“Para mim, tudo começou no dia em que o professor havia dito que teria um acampamento com os membros caiçaras e convidados.”
No começo, fiquei pensando em quais itens levar para o acampamento, tive a oportunidade de ler um relatório de um acampamento, também proporcionado pelos membros do grupo caiçara.Fiquei curioso sobre como iria ocorrer esta aventura. E fiquei noites pensando nela.
Esperei até o penúltimo dia para fazer as compras dos equipamentos, e levei tudo o que o professor havia dito para levar e mais um pouquinho.
Enfim, na segunda-feira, dia 25 de janeiro de 2011, juntamente com o companheiro caiçara Raul saímos de Arapiraca e fomos para Maceió. Pegamos um ônibus e fomos em direção ao Posto da Rodoviária Federal de Maceió e lá esperamos e logo em seguida ligamos para nossos amigos caiçaras em busca de mais informações sobre o ponto de encontro que era na gráfica de paredes azuis, que ficava ao lado do Posto da Rodoviária Federal.
Quando chegamos esperamos por um tempo, e foram aparecendo nossos amigos caiçaras (de Maceió, Arapiraca entre outras cidades) que iriam fazer parte desta nossa aventura (no todo foram 18 pessoas). Por volta das 17h00min o professor Gerson apareceu em um Van que iria nos levar a cidade de Murici no Novo Hotel e lá tivemos nosso ultimo jantar delicioso, e o ultimo banho de chuveiro. Ainda tivemos tempo de visitar a principal praça da cidade de Murici onde tiramos fotos e conversamos para nos conhecer melhor.
Fomos dormir, e a partir das 3h00min os membros caiçaras já estavam de pé, preparando as mochilas, os tênis, passando hipoglós (pois sabíamos que não seria nada fácil a nossa caminhada). Tomamos “café da manhã” (já começamos a tirar o peso das mochilas comendo as frutas que eram de idade peso).
Sob a lua minguante e das estrelas, demos a nossa partida que seria da cidade de Murici para a Serra do Ouro que tem em torno de 20 km de distância. Durante toda a caminhada me senti muito bem, estava entusiasmado com toda aquela aventura, respirava fundo para sentir mais ainda a brisa gostosa da madrugada. A única preocupação minha naquele momento era o peso da minha mochila que tinha em torno de 13 kg. Durante toda a caminhada virava minha mochila para frente do meu peito, colocava sobre meus braços, ficava trocando-a de lugar para me sentir mais confortável, o peso estava aumentando a cada minuto (mesmo dando todas as minhas frutas a companheira caiçara Thassia).
Andávamos sobre uma estrada de terra, e havia algumas possas com água que tínhamos que pulá-la ou passar do lado para não molharmo-nos. Senti-me ótimo nessas horas, sabia que ali já havia começado nossa aventura.
Depois de algumas horas de caminhada o Sol começou a aparecer, depois de termos completado em torno de 50% da caminhada tivemos nossa primeira pausa, que foi debaixo de uma grande arvore, ficamos ali descansando por cerca de 10 minutos, lá pudemos trocar as meias dos tênis que estavam molhados, comer, etc.
Voltando para nossa longa caminhada, começamos a subir algumas serras, só que elas eram íngremes, e com nossas mochilas pesadas a caminhada ficou árdua. Mais todos estavam que subindo, acredito que pegaram um ritmo e subiram sem olhar para traz, eu não me contive e em todo percurso fiquei observando a natureza, estava tentando me ligar a ela o máximo possível naquele momento.
Tivemos nossa segunda parada, que foi em um riacho. As meninas do grupo foram primeiras (cavalheirismo foi o que não faltou no grupo), logo em seguida os homens foram. Ao chegar neste riacho não estava muito interessado em entrar, fiquei sem vontade, pois fiquei achando que poderia me atrapalhar na caminhada principalmente na formação de assaduras. Mais o riacho era muito bonito, acredito que estava muito frio também.
Voltamos para nossa longa caminhada, “subimos e subimos” serras, depois de algum tempo de caminhada e muitas risadas, pois conversávamos sobre os outros acampamentos, tivemos então nossa terceira parada que ainda na subida das serras, atravessamos um portão e descemos alguns metros até acharmos outro riacho, neste eu fiquei animado para entrar, mas alguns dos caiçaras aconselharam a não entrar, pois acharam que a água estava um pouco parada.
Então depois de observar aquela beleza extraordinária “voltamos para nossa longa caminhada”, chegando ao quase topo da Serra do Ouro, pudemos descansar e trocar algumas idéias além de termos nos alimentado de jaca (sendo que foi a minha primeira vez que comi tal fruta).
Alguns dos caiçaras foram em busca de uma água inodora, pois a que tínhamos achado a priori não estava muito legal, e alguns outros membros foram em busca do local que iríamos acampar sendo que era dentro da mata. No final das contas ficamos instalados no local do ultimo acampamento dos caiçaras.
Fomos separados em grupos de três, neste momento o que vinha em minha mente era o aviso que o Mestre Gerson havia dito quando chegamos a Murici no Novo Hotel, que devíamos obedecer para uma melhor convivência.
Então foi isso que eu fiz, me predispus a fazer o que o Fernando (Líder) do nosso grupo pedir. Então foi designado a mim e outro membro a ir buscar palhas para cobrir a nossa “barraca”. Começou a chover, houve dificuldades desde ter íngremes subidas até o peso das palhas.
No final das contas, apenas uma barraca foi concluída com êxito, que ficava entra a nossa equipe que ficava na entrada da mata e da equipe do Mestre Gerson, nesse meio tempo eu perdi meu óculos por um acidente na hora de cortas as palhas no meio (ninguém encontrou), o que me desanimou bastante. Um dos nossos amigos caiçara passou mal, eu estava sem óculos, e os restantes estavam exausto, eu mesmo estava com dor nas costas por ter carregado aquele peso insuportável, meus pés estavam cheios de bolhas e estava com muita dor de cabeça.
Mais como disse, até por todos esses pesares eu estava curtindo a natureza e tudo envolta de mim, ao anoitecer todos nós ficamos sobre uma única coberta alguns ficaram na rede e outros ficaram no chão úmido, mais aquilo sim foi uma aventura, todos estavam exausto, casados por terem caminhado tanto, e por terem corrido contra o tempo em busca de matéria prima para fazer as cobertas, mais eu estava feliz. Comemos o nosso jantar, o qual foi frutas, muita farinha com charque, e diversas coisas que o pessoal trouxe.
No final da noite algumas pessoas se manifestaram, comentaram sobre a aventura, sobre as dificuldades, entre outras coisas. Eu estava muito animado, eu até queria falar, mais estava tão entusiasmado e um pouco triste por estar tão exausto e a perda dos óculos (pelo menos vou ter o que falar desse acampamento) que preferi ficar com os meus pensamentos.
Tentamos dormir, mais foi difícil, pois estava chovendo, estava frio, o chão úmido, e corríamos risco de sermos atacados por algum inseto peçonhento, fora que haviam algumas goteiras na coberta. Eu troquei de lugar com um amigo caiçara, pois ele estava incomodado com as goteiras, mais no final ele se arrependeu.
Acordamos, e achávamos que era tarde, mais quando olhamos para o relógio eram em torno de umas 02h30min. Depois de um tempo voltamos a dormir e aos poucos o pessoal ia acordando umas 06h00min. Tomamos nosso primeiro café da manhã no meio da mata, que foram frutas, charque, guloseimas caseiras etc.
Passamos o tempo conversando, alguns foram buscar água, outros ficaram ainda alimentando a fogueira que foi feita a noite. Tentaram até fazer um café, durante toda aventura eu tentei curtir a natureza, fiquei calado, não conversava muito, estava bem.
Foi dito que algumas pessoas iriam voltar naquele dia, pois alguns estavam doentes, outros exaustos, outros desanimaram, e eu fiquei pensando na possibilidade de ficar mais os momentos “motivatórios” do Mestre Gerson não me animou. E acabei por ir, juntamente com alguns membros caiçaras, houve o incidente entre o Mestre Gerson que fez uma brincadeira de mau gosto com o “Zapata” que ingeriu querosene. Tirando esse infeliz acontecimento e o meu óculos perdido o acampamento foi uma das melhores aventura que já fiz na minha vida, a pesar que eu apenas passei umas 36 horas e não os 5 dias previsto, mais foram as 36 horas mais cansativas dos 5 dias.
