quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Gerson

RELATÓRIO DA CAMINHADA A FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO

Preâmbulo

Foram muitos os desafios e os detalhes divertidos na grande empreitada de ir de Maceió a Foz do Rio São Francisco andando e carregando grande peso de bagagem nas costas. É impossível relatar tudo, mas espero que fique registrado aqui, pelo menos, parte do grande esforço que fizemos durante esses dias.

Quando concluí o feito achei ter realizado uma grande conquista. Entretanto, logo que cheguei um amigo me comunicou que do mesmo ponto que eu parti com quatro amigos, em 1922, na Praia de Pajuçara, quatro alagoanos partiram em uma jangada rumo ao Rio de Janeiro, na época Capital Federal. Esses alagoanos percorreram 1000 milhas náuticas e conseguiram realizar o feito. Vale frisar que eles dormiam e comiam amarrados a jangada. Depois de saber disto pensei: alagoano é bicho desgraçado, quando um pensa que fez algo grande outro já superou.

No dia após ter voltado da aventura, quarta-feira dia 4 de agosto de 2010, estava no ônibus da Empresa Palmerense rumo a Palmeira dos Índios às 06:00 horas da manhã, quando sentou em minha frente um caboclo que julguei já conhecê-lo de algum lugar. Puxei assunto e logo descobri que era Joseildo Rocha da Silva, maratonista campeão da prova de Los Angeles em 1992, representante brasileiro das olimpíadas de 1992 e campeão da prova de Chicago de 1993. Ele falava que por semana corria mais de 150 km na época que concorria. Hoje ele está no anonimato e trabalha como professor em Palmeira dos Índios.

Bom, estes dois episódios apagaram um pouco o brilho do feito para minha própria percepção. Ter ido andando até a Foz do São Francisco já não era algo tão grandioso assim, mas ao mesmo tempo me instigou a fazer muito mais para ser mais um alagoano que realiza grandes feitos. Vamos ao Relatório.

A Preparação

Antes da viagem propriamente dita, realizamos todos os preparativos para que não saísse nada errado. Eu juntamente com o Arthur Grangeiro fiz todo o percurso de carro e verificação de todos os pontos críticos indo para cada uma das praias que era possível ter acesso de carro. Além disso, imprimi todos os mapas detalhados por meio de satélite (Google Earth) e fomos conferindo e marcando detalhes de distância e pontos que poderiam servir de apoio e descanso.

Fizemos uma reunião final na casa do Rafael e lá discutimos todo nosso planejamento estratégico, tático e operacional. Nos reunimos dias antes da viagem, após a reunião para comprarmos os equipamentos e materiais que faltavam. O Fernando foi conosco fazer as compras, mas teve que sair mais cedo devido o seu compromisso profissional.

Providenciamos todos os equipamentos necessários e os mantimentos que iríamos precisar. Levamos um fogão portátil, duas barracas, facas, equipamento de pesca, uma muda de roupa, uma machadinha, redes, facão, lanternas, comida e água. Ninguém levou uma bolsa com menos de 15 kg e algumas chegaram a ter peso de 30 kg.

A Partida (sexta-feira)

No dia 30 de julho, saímos da Praia de Pajuçara, pouco mais de 15:00 horas, exatamente do ponto em que habitualmente treinávamos capoeira (em frente ao ginásio do Clube de Regatas Brasil) em número de cinco pessoas: eu, Rodrigo Gluck, Fernando Godoy, Arthur Grangeiro e Rafael Cabral. Quando chegávamos no Jaraguá a Irmã do Arthur, apareceu de carro e fez algumas fotos e vídeos.

Andamos até a central de polícia localizada na praia da avenida sem encontrar mais nenhum companheiro, quando lá, Eduardo César membro da equipe de apoio apareceu e confirmou seu encontro conosco no domingo em que esperávamos já estar nas praias de Coruripe.

Continuando nossa caminhada antes de chegarmos à área verde da Brasken fomos surpreendidos por uma equipe de reportagem da TV Alagoas. Fomos perguntados sobre nosso destino e os objetivos da caminhada. Isso animou e motivou a turma, demos boas risadas com os depoimentos, principalmente com o Rafael de óculos escuros. Alguns passos a mais o Paulo Lamenha, membro dos caiçaras apareceu para nos prestigiar e dar forças. Pronto, daí por diante éramos somente nós.

