos de Aruanda
cantavem coros iguais
Nos somos pretos da capanga de Aruanda
a Conceição viemos louvar
Aranda e e e, Aranda e e a
Nos somos pretos da capanga de Aruanda
a Conceição viemos louvar
Aranda e e e, Aranda e e a
Preto velho ficava sentado
no batente do velho portão
Preto velho com sua viola
Preto velho com seu violão
Preto velho com sua viola
Preto velho com seu violão
La na festa da Conceição
todo mundo pedindo e implorava
O menino pegava a viola
Preto velho então cantarolava
O menino pegava a viola
Preto velho então cantarolava
Avisa meu mano
Avisa meu mano, avisa meu mano
Avisa meu mano, capoeira mandou me chamar
Avisa meu mano, avisa meu mano
Avisa meu mano, capoeira mandou me chamar
Capoeira é luta nossa, da era colonial
É nasceu foi na Bahia, Angola e Regional
Avisa meu mano, avisa meu mano
Avisa meu mano, capoeira mandou me chamar
Barauna caiu
Barauna caiu, quanto mais eu
Quanto mais eu, quanto mais eu
Barauna caiu, quanto mais eu
Quanto mais eu, colego velho
Barauna caiu, quanto mais eu
Beira mar
O riacho que corre p'ro rio
e o rio que corre p'ro mar
O mar é morada de peixe
quero ver quem vai pegar o cordão de ouro
Beira mar auê Beira mar
Ô Beira mar auê Beira mar
O no tempo que tinha dinheiro
eu dormia com Iaiá
Hoje dinheiro se acabou
Capoeira chega prá lá
Beira mar auê Beira mar
Ô Beira mar auê Beira mar
Berimbau me leva
Berimbau me leva e Capoeira vai jogar
Berimbau me leva e Capoeira vai jogar
Camarada venho de longe
Trazendo meu berimbau
Fazendo da capoeira
Minha vida meu ideal
Berimbau me leva e Capoeira vai jogar
Berimbau me leva no passado
Me leva nos tempos de crianca
Onda a vida e a brincadeira
E a saudade e uma lembranca
Berimbau me leva e Capoeira vai jogar
Berimbau me livra dos perigos
Separe ador da traicao
Seja sempre meu amigo
Neste mundo de aprovacao
Berimbau me leva e Capoeira vai jogar
Nos caminhos que eu percorri
A saudade foi minha companeira
O destino que a gente nao escolhe
O meu foi iacada pela capoeira
Berimbau me leva e Capoeira vai jogar
Na volta do berimbau
Nos caminhos que eu passei
Junto com quanto tristeza
Eu cai mas me levantei
Berimbau me leva e Capoeira vai jogar
Boa noite... (Maculelê)
Boa noite pra quem é de boa noite
Bom dia pra quem é de bom dia
A benção meu papai a benção
Maculelê é o rei da valentia
Boa noite pra quem é de boa noite
Bom dia pra quem é de bom dia
A benção meu papai a benção
Maculelê é o rei da valentia
Boa Viagem
Adeus
Boa viagem
Adeus, adeus
Boa viagem
Eu vou
Boa viagem
Eu vou, eu vou
Boa viagem
Eu vou- me embora
Boa viagem
Eu vou agora
Boa viagem
Eu vou com Deus
Boa viagem
E com Nossa Senhora
Boa viagem
Chegou a hora
Boa viagem
Adeus...
Boa viagem


Não sei o que fazer pra viver nesse mundo
se anda limpo é malandro se anda sujo é imundo
Mundo atrapalhado além de tudo enganoso
se come pouco é mesquinho se come muito é guloso
Se conversa é falastrão Oh meu Deus se não conversa é manhoso
Me criei foi pelo mundo o mundo que conheçi
Quando apanha é covarde quando mata é assassino
Camaradinha iê...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Se em janeiro não houver  trovoada
 Fevereiro  não tem sinal de chuva
 Não se vê a mudança da saúva
 Carregando a família da morada
 Só se ouve do povo é a zuada
 Pai e mãe, noivo e noiva, genro e nora
Homem  treme com fome, o filho chora
 Se arruma e vão tudo para o Rio
 O carão que cantava em meu baixio
Teve medo da seca e foi embora".
         ( Pinto do Monteiro )