Aprendi a fazer fogueira em um breve momento, queria muito ter aprendido a fazer a estrutura das cobertas, só que não houve tempo. Mais no “final das contas” tudo foi legal, pude fazer uma introspecção. E a partir deste acampamento pude ter uma breve experiência do que é viver e sobreviver em um meio hostil.Também consegui fortalecer minha mente e meu corpo através deste acampamento dos caiçaras.
No dia 24 de Janeiro de 2011 eu estava comprando as ultimas coisas que faltavam para o acampamento, fui ao mercado municipal de Arapiraca comprar meu facão e minha lanterna lá encontrei os caiçaras Douglas e Marcos como Douglas ia viajar no mesmo dia para Maceió marquei com o Marcos para que fossemos na manhã seguinte e lá encontrarmos os demais caiçaras, na manhã seguinte partimos para Maceió e durante o caminho falávamos sobre as expectativas do acampamento. Ao chegarmos ainda tínhamos um tempo livre para fazer um lanche, paramos no shopping e demos uma volta foi aí que eu percebi que minha bagagem estava muito pesada devido à rede que eu estava levando, sabia que eu ia sofrer um “pouco” com o peso, pois iríamos andar cerca de 20 km até chegar ao local do acampamento, depois de lancharmos pegamos um ônibus e fomos para o local combinado para encontrarmos os demais Caiçaras, a primeira caiçara que encontramos foi Leilane depois os demais começaram a chegar por fim pegamos a van que nos levaria até Murici.
Ao chegarmos a Murici fomos para o hotel e nos dividimos em alguns quartos, ficaram no mesmo quarto eu: Marcos, Fernando, Guilherme e Adriano, depois de nos acomodarmos no hotel saímos para conhecer a cidade, mas com hora marcada para voltarmos pois depois do jantar teriamos nossa reunião para discutirmos sobre algumas questões como liderança dos grupos que ficou dividida entre o professor Gérson, Severo e Fernando e acertarmos os últimos detalhes do acampamento.
Às 3 horas da manhã de 26 de Janeiro acordamos e nos preparamos para nossa primeira e árdua tarefa a caminhada de cerca de 20 km, os primeiros quilômetros foram fáceis, mas depois de um tempo minha mochila começou a pesar muito, principalmente por conta da rede que eu levava, em uma das nossas paradas tomamos um banho em uma cascata, foi um alívio, mas logo que começamos a caminhar nossas mochilas começaram a pesar novamente.
Fomos divididos em três equipes sendo Professor Gérson, Severo e Fernando os lideres de cada grupo, na divisão eu fiquei na equipe liderada por Fernando e junto com a gente ficaram Thássia, Nathany, Marcos e Henrique.
Depois da escolha do local onde levantaríamos nosso acampamento fomos atrás dos materiais para construção da nossa barraca, ninguém fez corpo mole e começamos a trabalhar, mas devido ao adiantado da hora o professor Gérson pediu para que a nossa equipe se juntasse a dele para construirmos juntos uma só barraca, depois de horas de trabalho a fadiga já era vista no rosto dos caiçaras e alguns começaram a passar mal. No fim do dia apenas a barraca de Severo tinha ficado totalmente pronta a nossa ficou parcialmente pronta e aconteceu o que mais nos temíamos começou a chover e todos se acomodaram na barraca do Severo e devido a falta de espaço para colocar mais redes tivemos que nos acomodar no chão mesmo, o cansaço era grande eaperto também então certa hora da noite eu e mais alguns caiçaras mesmo chovendo decidimos nos abrigar na barraca que estava parcialmente pronta, eu até dormi, mas a chuva começou a aumentar então decidimos voltar para a outra barraca.
Na manhã do dia 27 houve algumas desistências e devido à caminhada, a construção da barraca e a noite de chuva me deixou bastante cansado então pensei também em desistir, mas depois que tomei um banho parece que minhas forças se renovaram então comecei a trabalhar com o pessoal para a finalização da barraca, no fim do dia como alguns haviam desistido eu e Nathany resolvemos ficar com o pessoal liderado por Severo e depois da primeira reflexão cantamos, conversamos um pouco e fomos dormir.
No dia 28 eu, Douglas, Nathany e Jonathan fomos buscar água e tomar banho, mas fomos interrompidos pela ligação recebida por Nathany que ficara sabendo que sua prima havia falecido, então Douglas gentilmente a ajudou a pegar suas coisas e a levou até uma casa onde ela conseguiu uma carona até Murici, fora isso o dia se caracterizou tranqüilo fizemos nossas reflexões cantamos um pouco e fomos dormir pois no dia seguinte iríamos desbravar a mata da Serra do Ouro.
No dia 29 saímos para conhecer a mata, mas no acampamento permaneceram Leilane e Fernando para fazer o nosso almoço, a caminhada foi muito instigante, pois o terreno íngreme fazia da caminhada um desafio, todos estavam animados. Ao voltarmos saboreamos o almoço feito por Fernando e Leilane, depois confeccionamos arcos, flechas e colheres, tudo isso com bambu e barbante de cisal, depois da nossa ultima noite de reflexão fomos dormir, pois no dia seguinte bem cedo estaríamos partindo cada um para o conforto de suas respectivas casas.
No ultimo dia, 30 de janeiro pegamos nossas bagagens (nossas mochilas, mas principalmente a bagagem de experiências e aprendizados) e fomos em direção a Murici e depois de parte do percurso caminhado pegamos uma carona em um caminhão que nos levou até lá. Ao chegarmos a Murici devoramos um delicioso almoço em um restaurante da cidade e depois pegamos uma van que nos levou até Maceió e de lá cada um seguiu o seu destino, mas uma coisa é certa todos cheios de novas experiências .
O acampamento me proporcionou fazer novas amizades, mas, além disso, obtive vários aprendizados dentre eles que nós seres humanos nos limitamos demais e às vezes desconhecemos forças que temos, mas que geralmente não usamos. Durante a vida pensamos em desistir de algumas coisas por acomodação, fraqueza e por outros vários motivos (e esses não faltam), mas o que nos vai fazer diferentes daqueles que desistem é a coragem de enfrentar nossos medos, vencer as nossas acomodações, ou seja, sermos guerreiros, sermos CAIÇARAS!!!!!!
Em novembro de 2010, na comemoração do dia da consciência negra boa parte do grupo Caiçara Caapoeira se reuniu na Serra da Barriga e esse foi meu primeiro contato com os Caiçaras de Maceió e alguns de Palmeira, aos quais não conhecia. Foi a partir deste dia que tomei conhecimento do Ouricuri, realizado a cada seis meses, Ouricuri é um ritual de fortalecimento e reflexão realizado pelos índios. A partir do conhecimento deste acampamento comecei a almejar a minha participação, entretanto apenas em dezembro no treino de caapoeira foi que o mestre Tamuia transmitiu ao grupo mais detalhes sobre. E confesso que minha participação no acampamento iniciou a partir do convite do mestre Tamuia, pois desde então começou minha especulação sobre como se daria e o que iria fazer. No inicio de janeiro de 2011 obtive mais informações, então comecei a me organizar com mais direcionamento a cerca do material necessário. Na segunda feira 24, com a mochila semi-pronta me dirigi a Maceió onde participei do encontro pré-Ouricuri, lá onde tivemos as ultimas informações acerca do que nos aguardava, uma reflexão sobre o que iríamos fazer, a confirmação e não confirmação neste evento e uma conferida no peso das mochilas, isso era de estrema importância já que ir-se-ia realizar uma caminhada de 20Km entre descidas e subidas, e a qual qualquer gramas poderia se tornar quilos, lá reencontrei pessoas ao qual havia conhecido na Serra da Barriga.
No dia seguinte comprei o que faltava e por volta de 15h40min fui de encontro aos companheiros caiçaras Fernando e Nathany aonde iríamos nos dirigir ao ponto marcado na policia federal de Maceió. As 16:00h estávamos todos a espera do mestre Tamuia que viria com uma van para nos transportar para Murici. Por volta de 17:00h o grupo Caiçara formado por 16 pessoas se dirigiu a cidade de Murici onde passamos nossa ultima noite antes do Ouricuri, no Novo Hotel, lá tivemos a ultima janta saborosa da semana bem como as informações finais, ai já estávamos em numero de 18 pessoas.