Realizamos uma parada em frente a Brasken, já na parte final e a outra só aconteceu em frente ao posto da Policia Militar da Ilha Lagunar de Santa Rita, quando lá chegamos já havia escurecido. Descansamos cerca de 15 minutos, comemos algumas frutas, castanhas e cereais. Colocamos rapadura na boca e continuamos a caminhada. Ao chegarmos numa das entradas da Barra Nova havia um caminhão carregado de melancia, laranja e jerimum, vindo de Sergipe. Paramos compramos uma melancia e chupamos, levamos algumas laranjas para aumentarmos um pouco mais o peso da bagagem que particularmente para mim já começava a irritar. O Rodrigo decidiu trocar a bagagem dele comigo, para ajudar, penso que ele não pensou nos outros dias de caminhada, porque minha bagagem estava muito pesada mesmo.

Em frente à entrada da Massagueira após a Ponte Engenheiro Celso, fizemos outra parada. Descansamos um pouco mais, cerca de 20 minutos. Bebemos água, colocamos algumas paçocas na boca e fomos andando em direção ao Francês. Aceleramos o ritmo e só paramos quando estávamos a menos de um quilometro da entrada do francês em um posto de combustível que já estava fechado. Tiramos as bagagens das costas e depois de retomarmos as forças, continuávamos com o desafio. Passamos direto da entrada da Praia do Francês e fomos parar em um posto mais afastado. Lá tiramos algumas fotos com as pernas para cima enquanto descansávamos e legamos para nossas pessoas amadas. Quando partimos o Arthur pegou minha bagagem que já estava comigo desde a parada da Massagueira.

Realizamos mais uma parada em mais um posto fechado. Peguei minha bagagem novamente e continuamos andando até a Praia da Barra de São Miguel. Quando estávamos bem próximo da chegada da Barra um tio do Rodrigo apareceu de carro e perguntava se não queríamos carona, dispensamos e continuamos andando. Não chegamos a entrar na cidade pois julgamos ser menos perigoso dormir na praia antes da cidade. Montamos nossas barracas já era quase meia noite. O Rodrigo dormiu em uma barraca junto com o Rafael e eu dormi em outra junto com o Fernando e o Arthur. Perguntei quem ficaria com o apito de aviso e o Rodrigo se prontificou. Tive muita febre devido o esforço exagerado, mas dormir como uma pedra.

O 1º Dia Completo (sábado): Construção da Balsa e Travessia do Gunga

No dia 1º de agosto levantei junto com o amanhecer, enquanto os outros dormiam coletei alguns bambus para construção de nossa balsa que atravessaria a Lagoa do Roteiro. Os outros acordaram ainda antes das 06:00 horas dividimos a quantidade de bambu e continuamos a caminhada para a Lagoa. Enquanto andávamos o Paulo Lamenha chegou na Barra nos procurando, vimos ele e isso foi de grande ajuda, pois pudemos ir coletando o material necessário a fabricação da balsa enquanto andávamos e ir colocando esse material em sua caminhoneta. Chegamos na praia que fica em frente ao Gunga, separada apenas pela Lagoa do roteiro antes das 09:00 horas, lá o Eduardo César e meu pai estavam a nossa espera. Comemos antes de iniciar a construção da balsa. A finalidade da balsa era levar nosso material sem que ele se molhasse até o outro lado. Terminamos a balsa depois de 11:00 horas e o mar já havia começado a encher. Enquanto construíamos não faltou gente de toda natureza para nos desanimar e dizer que aquilo não daria certo. Um pescador nativo que passou falava enfaticamente que aquela balsa que construíamos não chegaria nunca ao outro lado e todos nós acabaríamos nos afogando.