                                   Pinto do Monteiro Gostava de Provocação
por Inaldo Sampaio

Não bastasse o fato de ter descoberto um dos maiores talentos poéticos e jornalísticos do Brasil, que foi Rogaciano Leite, Severino Lourenço da Silva Pinto (Pinto do Monteiro) inscreveu seu nome na galeria dos maiores contadores de viola do Nordeste, em todos os tempos, graças à rapidez do seu improviso e à malícia das respostas com que desafiava os seus parceiros. Esse Pinto, que foi soldado de polícia no tempo de rapaz, que nasceu e morreu pobre, na Paraíba, e que nunca deu maior  importância a bens materiais, estaria fazendo 100 anos se não tivesse morrido aos 94, abandonado em cima de uma cama, cego e paralítico, na mesma cidade em que veio ao mundo no dia 21/11/1896.
Aliás, por falar na data do seu nascimento há uma certa controvérsia a respeito deste assunto. Conta Francisco Coutinho Filho, escritor paraibano (pai do também escritor Edilberto Coutinho, que faleceu recentemente) e autor do clássico Violas e Repentes, editado no Recife em 1953, que a data exata do nascimento do poeta é 1896.
Todavia, baseado em depoimento de dois irmãos do poeta que residem em Monteiro, ambos com mais de 80 anos, a imprensa paraibana registrou que o centenário do seu nascimento foi comemorado o ano passado (l895). A família não possui nenhum documento que comprove ser este o ano certo em que Pinto veio ao mundo, razão por que é mais plausível que se dê como verdadeiro o ano de 1896, assinalado por Coutinho Filho, que produziu há 43 anos, quando Pinto tinha boa memória e esteve com o escritor diversas vezes, o mais completo trabalho, da época, sobre os contadores de viola do Nordeste. Mas, independente da data do seu nascimento, Pinto merece ser festejado, sempre, pela contribuição que deu à chamada "arte do improviso". Pessoalmente chato, de pouca conversa, raciocinava com tanta rapidez que tropeçava nas próprias palavras. Contava o poeta Job Patriota, pernambucano de São José do Egito, também já falecido, que, cantando certa vez na cidade de Tabira, sertão do Pajeú, Severino Lourenço da Silva Pinto começou assim uma sextilha:
                                                                              Foi passando uma donzela  /  E pra ela dei psiu...
Job, que apreciava o gênero lírico, pensou imediatamente com os seus botões: "pra onde esse doido quer ir?". E Pinto continuou,  improvisando:
                                                                              Ela parou lá na frente  /  Perguntou: "que foi que viu?"
                                                                              — Foi a beleza do céu  /  Que no seu rosto caiu.
Pinto foi um dos ases da viola que pontificaram na noite de 5 de outubro de 1948, no Teatro de Santa Isabel, no Recife, no Congresso de Cantadores, de iniciativa de Rogaciano Leite. Este último, grande poeta e extraordinário jornalista, nasceu no sítio Cacimba Nova, hoje município de Itapetim, então pertencente a São José do Egito, tendo começado a fazer versos aos 15 anos de idade exatamente pelas mãos de Pinto.
Também participaram do Congresso — algo que chocou, na época, os chamados defensores da "arte erudita" — os três irmãos Batista (Lourival, Dimas e Otacílio), Domingos Martins da Fonseca e José Soares Sobrinho.
Relata Coutinho Filho que Lourival cantou com Pinto para uma grande platéia, que lotou o teatro, surpresa com aquela forma de fazer versos. Lourival Batista, entusiasmado com os aplausos, fez de improviso esta sextilha:
                                                                              A cantoria vai boa  /  E os versos são colossais...
Nesse instante, aproxima-se um fotógrafo, que, de cócoras, bate uma foto dos dois violeiros. E Lourival continuou:
                                                                              Pinto, aí da tua banda  /  Acocorou-se um rapaz
                                                                              Assim nessa posição   /  Eu não sei o que ele faz!
Pinto aproveitou a "deixa" do colega e completou:

                                                                             Chegou ali o rapaz   /   Começou a se bulir
                                                                              Focou na cara da gente  /  E eu vi a luz explodir
                                                                              Pensei até que era um bicho   /   Que nos quisesse engolir.
Lourival, imediatamente descreveu o resto da estória em versos:
                                                                             Pinto, eu não sei distinguir   /   Se ele é da praça ou da aldeia
                                                                              Pois quando se acocorou     /   Meu sangue tremeu na veia
                                                                              A foto pode ser boa    /   Mas a posição foi feia.
Em outra ocasião, Pinto e Louro estavam cantando quando Pinto findou uma sextilha queixando-se da desafinação da viola, dizendo:
                                                                              “— A minha precisa emenda.”
Lourival pegou na deixa:
                                                                              Não vejo quem compreenda   /  Natureza de viola
                                                                              Com o sol não se dá bem   /      Com chuva se descontrola
                                                                              Se  vem o sol, ela racha      /      Se vem a chuva, descola.
Pinto, insuperável no improviso, gostava de cantar com quem o "provocasse" porque assim inspirava-se mais para revelar o seu talento e a sua genialidade.  Na época em que reinou na viola como reinam hoje, por exemplo, Ivanildo Vilanova, Geraldo Amâncio, João Paraibano, os Nonatos, Lourinaldo Vitorino, Valdir Teles, José Cardoso, João Furiba, Moacir Laurentino, Rogério Menezes e outros — adorava cantar com Lourival porque um sabia encontrar a fórmula de provocar o companheiro. Por essas sextilhas abaixo, vê-se o comportamento deles diante de um quadro assim. Cantavam na vila de São Vicente, hoje município de Itapetim, quando Lourival Batista, falando sobre plantas, usou o termo "carola" em vez de "corola". Pinto bateu forte:
                                                                              Um rapaz que teve escola   /  E ainda cantar errado
                                                                              Fala em flor e diz "carola" /   Muito tem-se confessado
                                                                              Parte de flor é "corola"      /    Precisa tomar "coidado"
O cochilo de linguagem de Pinto, falando "coidado", em vez de "cuidado", deu a Lourival a oportunidade de poder vingar-se do colega. E fulminou:
                                                                              Pra não ter um só errado   /   Errei eu, erraste tu,
                                                                              Errou Pinto do Monteiro  /    E Louro do Pajeú
                                                                              Nesta palavra "coidado", /              Tire o "o" e bote o "u".
Em outra ocasião, cantando na cidade de Prata (PB) com Antônio Marinho do Nascimento, sogro de Lourival Batista, e outro gênio do repente, Pinto ouviu do companheiro a "provocação" que estava esperando:
                                                                              Mas, tenha muito cuidado   /   Com as raposas daqui
Desfecho que, obviamente, tinha a ver com os animais: o medo que galinha tem de raposa. Pinto não se intimidou:
                                                                              Aonde eu chego, não vi         /   Mal que não desapareça
                                                                              Raposa que não se esconda   /   Brabo que não me obedeça
                                                                              Letrado que não me escute   /    Cantor que não endoideça.
Em outra ocasião, Manoel Galdino Bandeira cantava com Pinto, em Jatobá, sertão paraibano, quando improvisou esta sextilha:
                                                                              Pois, quem tem vindo ou estado   /  Aonde Bandeira mora
                                                                              Se vem cantar, perde a rima           Porque lhe falta a sonora
                                                                              Ensaca o pinho às carreiras          /     Se desculpa e vai embora.
Pinto não se deu por intimidado e arrebentou:
                                                                              Posso ir a qualquer hora     /   Quando o tirar do engano
                                                                              Vou pegar sua "bandeira"  /    Quebro o mastro, rasgo o pano
                                                                              Pra lhe mostrar quem sou  /    Me transformo num tirano.
Era assim o velho Pinto: quanto mais capaz era o seu parceiro, mais ele gostava de enfrentá-lo, pois morreu sem conhecer derrota na difícil arte do improviso. É um poeta popular sobre quem pouco se estudou e se escreveu apesar do "mito" que representa para as novas gerações de cantadores que estão surgindo no Nordeste.
Ainda bem que Ivanildo Vilanova (cujo pai, José Faustino, foi parceiro de Pinto em várias cantorias) não esqueceu de homenageá-lo neste belíssimo comercial feito para uma rede de supermercado:
                                                                              Pelo vaqueiro que vaga       /   Por Pinto e sua viola
                                                                              Por Zumbi, o Quilombola   /   Conselheiro e sua saga
                                                                              Pelo baião de Gonzaga       /    E a luta de Virgolino
                                                                              O barro de Vitalino            /     Pelo menino de engenho
                                                                              Por isso tudo é que tenho   /     (Orgulho de ser nordestino)*


  • Propaganda do Bom-Preço.   Vilanova (que já ouvi em Santana com Zé de Almeida) não teve coragem de afrontar o patrocinador. Se em lugar de “de ser” tivesse cantado “em ser” o verso ficara perfeito – com 8 sílabas poéticas. Valia a briga.