As 3h10min, inda com pouco de sono, partimos em marcha para a Serra do Ouro á 20 km do centro de Murici, sob o brilho da lua minguante e das estrelas, pois estávamos sobre uma noite sem nuvens. Durante a caminhada trocavamos experiências e conhecimentos sobre a vida. Começamos a observar algumas constelações visíveis naquela noite. Depois de algum tempo de caminhada e já com a presença ilustre do Sol tivemos nossa primeira parada sob a sobra de uma arvore popularmente conhecida como brinco de viúva. Ficamos ali em descanso por cerca de 20min, onde comemos algumas frutas que levávamos e água, onde algumas pessoas já demonstravam cansaço, em seguida demos continuidade a nossa longa caminhada.
Nossa segunda parada, se não me falha a memória, foi uma pausa maior, onde paramos para um pequeno banho em um riacho que estava próximo ao caminho, foi um banho super relaxante, com água bem gelada. Pena que nem todos quiseram desfrutar deste banho revigorante. De mochila nas costas continuamos nossa jornada. Tivemos nossa terceira parada já na Serra do Ouro, a entrada de um riacho que ficava a uma bela de uma descida. Próximo ao topo da Serra do Ouro, por volta das 9h, encontramos um ribeiro ao qual inicialmente era de águas puras e cristalinas, desci um pouco a baixo da estrada enchi alguns cantis e nosso alegria rapidamente se desfez, pois suas águas nem eram puras e nem cristalinas...(risos). Refletimos um pouco... Juntamente com alguns companheiros, retrocedemos cerca de 30min o percurso feito, em direção a uma fonte para verificarmos a qualidade de suas águas, enquanto alguns tuxauas, palavra indígena que quer dizer chefe temporal, no nosso caso seria uma pessoa que possui experiência em participação de Ouricuris anteriores, procuravam mata adentro local para fixar-nos pelos próximos dias. Enfim essa fonte possuía águas puras e cristalinas...(risos). Enchemos os cantis e voltamos para a boa nova. Lá fomos recepcionados com uma enorme jaca mole madura, confesso que inicialmente não tive forças para ir saborear a jaca, devido a descida e subida da fonte...(risos), mas após pausa fui saborear essa dádiva da natureza. Dessa forma os tuxauas foram em busca de um local mais próximo da fonte enquanto os demais descansavam. Durante essa pausa, realizou-se a subdivisão do grupo em três subgrupos cada um com seis pessoas, cada subgrupo possuía um tuxaua, sendo eles: Severino(severo) Gerson( Mestre Tamuia) e Fernando. Local encontrado, fomos ao seu encontro, saindo da estrada e indo mata adentro chegamos ao local e iniciamos a construção do acampamento, com bambus colhidos a margem do caminho, ao qual por sinal já estava cortado e seco, menos mal...(risos). Enquanto uns montavam a estrutura com bambus, outros iam em busca da Palmeira Pindoba, nome cientifico: Attalea oleifera, por possuir folhas compridas e com pouco espaçamento entre elas, favorecendo a não penetração por parte da água da chuva após a montagem da cobertura, diferente da palmeira Ouricuri, com folhas curtas e de grande espaçamento entre elas. Mas para os ignorantes como eu, apesar da instrução do mestre Tamuia, a distinção entre essas duas palmeiras se tornou difícil, então sem percebermos cortamos folhas do Ouricuri, isso foi um grande esforço desperdiçado, pois elas de nada iriam nos servir naquela ocasião. Isto já me foi um grande aprendizado: ter mais atenção e cautela. O nosso subgrupo resolveu unir forças com outro e construirmos uma única barraca, mas apesar de tamanho esforço não conseguimos finalizá-la. No final da tarde duas pessoas passaram mal, devido ao enorme esforço realizado neste dia, isso preocupou bastante a todos, ao ponto de dois companheiros retornarem a cidade para trazerem um carro. Quando os companheiros retornaram com o carro, os companheiros anteriormente achacados resolveram ficar. E com o cair da noite a natureza nos forneceu um brinde: a chuva, e como nossa barraca não havia inda sido montada o telhado da forma correta, apenas foi posto as folhas de uma forma improvisada para que não penetrasse tanta água pelas folhas. Todos se concentraram em uma única barraca montada sob a liderança do tuxaua Severo, o espaço era insuficiente para todos, de forma que uns ficaram em redes e outros no chão, não deitados mais sentados, por volta das 21h já não aguentando mais as dores devido à má posição, com uma pequena trégua da chuva, eu, Raul, Rodrigo, Guilherme e Henrique, carinhosamente chamado de ‘Caçador’, fomos nos aventurar na inacabada barraca, a qual as redes já estavam armadas, apesar de conter inúmeras goteiras foi uma noite maravilhosa, ao menos para mim, estava numa rede, que para mim parecia uma cama luxuosa, e dormi maravilhosamente, isso se deu ao forte cansaço...(risos). Por volta das 2h, pensávamos nós que estava próximo do amanhecer (risos) a chuva voltou, iniciou-se as goteiras, todos acordaram conversamos um pouco, rimos um pouco e dormimos novamente.
Com o raiar do dia, lindo, com o cantar dos pássaros e sem chuva e todo mundo animado... brincadeirinha...(risos) para alguns a noite foi péssima, para outros, como eu, foi boa. Para quem estava comigo na barraca fomos obrigados a levantar e se dirigir para a outra, pois a chuva voltou muito forte e o numero de goteiras havia triplicado. Após a chuva os trabalhos recomeçaram. Iniciei meu dia de trabalho com a busca d’água e a busca de bambu. Com exceção do trabalho de ‘caçar preá’, expressão muito famosa em nosso acampamento, graças ao Caçador, nenhum outro trabalho se dava individualmente, mas sim coletivamente. Nosso Segundo dia na mata foi basicamente para a construção e finalização de nossa barraca, com a busca de bambus e madeira, para a estrutura, e folhas de pindoba para engendrar a cobertura da barraca bem como em algumas laterais da barraca para que não chova sobre nós. Este segundo dia não foi fácil, assim como o dia anterior, estava mais direcionado para o trabalho, por conseguinte cansativo. Neste dia tivemos o retorno de cinco pessoas, agora estamos em numero de treze caiçaras. Como estávamos meio que sem relógios nossa alimentação se dava de forma irregular, quero dizer comia-se na hora que a comida estava pronta, as vezes o café era na hora do almoço e etc. Criou-se várias formas de averiguar a hora, desde a simples observação do sol até a verificação da umidade...(risos). Em todas as noites tínhamos o momento para reflexão do dia, em que todos falávamos sobre o que estávamos achando da experiência a qual estávamos envolto. Nossa segunda noite, já com a barraca finalizada, cada um em uma rede, com poucas goteiras, se deu de forma mais tranquila e relaxada.
No terceiro dia, sexta feira, ao ir em busca de água umas das companheiras recebe a informação de que um ente querido havia falecido, foi um momento desconcertante a todos o que estavam naquele local. Me propus a retornar com ela para a cidade, o caminho foi difícil pois ela estava passando mal, mas após mais de 7km percorridos uma pessoa se ofereceu a conduzi-la a cidade, desta forma eu retornei ao acampamento. A tarde aprendemos a construir algumas armadilhas tipo arapuca e zarabatana, não houve tempo o suficiente para que cada um produzi-se o seu, mas ficamos com o conhecimento para em outro momento produzir. Foi nesse dia voltado mais para atividades leves que o caiçara Guilherme nos ensinou uma cantiga que veio a se tornar nosso hino (risos), eis a cantiga:
“Voando como Águia, voando alto.
Dando voltas no Universo, dando voltas lá no céu,
Com asas de luz, com asas de amor
Ai que taiaiai, ai que taiaiô”
Próximo do anoitecer, hora do banho, depois a janta, uma nova reflexão sobre o dia e em seguida a tão merecida noite de descanso.