Quando tentaram desencorajar o Rodrigo ele deu uma grande lição de confiança no grupo. Ele respondeu: “o que o mestre decidir junto com o grupo a gente vai fazer, se é para continuar e atravessar, nós vamos fazer isso.” Vale frisar que Rodrigo não é alienado, muito menos bobo. A resposta que ele deu deixou claro que a decisão de continuar caberia a nós do grupo, respeitando nossa organização hierárquica interna e não a pessoas alheias a nossa realidade, que não participaram de nosso planejamento e preparação da empreitada.

Quando terminamos a construção da balsa meu pai e o César já havia ido embora. Nesse momento, a Thássia e a Nice já estavam do outro lado, na Praia do Gunga, nos esperando com um lanche muito saboroso – pelo menos assim dizia o Arthur. O Paulo foi de carro até o outro lado de carro nos esperar e contratamos um canoeiro para não colocar ninguém em risco caso algum problema acontecesse. Enquanto andávamos na praia um siri beliscou o Rafael que saiu aos pulos deixando os que estavam próximo dele bem assustados por não saber o que era.

A travessia foi um momento importante, achávamos que seria o mais difícil, mas haveria ainda muitos desafios. Quando chegamos do outro lado nos juntamos a Nice, a Thassia e ao Paulo. É muito bom ver nossos companheiros quando estamos passando por desafios. Comemos, descansamos bastante e já no final da tarde foi que retomamos a caminhada. Andamos até o início das falésias e lá montamos nossas barracas. Durante a noite fizemos uma reflexão, ligamos para as pessoas que gostamos e preparamos um feijão para comer.

O Segundo Dia (domingo) – As Falésias, as Pedras e o Rio Jequiá

Levantamos todos no outro dia junto com o amanhecer, tiramos algumas fotos e continuamos com a caminhada em um dos cenários mais belos que já pude ver. Fizemos nossa primeira parada na Lagoa Doce e depois a cada pequena lagoa fazíamos uma pequena parada. A alça de minha bolsa rompeu e fiquei muito assustado pensando como iria continuar. Mas, foi fácil de resolver, amarrei a alça e continuei. O cenário era lindo, mas a caminhada era bastante difícil. O Sol era forte e não havia abrigo. Um pouco antes do povoado encontramos um grande desafio, uma barreira de pedras muito difícil de ser ultrapassada porque a arrebentação do mar batia diretamente nelas. Mas, conseguimos atravessar sem ninguém se machucar. Já era quase 11:00 horas quando chegamos ao povoado de Lagoa Azeda.

No povoado paramos em um mercadinho, bebemos bastante água e nos reabastecemos. No final do povoado encontramos uma palhoça feita por pescadores e lá armamos nossas redes. Depois de algum tempo Chegou o César e o Severino. Eles trouxeram comida e refrigerante. Foi bom vê-los, já era domingo e ficamos muito animados. Antes das 14:00 horas partimos e precisávamos apressar o passo. Precisávamos passar dois grandes rios antes da maré ficar muito cheia. Chegamos ao acesso de Jequiá da Praia e lá havia algumas barracas vendendo refrigerantes, bebidas e churrasquinhos. Comemos alguns churrasquinhos e bebemos mais água. Fomos deste ponto até a desembocadura do Rio Jequiá correndo. Este local chamava-se Dunas de Marapé e tem vegetação muito espinhosa. Enquanto corríamos os espinhos de mandacaru, palmas e outros cactos nos furavam, pois estávamos descalços, mas esse era o menor dos problemas diante do estado que já se encontravam nossos corpos.

Chegamos no Rio Jequiá e o atravessamos a nado depois de colocar a bagagem em uma embarcação local. Do outro lado encontramos alguns turistas que estavam organizados em casais e com seus filhos. Conversaram bastante conosco e depois de nos perguntarem bastante sobre o grupo se despediram, pois precisávamos partir. Fomos bem apressados tentando chegar ao Rio Poxim antes da maré estar cheia. Mas, quando lá chegamos já começava a escurecer e a maré estava muito alta para atravessarmos com as coisas que carregávamos. Acampamos então na beira do rio. Essa seria nossa terceira noite longe de casa. Nos programamos para levantar às 2horas e 30 minutos, pois indicava na tabela que por volta de 04:00 horas a maré estaria seca. Cozinhamos feijões e comemos antes de dormir. Eu na verdade apenas coloquei a comida no fogo e dormi sem esperar ela cozinhar. Estava muito cansado. Nesta noite não conseguimos falar com nossas pessoas queridas pois não havia sinal de rede. Mas, estávamos felizes visto que havíamos chegado em Coruripe. Fizemos nossa reflexão enquanto a comida cozinhava.