No sábado, quarto dia e ultimo dia, fomos convidados a explorar as redondezas para tal era necessário adentrar na mata, confesso que pra mim algo incrível, observamos a vegetação local e o seu desenvolvimento, a presença de trilhas deixadas por animais da região,infelizmente presenciamos resquícios de armadilhas feitas por caçadores. Com isso vê-se que o bicho homem não se contenta com a desestabilização de seu espaço, parte em busca de outros, ignorando o aviso que se tem no inicio da Serra de que é proibido caçar e derrubar árvores, mas para o ‘ser humano’ regras foram criadas para serem quebradas e ao invés de estarmos em uma evolução estamos em uma involução. O desbravamento foi feito com alegria e musica, inclusive o nosso hino, (risos). Finalizamos nosso desbravamento no topo da Serra do Ouro, onde a uma estação de testes da UFAL. De volta ao acampamento, em que tinha ficados dois companheiros, pois seria necessário que alguém ficasse para o preparo da alimentação dos demais. Para que possamos viver é importante que se faça uma divisão de tarefas, pois como seria se todos fizessem a mesma coisa? Com certeza um caos. No acampamento a alimentação já estava pronto graças ao bom desempenho de nossos companheiros. Após o almoço continuamos a aprender a confecção de armadilhas, bem interessantes e criativas utilizadas e originadas dos índios, nativos de nosso país. Incrivelmente esse dia passou de forma quase que imperceptível, mal sentimos o dia passar e com isso ao mesmo tempo em que foram momentos alucinantes de uma alegria enorme era também de uma dor, de uma nostalgia, pois era nosso ultimo dia neste local. Dando continuidade a nossa rotina, banho, janta e reflexão de toda a experiência vivida, aprendizado, e cantoria. Mais uma noite e a ultima na Serra do Ouro. Algo notório foi o bom relacionamento por parte dos companheiros ali presentes nesses dias vivenciados com muito suor e alegria. Como diz o saudoso Vinicius de Moraes: no calendário da vida a datas que não são lembradas, mas há momentos inesquecíveis. Assim foi essa experiência, pois com a ausência de certas futilidades, que na sociedade são essenciais, ali não era de tão necessidade, acabávamos nos perdendo no tempo humano, pois a natureza possui tempo próprio, ao qual difere do criado pelo homem. Enquanto a natureza possui um ritmo lento, evolutivo e de renovação, o tempo do homem possui um ritmo acelerado, em vários aspectos, involutivo e destruidor. Enfim passamos nossa ultima noite e no domingo pela manha levantamos cedo, arrumamos nossas tralhas e por volta das 8h da manha, já com os cantis cheios partimos de volta a nossa casa, no meio do caminho pegamos carona em um caminhão, foi ótimo, pois a caminhada não era pouca, chegamos em Murici por volta das 10h 30min, será que alguém adivinha nossa primeira parada? Se você respondeu um restaurante, acertou, nada melhor do que uma boa refeição depois de algum tempo na mata.
E assim ficamos com a experiência e o conhecimento na mente, algumas marcas no corpo e a certeza que mais dias como esse virá. E quando estes dias chegarem estaremos aptos a dar um novo sim e vive-los, não iguais a estes, pois nada do que foi será, mas com a certeza de que somos fortes para enfrentar o que for preciso.
Terça feira 25 de janeiro de 2011, meu primeiro Ouricuri com os caiçaras e como caiçara.
Acordei às 3h, pois às 4h partiria para Maceió com meu primo. Chegando, fui para casa de minha tia onde minha irmã estava, pois, era mais próximo do local marcado para o encontro com os caiçaras. Ao chegar conversei com minha irmã que me deu a maior força e logo dormi.Depois de uma hora acordei almocei com ela tomei um bom banho em seguida fui ao encontro dos outros caiçaras. Cheguei primeiro, mas, logo chegaram Raul, Marcos e Isvânia. Em cada olhar víamos quão ansiosos estávamos e quão importante seria participarmos desse momento que, para mim, uma das maiores experiências de vida que já tive.
Comparávamos o peso das bolsas quando Fernando, Douglas e Nathany chegaram. Conversávamos enquanto esperávamos os outros, confesso que estava um pouco nervosa por não ter noção de como seria, mesmo assim, estava confiante. A turma começava a se conhecer quando o mestre chegou com o carro que nos levaria a Murici. Eu estava muito feliz, gosto de conhecer o desconhecido, viver cada momento como se fosse o último...
Chegamos a Murici aproximadamente às 17:30 e fomos colocar as coisas no quarto do hotel onde passamos a noite. Antes da janta uma andada pela cidade, parando na praça onde havia gansos e/ou patos que geraram discussões, muito engraçado.
Eu e Tássia voltamos antes para o hotel, pois, queria tomar logo um banho, aproveitar o chuveiro. Após um bom jantar nos reunimos para as primeiras orientações dadas pelo mestre Gérson Alves, nosso corajoso e forte líder, que foram reforçadas pelas palavras e experiência de Severino, Fernando e João. Nos apresentamos e em seguida Gérson nos fez refletir sobre o que queremos, quais os nossos objetivos e o que estamos fazendo para conseguir o que desejamos distribuindo algumas perguntas que em alguns momentos confesso, não soube responder, mas me fizeram pensar sobre tudo isso. Em seguida fomos dormi, nós meninas conversamos muito em nosso quarto e apesar dos mosquitos consegui dormi muito bem.
Às 2:50h do dia 26 acordei tomei um banho e fui com as meninas ao encontro dos outros caiçaras. Partimos rumo a Serra do Ouro no frio da madrugada e com o céu estrelado iluminando nosso caminho. Alguns andavam mais rápido outros, como eu, um pouco mais atrás,porém, sempre acompanhada por Severino ou Arthur. Passávamos por várias serras e nada da do ouro a mochila começava a incomodar e pensava ‘será que vou mesmo conseguir’? As conversas ajudavam a esquecer as dores nas costas devido ao peso da mochila e os calos que começavam a se formar em meus pés. Em alguns momentos sentia vontade de parar e voltar, mas, desistir para mim seria pior do que qualquer dor que depois pudesse sentir e só quando cheguei percebi isso.
Com a chegada de nosso companheiro Sol e depois de muito andar tive que tirar meu tênis e colocar as sandálias, além de receber uma ajudinha de Arthur quando numa ladeira levantou minha mochila, ai ficou bem mais fácil, acredito que tudo que é bom dura o suficiente para reconhecermos que valeu apena, essa ajuda foi por alguns instantes mais de grande importância para mim. Então aconteceu o que eu estava esperando, uma e a primeira paradinha de alguns minutos e de fundamental importância.
Já recuperada continuamos, o percurso ia se mostrando ousado com várias ladeiras ruins de subir onde o ar parecia querer fugir completamente dos pulmões, mal conseguia falar. Ao chegarmos a uma fonte fomos tomar banho, primeiro as meninas, a água era gelada mas muito relaxante e enquanto estávamos apreciando aquele momento osmeninos gritavam: já está bom! Então voltamos e Fernando nos fez companhia enquanto os outros tomava banho, todos prontos partimos novamente. Para mim uma experiência única e inesquecível, sempre contemplei a natureza mas, não tinha noção de seupoder sobre nós!
Continuamos a caminhada, a paisagem ficava cada vez mais bela e a sensação era bastante prazerosa, apesar de todo cansaço. Paramos mais na frente onde tinha outra fonte cerca de 30 minutos, essa foi uma das paradas mais importantes para mim, comemos nego bom, rimos bastante, tomamos água e deitamos na estrada enquanto alguns foram encher seus cantis.
Depois de 7 horas de caminhada chegamos, antes, bem próximo do local Marcos levou minha bolsa, minhas pernas doíam bastante e estava sem forças. Quando chegamos colocamos nossas mochilas na estrada e nos deitamos, eu dormi e só acordei porque tive que usar pela primeira vez o banheiro da selva.
Enquanto Gérson, Severino e Fernando procuravam o melhor local para acamparmos alguns meninos foram a procura de água. Severino trouxe-nos uma deliciosa jaca, outros trouxeram manga foi muito divertido parecíamos ter esquecido um pouco de todo cansaço.
Fomos enfim conhecer o local e já começar a construção das barracas que, a princípio, seriam três, mas, decidiu-se que duas seria suficiente. A disposição e o trabalho coletivo foram pontos fundamentais para que tudo saísse como planejado, os meninos foram pegar palhas e bambus as meninas abriam as palhas e as amarravam com sisal sobre a estrutura de bambu e alguns troncos. A noite chegou e junto com ela a chuva, como apenas uma barraca (a menor) ficou pronta completamente, tivemos que ficar todos na mesma barraca, alguns no chão, outros em redes, outros ainda preferiram ir para a barraca que estava com o teto inacabado, mas havia redes armadas que, mesmo estando molhadas, era melhor que o chão para eles. Eu dormi muito bem no chão, não era o que estava esperando, mas depois de estarmos ali ficamos sujeitos a tudo que a natureza nos oferecia.
Durante todas as noites fomos prestigiados por uma orquestra formada por alguns integrantes junto aos bichos do mato... .
Ao acordarmos no dia 27 ainda chovia e logo fomos terminar a outra barraca depois de termos tomado um saudável café da manhã. Cantamos, conversamos e rimos durante a construção da segunda barraca. Enquanto Gérson e Fernando davam o acabamento final na barraca, eu e as meninas fomos tomar banho, foi muito engraçado. Eu gostava muito de observar tudo associando a minha vida e as das pessoas que me rodeiam, passei a compreender mais algumas e entender menos outras.
Algumas pessoas foram embora, umas pelas condições físicas que não era as melhores outras por compromissos ou simplesmente por não acreditarem em si próprios e se fartarem com tão pouco. Mais aliviados, pois, o trabalho mais pesado havíamos concluído, jantamos e nos reunimos para refletirmos sobre aquele dia, foram momentos necessários para nosso crescimento, tudo que aconteceu nesse dia serviu para todos de uma forma ou de outra. Fomos dormi, dessa vez com mais conforto, cada um em suas redes. Confesso que a pessoa que mais sentia falta e que mais queria ouvir era meu pai, pois sei que ele gostava daquilo tanto quanto eu.
Dia 28, um friozinho! Durante a madrugada meu lençol e minha rede molharam e senti frio durante a noite devido ha algumas goteiras que tinha, mas foi pouco. Ao levantarmos fomos para outra barraca onde a cozinha estava instalada fazer e tomar café, antes Nathany teve que ir embora pois sua prima faleceu eDouglas a acompanhou até certo ponto onde ela pegou carona para Murici, ficamos um pouco triste mas ... é algo incompreensível, mas, natural.
Decidimos fazer cuscuz, mas não tinha pano, então cedi minha blusa que por sinal estava usando e que disseram ter dado um gostoso sabor ao cuscuz umgostinho de perfume, que não senti, estava muito bom, para mim tudo estava bom. Ficamos descansando depois do café, alguns tentavam cortar a madeira pra fogueira que por sinal deu muito trabalho. O Mestre nos ensinou a fazer sarabatana e arapuca muito interessante! Vi quão sábios eram todos que tiveram que sobreviver apenas com o que a natureza lhes oferecia. Fomos então tomar banho, ajudar na janta, que nesse dia estava muito salgada,devido ao charque no feijão. Momentos de reflexão antes da janta, as palavras do Mestre que, sempre sabias, nos fazia pensar sobre o que queríamos quais nossos objetivos, avaliei melhor meus valores a não desperdiçar as oportunidades que tinha. Jantamos e fomos dormi, antes ri muito com Fernando e seu personagem, o pato Donald, ele faz muito bem.
Dia 29, ultimo dia, comemos castanha, amendoim, uvas passas, etc. Enquanto eu e Fernando fazíamos o almoço, o restante dos caiçaras foram explorar a mata. Tentei fazer tudo gostoso e rápido para que quando chegassem estivesse tudo pronto. O tempero pisado no pilão de minha avó me ajudou bastante. Fernando tomava conta do fogo que com sua audácia fez um fogão de três bocas para adiantar, era preciso cortar mais lenha vi Fernando pálido com tamanho esforço e tentei ajudar, deu certo, pelo menos fez valer meu apelido de Shitara. O almoço teve direito a charque e bacalhau refogado e um feijão e arroz com tempero da vó. Estava tudo pronto quando chegaram cansados e com muita fome, fiquei satisfeita em ter cumprido a missão, eu e Fernando.
Ao almoçarmos descansamos e orientados pelo Mestre tentamos fabricar arcos e armadilhas, Severino, antes, improvisou um banco de bambu muito bom e tentou arriscar uma flauta. O tempo passou rápido e fomos tomar banho antes que ficasse escuro, alguns meninos já tinham ido logo as meninas me acompanharam, nesse momento aconteceu algo engraçado: enquanto eu e as meninas tomava banho Mestre e Severino foram atacados por mosquitos e quando eu e as meninas subíamos para ir para a mangueira quase fomos atacadas por formigas enormes, tivemos que correr, sem falar que fui privilegiada por alimentar alguns carrapatos nas pernas e pés que hoje resultou em vários carocinhos que coçam muito mas que está sobe controle, depois outros integrantes perceberam também que estavam na mesma situação.
Voltamos, jantamos, agradecemos e fomos dormi, estava com a sensação de missão cumprida e já estava com saudades, pois, todo meu corpo agradecia por todos os dias ali. Vi quão importante é para nossa vida a preservação da natureza até porque, em momento algum tive crise alérgica, coisa que é frequente na cidade, estava até pensando em visitar aquele local mais vezes.
Dia 30, acordamos cedinho e fomos organizar tudo para a volta, enquanto isso fomos contagiados pela voz e a musica de Guilherme que sempre quieto foi nos mostrando aos poucos seu talento, todos o acompanhavam em sua canção, tudo pronto o que pertencia a mata lá ficou o que não, queimamos ou trouxemos. Ao chegar onde tomávamos banho, enchemos os cantis e fomos serra a baixo a caminhada agora mais rápida e tranquila um grupo foi na frente o outro mais atrás e estes andaram menos, pois, pegamos uma carona em um caminhão, muito engraçado! Aliás não sei em que momento deixei de rir, mais a frente os outros subiram também. O caminhão pulava muito e a garrafa de água do Fernando pulou, resolvendo ficar lá.
Chegamos a Murici e fomos ao restaurante da vovó almoçar antes de voltar a Maceió, ficamos bem satisfeitos com o almoço e seguimos para Maceió, eu desci primeiro porque meu pai me esperava no aeroporto, estava com uma bela trança nos cabelos amarradas com sisal feita pela Isvânia. Foi engraçado, pois quando cheguei no estacionamento alguma pessoas olhavam meio que disfarçando para mim e meu pai antes que ele falasse qualquer coisa dei um forte abraço nele, ele só falou: ôxe!
Então voltei para Arapiraca, com muita saudade de tudo que havia acontecido, mas é isso! O que me resta a fazer é compartilhar com todos os interessados esses momentos e esperar o(s) próximo(s) onde estarei presente.
Quero aqui agradecer a todos, principalmente aos que ficaram até o fim, pois,foram estes que fizeram com que tudo desse certo aponto de ser considerado um dos (ou o) melhores Ouricuri realizados pelos caiçaras até hoje.
Salve caiçaras! Que possamos, sem desanimar, continuarmos nossa luta ensinando e fazendo com que sejamos lembrados como os grandes mestres.
Salve grande Mestre! Obrigada pelo exemplo de liderança que fostes e que és demonstrando-nos quão grande é seu coração, sempre nos incentivando e nos colocando a prova para que pudéssemos perceber nosso valor e nosso limite.
“Não devemos protelar nossos objetivos, porque isso não passa de subterfúgios pra que nunca executemos o que desejamos”. Essas palavras proferidas pelo professor Gerson, durante a reunião que antecedeu o primeiro Ouricuri Caiçara 2011, me fizeram perceber que deveria continuar com os planos de viajar, independente de ser o único Caiçara de Palmeira dos Índios a confirmar presença nessa empreitada (os outros participantes, por motivos variados e em sua maioria justificáveis, como foi o caso dos capoeiras: Lucas, Karina, Ana Paula e Mônica, foram pressionados a desistir). Confesso que o medo do desconhecido, tanto das possíveis adversidades de um local inóspito como a Serra do Ouro, quanto de pessoas estranhas a mim, sobretudo pela minha condição de ser mulher e desconhecer as outras participantes do Grupo de Maceió, causaram-me certo desconforto no início, mas refleti sobre as palavras do Mestre e percebi que desistir por medo, sem uma justificativa plausível não seria atitude de um Caiçara, afinal se adotei essa Família, não quero ser vista como mero apêndice, quero constituir parte do alicerce que sustenta nosso grupo. Então próxima parada: Serra do Ouro...