O Terceiro Dia (segunda-feira) – Rompendo Tendões na Grande Caminhada

No horário determinado eu levantei depois de ter novamente muita febre. Fui olhar o rio e vi que ele não estava completamente seco. Achei estranho, mas percebi que havia um erro no registro da tabela de marés. Acordei os outros apressado e desmontamos o acampamento. Atravessamos o rio com a bagagem na cabeça. O Arthur foi o primeiro a entrar no rio para verificar a profundidade e após sua travessia seguimos todos atrás dele.

Andamos durante a escuridão, a outra alça de minha bolsa rompeu devido o peso, mas novamente amarrei e prosseguimos. Chegamos no povoado de Lagoa do Pau enquanto amanhecia. Encontramos uma única barraca aberta. Falamos com os donos e pagamos para que cozinhassem um cuscuz junto com camarão e peixe. Armamos nossas redes e descansamos enquanto a comida era preparada. A comida estava deliciosa e nós estávamos muito cansados, mas mesmo assim continuamos a caminhada até o Pontal do Coruripe. Esse seria o dia que mais andaríamos com paradas curtas, apenas, para descansar. Quando chegamos no farol do pontal entrei em contato com uma companheira minha para ela guardar parte dos equipamentos que não iríamos mais precisar. Foi um alívio para todos reduzir o peso da bagagem. Deixamos todos os equipamentos de pesca e as mudas de roupa. Além disso, passamos a levar apenas a comida necessária. Julgamos ser melhor passar alguma privação que continuar carregando tanto peso. Até nossos sapatos ficaram. Após algumas fotos continuamos com a caminhada em direção ao Rio Coruripe.

Quando chegamos no rio começamos a improvisar uma balsa e quando ela já estava quase pronta uma jangada pequena atravessou nossas coisas com um pescador. Ele estava muito embriagado e nós rimos bastante com ele. Não paramos, andamos bastante até o Miaí de Cima. Lá almoçamos e armamos nossas redes para descansar. O grupo estava exausto e as dores nas pernas e nas costas eram muito grande. Saímos de lá no final da tarde. e já era muito escuro quando chegamos ao Miaí de Baixo. Paramos um pouco naquele povoado, mas não vimos uma única pessoa, pois paramos nos barcos de pesca. De lá ficamos avistando as características daquele local. A parada não foi longa, porque de lá víamos as luzes do Pontal do Peba e isto nos animava. Mas, de onde estávamos até as luzes havia mais de 20 km de areia fofa com peso nas costas, ah... Não posso esquecer! Havia também milhares de pequenos rios que precisávamos atravessar, mas não sabíamos disto porque não dava para ver do satélite. Continuamos andando com a pretensão de chegar na entrada de Feliz Deserto que dá acesso à praia. Mas, por mais que andássemos parecia que não chegávamos nunca. Intimamente eu estava confiante que dormiríamos nas praias do Peba, mas quando estávamos a menos de 300 metros da entrada de Feliz deserto o Arthur apareceu com os tendões lesionados por esforço repetitivo e comunicava sua impossibilidade de continuar naquela noite.

Descarregamos as coisas e montamos o acampamento nas pressas. Nesta noite não cozinhamos. Eu havia comprado alguns doces em Miaí de Cima e distribui para todos. Fizemos a reflexão, comemos e dormimos. Eu imaginava levantar todos por volta de 03:00 horas da manhã, embora já fosse mais de meia noite. Mas, às 03:00 horas quando acordei vi que estavam todos muito cansados e eu também estava acabado. Decidi então que dormiríamos todos um pouco mais para recobrarmos as forças mesmo que precisássemos atrasar a viagem.