25 de janeiro de 2011 – O encontro da Família Caiçara
O grupo de Palmeira, a priori, tinha combinado de conseguir um meio de transporte em que fossem todos juntos, com a desistência dos meus companheiros, fui pressionada a me reprogramar. Enfim, no dia 25 de janeiro de 2011, fui até a rodoviária de minha cidade e embarquei (12:00h) num ônibus da Empresa Palmeirense, chegando à Maceió junto ao Posto da Rodoviária Federal, por volta das 14 horas. Estava eufórica e simultaneamente desconcertada por perceber que havia chegando cedo demais ao ponto de encontro definido: a enorme gráfica azul, localizada paralela ao Posto (o combinando foi às16 horas). Decidi então sentar e aguardar ansiosa pelos demais Caiçaras.
Finalmente, avistei os primeiros colegas que chegavam (Natany, Fernando, Raul, Jhonata Henrique, Leilane e Marcos) a maioria trajando o fardamento Caiçara como solicitou o Mestre, nesse curto espaço de tempo, embora com ainda pouca intimidade, o grupo brincou bastante com o peso das mochilas, algumas bem pesadas, indicando futuras complicações na árdua caminhada do dia seguinte. Após aguardar algum tempo, foram chegando mais Capoeiras e por volta das 16:30 h, eis que surge o professor Gérson dentro de uma Van, a qual nos levaria até Murici.
A chegada ao Novo Hotel foi muito tranqüila, marcada por uma instalação hospitaleira e amigável, até porque tudo já tinha sido previamente planejado pelos capoeiras coordenadores. O grupo então se distribuiu em três quartos, sendo um destinado às quatro meninas presentes (Natany, Thássia, Leilane e eu) e os outros dois divididos entre os demais companheiros do sexo oposto (Confesso que ser mulher nessas horas é muito conveniente: ficamos com o único quarto em que tinha ar-condicionado).
Após nossa instalação, com a autorização do Mestre, partimos rumo às proximidades do hotel a fim de conhecer a região circundante. Alguns metros a frente encontramos uma praça, palco de nossas primeiras conversas com o grupo maior (ali, percebi que era a gênese de um grupo harmônico e unido). Próximo das sete horas da noite retornamos para o jantar, como solicitou o Mestre. A refeição muito saborosa e em abundância, foi servida em uma grande mesa (caso eu fosse cristã, até ousaria dizer que tudo aquilo me lembrava a última Seia dos Apóstolos). O discurso predominante, mormente dos mais experientes, era: “encham o bucho, porque amanhã vocês sentiram saudade disso aqui...”.
Fome saciada reunimo-nos defronte do hotel, onde as últimas considerações foram explanadas. Foi o momento de apresentação formal do grupo, cada um comentava suas perspectivas sobre a Família Caiçara. Nesse momento, alguns companheiros que embora não sendo capoeiras, porém se identificam com a filosofia de nossa empreitada, como era o caso de Adriano (apelidado de “Zapata” mediante suas convicções políticas) e Henrique foram apresentados. O Mestre ainda distribuiu um roteiro a ser respondido por todos no retorno da viagem. Grosso modo, ele nos fazia refletir: Quem somos? O que pretendemos na vida? Onde estarei daqui a alguns anos? (de maneira alinear, lembro das palavras de Jhonatan Henrique quando já na cabana, na Mata, parafraseando o Professor Gérson afirmava: “potencial sem direção é uma flecha no escuro”. Concordo plenamente. Paralelo a isso, as experiências de outros Ouricuris foram compartilhadas, servindo-nos de modelo.
Logo mais, João Arruda juntou-se a nós, embora esse capoeira não ficasse conosco no decorrer de toda jornada desse Ouricuri, sua chegada foi comemorada mediante sua bravura e experiência já reconhecidos. Por fim, fomos para os quartos dormir, sabendo que 3 horas da madrugada partiríamos.
Aquele momento servira pra nos aproximar ainda mais (quatro mulheres em meio a um público preponderantemente masculino). Nosso quarto tinha uma vista fascinante, admirávamos as estrelas enquanto tentávamos dormir. Contudo, a euforia e ansiedade, aliada ao coro dos mosquitos não permitiram tal façanha. Thássia e eu demoramos a pegar no sono, diferente de Natany e Leilane. Independente disso, três horas em ponto, o Mestre batia a nossa porta, convocando-nos o quanto antes a acordar e descer.
1º dia (26 de janeiro de 2011) – Caminhada íngreme x Noite infernal
Por volta das 3:30h, estávamos na estrada. Um grupo formado por 18 Caiçaras. A alvorada ainda estava em seu apogeu, demonstrando um céu límpido e lotado de estrelas. Alguns brincavam de astrólogos apontando as constelações (Escorpião, As Três Marias). Mal começamos a caminhar e o peso das mochilas já aterrorizava costas, pescoço e demais membros inferiores, em alguns Caiçaras a situação era ainda pior, a mochila do Mestre, por exemplo, estava super pesada, tanto que eu não conseguiria erguê-la nem por alguns instantes.
Logo no começo formaram-se três grupos, caracterizados pelos ritmos distintos de caminhada, uns iam mais a frente em relação a outros, todavia em nenhum momento os grupos ficaram sem o auxílio de algum Tuxaua, como haverá determinado o Mestre, justamente pra evitar complicações de um público que em sua maioria participava do Ouricuri pela primeira vez.
A estrada era formada em quase toda sua extensão por ladeiras ora de chão batido, ora asfaltado. Nos primeiros quilômetros o percurso foi tranquilo, pois ainda apresentava uma trajetória um pouco mais plana que o final, embora com alguns obstáculos: como é uma região com alto índice pluviométrico, havia no decorrer da estrada inúmeras poças de água, algumas capazes de molhar até o calcanhar. Em uma dessas ocasiões, o peso da mochila não permitiu um pulo maior que o previsto e acabei atolando meu tênis na água, o mesmo ocorreu com o “Zapata”, isso me preocupava na medida em que a umidade aumentaria a fissão entre os dedos originando bolhas.
A primeira pausa para o descanso ocorreu depois de concluído 50% do caminho, sob uma mangueira, era mais de 6 horas da manhã, o sol já começava a despontar no horizonte. O peso das mochilas já atormentava bastante. Aproveitamos pra descansar e comer frutas, pois sabíamos que a partir dalí, tudo ficaria pior. Seguimos viagem adentrando uma estrada asfaltada já na Serra do Ouro, a priori pensei em usar protetor temendo a insolação, contudo, já dentro da Mata, a sombra das árvores impedia qualquer desconforto do gênero, o que era um alívio.
Em contrapartida, a jornada ficou mais complicada, a estrada agora asfaltada tornou-se um aglomerado de serras mais íngremes dificultada pelo peso martirizante das mochilas. Em uma das paradas para o descanso, embora exaustos, descemos até uma pequena cascata a fim de encher os cantis de todos, foi muito gratificante, pois a paisagem era belíssima. De volta à estrada.
Em outra parada para descanso, Severo (Severino), conseguiu habilmente colher uma Jaca e algumas mangas saboreadas por todos, momento merecido de confraternização. Nessa mesma ocasião, fez-se um sorteio definido três grupos a serem coordenados pelos Caiçaras mais experientes: Mestre Tamuia, Severino e Fernando. Cada grupo, em média com cinco ou seis integrantes, deveria fabricar sua própria barraca. Fiquei no grupo do Severino.
Chegamos ao ponto planejado pelos coordenadores do evento por volta das 10:30h (após 7 horas de caminhada). Ao que tudo indica, devido alguns contratempos com o local de instalação previsto, nos acomodamos na mesma região em que ocorreram outros Ouricuris.
Mal chegamos e o Mestre já nos advertiu na agilidade que deveríamos ter na fabricação das barracas, uma vez que estava escurecendo rápido. Cada grupo se instalou em pontos diferentes, contudo próximo um do outro. Cada coordenador seguia suas próprias prioridades, no nosso caso, Severo subdividiu o grupo delegando funções distintas. Os homens colheram bambus e palhas de pindoba a fim de montar a base e a coberta da barraca, esta era uma tarefa muito árdua mesmo pra guerreiros tão fortes como esses, pois todo esse material pesado era colhido em terrenos íngremes e escorregadios, a mim foi solicitado à limpeza do local (encontramos na ocasião uma cobra de duas cabeças e um escorpião).