O Quarto Dia (terça-feira) – Desafio Final: O Deserto até o Rio

Quando todos levantaram já eram quase 06:00 horas. Nos banhamos na água gelada do mar, como fazíamos todos os dias quando acordávamos, e comemos alguma coisa para prosseguir andando, agora já bem próximo de terminar nosso desafio.
Chegamos cedo numa pousada de cor azul. Aceleramos o passo propositalmente para que todos pudessem perceber quem agüentaria ou não a etapa final. Quando chegamos na pousada ficou claro para o Arthur que seria impossível para ele atravessar as últimas dezenas de quilômetros. Ele então se encarregou de providenciar o carro de apoio que iria nos buscar. Vale destacar que o ponto que nós chegamos já é considerado a foz do São Francisco e que o Arthur não continuou porque as lesões o impediam realmente de andar. Não eram apenas dores, eram tendões muito inchados e músculos que não obedeciam mais aos comandos cerebrais.

Continuamos então em número de quatro, com o Rodrigo e o Rafael bastante machucados e o Fernando como se ainda não tivesse sofrido nada. O Rafael saiu de Maceió com os ligamentos do joelho rompidos, mas sua incrível resistência à dor e sua persistência o fizeram chegar até esse ponto. O Rodrigo ficou lesionado devido o esforço repetitivo. Enquanto nos dirigíamos ao rio, que dá acesso ao deserto, um carro passou a toda velocidade e quase nos atropela. Quando chegamos no rio este carro estava atolado e seu dono desesperado e com muita arrogância solicitava nossa ajuda. Achei aquela cena engraçada. Estávamos todos muito cansados e exaustos, mas aquele homem não fazia a menor idéia de onde vínhamos e nem do nosso estado físico, ele estava apenas preocupado em resolver o seu problema independente dos objetivos dos outros e do fardo que eles carregavam. Mesmo assim, fomos todos tentar ajudá-lo. Foi inútil, o carro estava todo dentro do rio e era impossível tirá-lo dali com força braçal. Mas, enquanto tentava ajudar e via o homem irritado, inclusive conosco, pensei como aquele episódio acontece de forma diferente o tempo todo. Digo, as pessoas quase sempre não calculam o risco do que se envolvem e depois se comportam como vítimas tentando sair do atoleiro que elas mesmas se colocaram. Vi que na verdade o rio não é mal, muito menos entrar dentro do rio, mas a depender da falta de avaliação que uma pessoa faça, o rio pode até matar alguém afogado ou deixá-lo numa situação difícil. O engraçado é como a pessoa que está atolada se irrita com todos, julga não ter culpa de nada e não se importa com os objetivos, nem com o fardo de quem às vezes só está tentando ajudar. Naquele momento lembrei de como as pessoas podem ser frias e insensíveis quando se vêem ameaçadas, ainda que tenham sido elas mesmas as culpadas por estarem naquela situação.

Depois deste episódio saímos mais cansados do que estávamos, mas tínhamos um objetivo a ser alcançado e isso nos fazia persistir. Novamente refleti que quando não temos rumo na vida podemos modificar nosso caminho facilmente e desistir de nossos propósitos. Para não desistir é preciso estar bem certo de onde devemos chegar. Mesmo quando estamos certos de nossos propósitos e do rumo que queremos dar, as pessoas que se atolam por atravessar em nossas vidas, sem saber muito bem o que lhes espera na frente, acabam roubando muito de nossas forças e nos deixando atrasados. Sem falar que acabam sendo engraçados por ficarem irritados achando que nós é que não estamos ajudando e que de certa forma somos os culpados do atoleiro.

Prosseguimos e com menos de 10 km fizemos uma parada junto a um grupo de pescadores. Estávamos preocupados com o horário pois a maré encheria e teríamos que chegar na foz no máximo às 16:00 horas. Estávamos tão fadigados por carregar peso durante vários dias e dormir pouco que sentíamos que se forçássemos mais o nosso corpo lesionaríamos nossos músculos. O encontro com esses pescadores foi desanimador, pois eles ao olharem para nosso estado imaginavam que éramos aventureiros desprovidos de planejamento. Pensaram que estávamos naquele estado por simplesmente termos saídos do Pontal do Peba até aquele ponto do deserto. Coube aí nova reflexão, as pessoas geralmente nos vêem como elas são, se são frágeis, nos vêem assim; se fortes e persistentes, também nos perceberão deste modo. Além disso, as pessoas dificilmente sabem a história de nossa caminhada e quando contamo-la, quase nunca acreditam, principalmente se for uma jornada muito difícil. Julgam sempre que nosso cansaço é por razão semelhante ou inferior ao delas. Somente quando conseguimos deixar clara a nossa jornada e nossas pretensões é que alguns conseguem perceber que nosso brilho e nossa luz são diferentes.