Devido alguns contratempos, o grupo do Fernando juntou-se ao do Mestre Gérson, demandando a construção de uma barraca maior. Infelizmente no fim da tarde, apenas nossa barraca estava finalizada. A escuridão do ambiente só era quebrada com a iluminação de algumas lanternas e lamparinas. Com dificuldade, Severo ainda conseguiu ascender uma singela fogueira, contudo não deu tempo cozinhar nada, nosso jantar foi granolas, castanhas de caju, amendoim e coisas afins. Naturalmente todos se aglomeraram em nossa barraca que ficou super lotada, estava frio e pra piorar a situação começou a chover bastante.
Provavelmente esse foi o momento mais difícil desse Ouricuri. O chão estava muito úmido, os mosquitos e formigas faziam a festa. Enquanto que alguns tentaram dormir sentados, outros ainda deitaram nas redes, atrapalhando as pessoas que ficavam embaixo das mesmas. Alguns companheiros (Rodrigo, Douglas, Guilherme, Fernando, Raul e Jhonata Henrique), foram pra outra barraca, pois lá, embora as redes estivessem encharcadas e o teto inacabado, ao menos tinha mais espaço. A estratégia era manter-se junto primando pelo calor humano. Minha rede estava bem no meio da barraca, mas era inviável descansar nela, felizmente Guilherme cedeu-me sua rede e seu saco de dormir, fiquei relativamente confortável. A noite infernal demorou a passar... Paradoxalmente ainda mantíamos o bom humor.
2º dia (27 de janeiro de 2011) – Caiçara: União de forças
Acordamos cedo. Severo e Fernando logo já tinham acendido a fogueira (nosso fogão). O dia prometia ser longo e cheio de trabalho. Na ocasião, cinco companheiros foram embora (João Arruda, Henrique (professor), Rafael, Zapata e Marcos) alguns por cansaço e outros que já tinham avisado que não seguiria toda jornada. Vale ressaltar um acontecido importante: por meio de uma brincadeira mal calculada, o Mestre acabou constrangendo o companheiro Zapata, a expressão de arrependimento tomou conta do cabisbaixo Mestre. Esse fato aparentemente corriqueiro nos ensinou a ter mais cuidado com nossas atitudes, pois mesmo sem intenção, nossas ações podem ter como reação conseqüências nocivas a terceiros que admiramos. Nosso café da manhã foi novamente o mesmo da noite anterior.
Após a saída do pessoal, iniciamos nosso trabalho. Um grupo foi buscar água na bica, próxima de onde ficamos alojados, tanto pra beber quanto cozinhar, e outro já voltou a construir a barraca inacabada. Natany e Severo dedicavam-se a cozinhar nosso almoço. Almoçamos uma comida muito saborosa. Votamos a barraca, mais palhas de pindoba foram necessárias. Embora fosse um trabalho não tão frágil, me identifiquei bastante com o manusear do facão e o corte das palhas, sobretudo com a ajuda da Thássia.
As forças se voltaram à construção da barraca. Todos se empenhavam ao máximo. Outrossim, a quantidade de trabalho era equânime ao bom humor e disposição do grupo. Aproveitamos pra dialogar sobre temáticas do cotidiano: qualidades/defeitos masculinas e femininas, identidade e personalidade, enfim meandros das relações humanas. Minhas posições um tanto eloquentes renderam-me o apelido de “Simone de Beauvoir”. Adorei o apelido, pois gosto da sensibilidade intelectual e pessoal da escritora. Contudo, defendi-me: “Não sou feminista, apenas sou contra o machismo”. Esses homens... (risos).
No fim da tarde, a segunda barraca estava finalizada e todas as redes estavam armadas. Organizamos grupos pra ir tomar banho na bica, primeiro as meninas e depois os rapazes. A estrada que dava acesso à bica não era muito distante, entretanto requeria astúcia, pois era constituído por ladeiras íngremes e escorregadias. Próximo a bica, existe uma enorme árvore de manga rosa, a qual nos cedeu frutos saborosos, sendo um dos meus recantos favoritos. Nesse dia, durante o banho percebemos a ocorrência de inúmeros pontos pretos pelo corpo de Leilane, posteriormente, com a ajuda do Mestre, percebemos que se tratava de pequenos carrapatos oriundos das pontas da folhas ou ainda do contato que tivemos com o chão da barraca. Aparentemente, eles adoravam parasitar a Leilane e o Arthur. No meu caso, só encontrei dois parasitas durante toda nossa estádia.
Já era noite. Na ocasião procedeu-se nosso primeiro momento de reflexão formal. O Mestre solicitou que todos explanassem suas considerações sobre o grupo e sobre o Ouricuri. Percebi no discurso a alegria e satisfação geral em participar desse Ouricuri, caracterizado por uma família harmônica e integrada. Jantamos. Logo mais, ainda improvisamos uma animada roda de música. Foi incrível. Enfim, todos foram dormir.
3º dia (28 de janeiro de 2011) – Descanso Merecido
Acordamos cedo. Como sempre Severo e Fernando já estavam no “fogão”. A tranquilidade do momento só foi quebrada pela expressão de desespero de Natany, ela acabara de descobrir que sua prima, doente e internada no hospital de Maceió, havera falecido (em suma, o Mestre tinha proibido o uso do celular de forma indiscriminada, permitindo seu uso apenas a noite, entretanto, esse caso demandou exceção). Ela teve que abandonar a jornada, sendo Douglas o Caiçara que a acompanhou até a casa mais próxima a qual lhe ofereceu carona até Murici. Ficamos muito tristes com o acontecido, mas nosso retiro continuava.
Este se configurou no dia mais tranquilo de todos. Em geral, passávamos mais tempo na barraca do Severo, pois era lá onde fazíamos a fogueira e consequentemente, as refeições. Após o almoço, ficamos a conversar as futilidades do dia-a-dia. Esses momentos, embora triviais, foram de extrema importância na aproximação e (re) conhecimento do grupo. E o que é melhor, tudo isso feito tomando o delicioso café de rapadura do Fernando. Ainda cantamos bastante, mormente, a cantiga ensinada por Guilherme, a qual se tornou nosso “hino oficial”:
“Voando como Águia, voando alto.
Dando voltas no Universo, dando voltas lá no céu,
Com asas de luz, com asas de amor
Ai que taiaiai, ai que taiaiô”
Por volta das duas da tarde, o Mestre desperta do seu cochilo e nos chama a aprender a construir objetos com o próprio material da Mata: arapuca e zarabatana. Foi muito interessante perceber como o bambu, sisal e coisas naturais se transformam em objetos úteis à sobrevivência na mata. Infelizmente o tempo foi curto e não deu pra todos fabricarem seus próprios instrumentos.
Já era quase tarde, mais uma vez tomamos banho, jantamos e fizemos nosso segundo momento de reflexão. Discurso da noite: “O dia foi muito agradável, o grupo é muito unido e alegre, hoje em nada lembrou o inferno de outras noites”. Ainda cantamos um pouco e fomos dormir.
4º dia (29 de janeiro de 2011) – Desbravando a Mata Serra do Ouro
Como de costume acordamos cedo. O Mestre nos convocou a desbravar a Mata. Todos os Caiçaras foram, com exceção de Leilane e Fernando, isso porque a primeira estava com uma enorme bolha no pé e o segundo ficou pra fazer companhia e ajudá-la no que fosse necessário. Adentramos a Mata entusiasmados, seguindo o Mestre que ia a frente abrindo caminho com o facão. Durante a jornada, a qual também era um tanto vertical e úmida requerendo astúcia de todos, íamos parando, ouvindo atentos as curiosidades explanadas por nosso “Guia”.
No auge da escalada, chegamos até uma estação de estudos sobre modificações genéticas da cana-de-açúcar, pertencente à Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e algumas Organizações interessadas. Ainda exploramos o local e travamos um diálogo rápido de saudação com o vigia do local. Nesse percurso, encontramos uma pequena barragem de águas límpidas Arthur, Raul e Jhonata Henrique até se aventuraram em nadar. Logo voltamos pro acampamento, estávamos famintos e cansados, mas contentes com as descobertas realizadas.