Os pescadores num primeiro momento diziam que do ponto que nós estávamos até a Foz era muito longe, mas depois de convencermos eles de onde vínhamos eles refizeram o discurso e disseram que logo, logo chegaríamos lá.

Encontramos quase no meio do deserto um pescador solitário que nos deu água e quando estávamos avistando a antena que fica próxima a foz, o Fernando solicitou permissão para ir correndo em nossa frente, pois corríamos o risco de não conseguir chegar pois já era 15:00 horas. O Fernando que estava em melhores condições físicas poderia chegar e pelo menos ficaríamos felizes por saber que um de nós atingiu o propósito. Ele logo sumiu de nossa vista. O Rafael também adiantou e eu fiquei um pouco mais atrás com o Rodrigo que não conseguia mais controlar as pernas e sofria de grande dor.

Já bem próximo à antena o carro de apoio apareceu junto com o Arthur. O Rodrigo disse que iria completar o restinho do percurso em cima do carro, pois de fato não conseguia mais andar e agora precisávamos correr. Corri bastante e consegui alcançar o Rafael. Terminei o resto do percurso correndo lado a lado com o Rafael. Quando cheguei ao rio junto com o Rafael senti uma alegria poucas vezes experimentada em toda minha vida.
Garanto que o prazer experimentado por todo o corpo foi maior que o que sentimos quando chegamos ao ápice com uma mulher que muito desejamos. E falo isso esclarecendo que nada na vida é tão prazeroso como uma mulher que desejamos. Mas, aquele era o prazer da missão cumprida.

Completamos o percurso exatamente as 16:00 horas da terça-feira dia 04 de agosto de 2010. No total gastamos quatro dias e quase uma hora. Mas, em termos de crescimento, anos de amadurecimento não se comparam a esses quatro dias.

Considerações Finais

Podemos levar a vida de diferentes formas. Podemos viver procurando um objetivo e um sentido previamente traçado para ela. Podemos seguir os objetivos que outros apontam como interessantes, podemos desistir no caminho, podemos persistir. Podemos até mesmo imaginar que nada faz sentido e que não se faz necessário deixar a vida amarrada por objetivos. Mas, particularmente para mim é importante pensar que mesmo que a vida em si não tenha sentido eu posso traçar objetivos para minha existência e com isso construir um sentido belíssimo para a minha vida. Nada é mais prazeroso que se perceber como o autor e o ator de sua própria existência, de tal forma que nos desperte alegria quando damos uma de expectador do espetáculo que criamos.

Durante esse percurso pensei muito em pessoas que desenvolvi muito apresso em minha vida. Pensei nos planos que fazia com algumas, mas ao mesmo tempo pude ir percebendo que quando nos afastamos de todos, isso trás dores boas. Dores boas porque podemos ir sentindo como algumas pessoas usam afastamentos de nós para se fortalecer no intuito de viverem suas vidas independentes dos planos que nós fazemos junto com elas. Sofremos por isso e achamos até certa falsidade, mas na verdade esses afastamentos que trazem dores são bons, pois podemos ver quem de fato confia em nossa capacidade e disposição de viver uma vida diferente, do mesmo modo que nos dispusemos a trilhar um caminho diferente. E aqueles que não enxergam essa capacidade em nós, são tão pequenos como as pessoas que tentavam nos desencorajar ao longo de nossa caminhada ao São Francisco. Essas pessoas não agüentam seguir nossa jornada, e como diz a sabedoria caambembe: apenas os semelhantes se atraem.


Maceió, setembro de 2010
Gérson Alves da Silva Jr
Tamuia Caambembe