Felizmente, Fernando e Leilane preparam um almoço muito saboroso, elogiado por todos. O fim da tarde foi muito produtivo. O Mestre continuou a nos ensinar construção de armadilhas, algumas com estratégias bem curiosas, dignas de filmes. Ademais, ainda fabricamos arcos, flechas, talheres e flautas. Era nítida a preocupação do Mestre em que cada Caiçara produzisse algo com suas próprias mãos. O grupo tava tão empolgado com as atividades que já era quase noite quando fomos tomar banho: tornamo-nos alvos fáceis dos mosquitos e afins, embora com todo repelente usado. Nesse ritmo frenético e dinâmico, o dia passou rápido.
Decidimos essa noite inverter o processo e o último momento de reflexão antecedeu o jantar. Com certeza, o momento reflexivo dessa noite foi peculiar, com tom de nostalgia de tudo que havíamos vivido até então. Grosso modo, o discurso da noite: “Apesar de passamos por inúmeros obstáculos e sofrimentos, tudo valeu a pena, e o êxito desse Ouricuri se deve a harmonia e integração desse grupo que procurou sua superação em coletividade. Sentiremos saudade”. Essa última noite foi marcada ainda por uma roda feita em volta da fogueira ao som de cantigas animadas de capoeira embalada pelo pandeiro de Arthur. Acredito que tenha sido um dos momentos mais divertidos.
5º dia (30 de janeiro de 2011) – A despedida da Família Caiçara
Ao amanhecer do dia, juntamos todas as coisas trazidas por nós. Queimamos todos os materiais de plástico tendo o cuidado de não deixar pra trás qualquer sujeira nociva a natureza. Sempre ao som de nosso coro favorito (“Voando como águia...”), pegamos entusiasmados a estrada de volta a Murici. Nosso grupo agora se resumia a 12 Caiçaras. Durante o retorno formou-se dois grupos, sendo que o mais atrasado liderado pelo Mestre Tamuia, ficou muito atrás levando em consideração seu desvio a residência que auxiliou Natany, em dias anteriores, a fim de agradecer a disponibilidade em ajudar uma Caiçara.
Na ocasião, eu acompanhava o grupo da frente, contudo parafraseando um ditado popular: “Os últimos serão os primeiros”, ouvimos um som alto de buzina, ao olharmos pra trás nos deparamos com o “grupo mais atrasado” sobre a carroceria de um caminhão, ingressamos também na carona, contentes por não ter que caminhar novamente todo aquele percurso até Murici. A viagem foi hilária, uns iam sentados curtido os balanços nada sutis do caminhão enquanto que outros, como eu, preferia a sensação de liberdade trazida pelo bater do vento na face junto à grade dianteira. A jornada de quase 5 horas foi feita em aproximadamente 20 minutos. Chegamos a Murici por volta das 10:00h. Ainda almoçamos uma comida caseira muito boa em um pequeno restaurante familiar (Restaurante da Vovó) e aguardamos uma van que nos levasse até Maceió. O carro chegou. Durante toda a jornada, o grupo foi cantando animadas músicas de capoeira.
Leilane e Jhonata Henrique foram os primeiros a descer. O resto do grupo ficou em frente o supermercado Makro. De lá, cada um seguiu seu próprio caminho. No meu caso, o pai de Fernando (Sr. Afrânio) gentilmente levou-me até a Rodoviária de onde peguei um ônibus da Empresa Palmeirense e retornei a minha residência, em Palmeira dos Índios. Família Caiçara voltava agora a sua rotina em meio à “sociedade civilizada”.
Conclusão
Quando decidi ir pra esse Ouricuri, muitos amigos falavam em tom de brincadeira: “Você é louca, não tem juízo, ir pro meio do mato...blá, blá, blá...” Porém, sempre estive convicta dessa atitude, até porque eu me perguntava: o que é Loucura? Cheguei à conclusão de que ser louca, em muitos casos, é apenas uma questão de perspectiva. Se ser doida é fazer o que se gosta com responsabilidade independente do que pensa a sociedade (e mesmo nossa própria família biológica, no meu caso um tanto preconceituosa), ótimo, sejamos loucos. Acredito que esses sejam os mais felizes, ao menos dentro da sua própria realidade.
A experiência ainda me proporcionou outras descobertas. O Mestre com toda sua perspicácia socrática fazia-me cair em contradição em muitos dos diálogos travados. Percebi então como minhas idéias e personalidade estão no ápice de sua construção. Se isso me preocupa? Não. Afinal todo ser está em processo contínuo de (re) construção. Como já filosofava Raulzito, não tenho dúvida de que é melhor ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Isso evita maniqueísmos e idéias absolutas carregadas de preconceitos e limitações.
Ademais, embora eu sempre reflita sobre questões do gênero, esse Ouricuri intensificou sob outra ótica algumas inquietações. Ora a pseudo-vida que levamos em meio à “sociedade civilizada” nada mais é do que o reflexo de uma organização fútil e egoísta, carregadas de ideologias alienantes que destróem o que o ser humano tem de mais precioso: sua habilidade inata/cultural de comunicação e planejamento. Afinal como o próprio Mestre Tamuia nos interroga:
De onde vem o arroz que você come todos os dias? Você planta o feijão que come? Você criou, matou ou caçou a carne que devora cotidianamente? Você deve ao menos saber de onde vem o seu sustento? Presumo que você seja capaz de calcular o esforço humano que existe por trás de seu alimento?
Acredito que não. Esse retiro serve justamente pra fazer pensar essas questões. Portanto, alicerçada ainda em nosso Mestre posso afirmar que o objetivo desse Ouricuri foi cumprido com êxito: desenvolvendo em nós um elo entre o que somos e nossa brasilidade nativa, fazendo-nos pensar nosso papel social e nosso papel enquanto ser existencial.
Por outro lado, nada disso seria possível sem a presença de uma Família integrada como a nossa imersa em uma atmosfera de respeito à alteridade e as diferenças, sobretudo a de gênero. Cada um contribuindo com suas peculiaridades, mormente os Caiçaras que ficaram até o fim da jornada e com quem mantive mais proximidade:
Arthur – inteligente e muito bem humorado. Além de forte e perspicaz.
Rodrigo – guerreiro corajoso, ágil e com resistência física invejável.
Fernando – exímio cozinheiro, também forte e ágil. Além de tudo ainda é cavalheiro, pois está sempre pronto a ajudar a todos.
Guilherme – sua timidez oculta um pouco seu potencial, mesmo assim demonstra ser um ótimo cantor, além de corajoso, é extremamente altruísta e cavalheiro (nunca esquecerei que me cedeu sua rede na “noite infernal”. Valeu!).
Severo – hábil em liderar, muito experiente e sábio. Também muito cavalheiro (cedia-me sempre que necessário um espaço em sua exígua rede, uma vez que a minha era desconfortável (aquelas com enormes lacunas) e vivia encharcada pelas goteiras da barraca. Valeu!)
Douglas – forte e destemido. Está sempre pronto a ajudar o Outro.
Raul – muito educado e cavalheiro.
JhonataHenrique – muito divertido e forte. Exímio “Caçador”, o melhor do grupo (risos). Junto com os outros meninos da nossa barraca (Raul, Guilherme e Severo), conversávamos até tarde sobre inúmeras temáticas do dia-a-dia. Diversão garantida.
Natany – exímia cozinheira, sempre bem humorada e divertida.
Leilane – Caiçara de fibra, tem um espírito de cooperação muito aflorado.
Thássia – das meninas, foi com quem mantive mais contato. Sempre muito corajosa, topava qualquer desafio sem pensar duas vezes. Identifiquei-me demais com ela, pois não é fútil e nem “mamífero de luxo”. Sua gargalhada é contagiante.
MestreTamuia – extremamente idôneo. Preocupava-se com cada movimento do grupo, evitando possíveis problemas. Muito corajoso e inteligente desenvolve com maestria seu posto de liderança.
Todos vocês me ensinaram que o essencial a sobrevivência, às vezes é mais simples do que parece, sem necessariamente precisar de toda parafernália da vida moderna. Longe de hipocrisias, sinto que faço parte desse grupo. Agora me sinto uma Caiçara (inclusive essas foram as palavras proferidas por mim no último dia de reflexão do acampamento). Acredito que a conquista desse sentimento tenha sido minha maior recompensa.
Por fim, diante de tudo que vivenciamos, ouso afirmar que Caiçara implica em liberdade, mas não uma liberdade anárquica e/ou inconsequente. Caiçara é sinônimo de liberdade com responsabilidade personificada em nosso Mestre Tamuia e em todos nós. Obrigada, Família Caiçara!