quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

DOUGLAS JULIÃO

Douglas Julião da Silva

Em novembro de 2010, na comemoração do dia da consciência negra boa parte do grupo Caiçara Caapoeira se reuniu na Serra da Barriga e esse foi meu primeiro contato com os Caiçaras de Maceió e alguns de Palmeira, aos quais não conhecia. Foi a partir deste dia que tomei conhecimento do Ouricuri, realizado a cada seis meses, Ouricuri é um ritual de fortalecimento e reflexão realizado pelos índios. A partir do conhecimento deste acampamento comecei a almejar a minha participação, entretanto apenas em dezembro no treino de caapoeira foi que o mestre Tamuia transmitiu ao grupo mais detalhes sobre. E confesso que minha participação no acampamento iniciou a partir do convite do mestre Tamuia, pois desde então começou minha especulação sobre como se daria e o que iria fazer. No inicio de janeiro de 2011 obtive mais informações, então comecei a me organizar com mais direcionamento a cerca do material necessário. Na segunda feira 24, com a mochila semi-pronta me dirigi a Maceió onde participei do encontro pré-Ouricuri, lá onde tivemos as ultimas informações acerca do que nos aguardava, uma reflexão sobre o que iríamos fazer, a confirmação e não confirmação neste evento e uma conferida no peso das mochilas, isso era de estrema importância já que ir-se-ia realizar uma caminhada de 20Km entre descidas e subidas, e a qual qualquer gramas poderia se tornar quilos, lá reencontrei pessoas ao qual havia conhecido na Serra da Barriga.
No dia seguinte comprei o que faltava e por volta de 15h40min fui de encontro aos companheiros caiçaras Fernando e Nathany aonde iríamos nos dirigir ao ponto marcado na policia federal de Maceió. As 16:00h estávamos todos a espera do mestre Tamuia que viria com uma van para nos transportar para Murici. Por volta de 17:00h o grupo Caiçara formado por 16 pessoas se dirigiu a cidade de Murici onde passamos nossa ultima noite antes do Ouricuri, no Novo Hotel, lá tivemos a ultima janta saborosa da semana bem como as informações finais, ai já estávamos em numero de 18 pessoas.
As 3h10min, inda com pouco de sono, partimos em marcha para a Serra do Ouro á 20 km do centro de Murici, sob o brilho da lua minguante e das estrelas, pois estávamos sobre uma noite sem nuvens. Durante a caminhada trocavamos experiências e conhecimentos sobre a vida. Começamos a observar algumas constelações visíveis naquela noite. Depois de algum tempo de caminhada e já com a presença ilustre do Sol tivemos nossa primeira parada sob a sobra de uma arvore popularmente conhecida como brinco de viúva. Ficamos ali em descanso por cerca de 20min, onde comemos algumas frutas que levávamos e água, onde algumas pessoas já demonstravam cansaço, em seguida demos continuidade a nossa longa caminhada.
Nossa segunda parada, se não me falha a memória, foi uma pausa maior, onde paramos para um pequeno banho em um riacho que estava próximo ao caminho, foi um banho super relaxante, com água bem gelada. Pena que nem todos quiseram desfrutar deste banho revigorante. De mochila nas costas continuamos nossa jornada. Tivemos nossa terceira parada já na Serra do Ouro, a entrada de um riacho que ficava a uma bela de uma descida. Próximo ao topo da Serra do Ouro, por volta das 9h, encontramos um ribeiro ao qual inicialmente era de águas puras e cristalinas, desci um pouco a baixo da estrada enchi alguns cantis e nosso alegria rapidamente se desfez, pois suas águas nem eram puras e nem cristalinas...(risos). Refletimos um pouco... Juntamente com alguns companheiros, retrocedemos cerca de 30min o percurso feito, em direção a uma fonte para verificarmos a qualidade de suas águas, enquanto alguns tuxauas, palavra indígena que quer dizer chefe temporal, no nosso caso seria uma pessoa que possui experiência em participação de Ouricuris anteriores, procuravam mata adentro local para fixar-nos pelos próximos dias. Enfim essa fonte possuía águas puras e cristalinas...(risos). Enchemos os cantis e voltamos para a boa nova. Lá fomos recepcionados com uma enorme jaca mole madura, confesso que inicialmente não tive forças para ir saborear a jaca, devido a descida e subida da fonte...(risos), mas após pausa fui saborear essa dádiva da natureza. Dessa forma os tuxauas foram em busca de um local mais próximo da fonte enquanto os demais descansavam. Durante essa pausa, realizou-se a subdivisão do grupo em três subgrupos cada um com seis pessoas, cada subgrupo possuía um tuxaua, sendo eles: Severino(severo) Gerson( Mestre Tamuia) e Fernando. Local encontrado, fomos ao seu encontro, saindo da estrada e indo mata adentro chegamos ao local e iniciamos a construção do acampamento, com bambus colhidos a margem do caminho, ao qual por sinal já estava cortado e seco, menos mal...(risos). Enquanto uns montavam a estrutura com bambus, outros iam em busca da Palmeira Pindoba, nome cientifico: Attalea oleifera, por possuir folhas compridas e com pouco espaçamento entre elas, favorecendo a não penetração por parte da água da chuva após a montagem da cobertura, diferente da palmeira Ouricuri, com folhas curtas e de grande espaçamento entre elas. Mas para os ignorantes como eu, apesar da instrução do mestre Tamuia, a distinção entre essas duas palmeiras se tornou difícil, então sem percebermos cortamos folhas do Ouricuri, isso foi um grande esforço desperdiçado, pois elas de nada iriam nos servir naquela ocasião. Isto já me foi um grande aprendizado: ter mais atenção e cautela. O nosso subgrupo resolveu unir forças com outro e construirmos uma única barraca, mas apesar de tamanho esforço não conseguimos finalizá-la. No final da tarde duas pessoas passaram mal, devido ao enorme esforço realizado neste dia, isso preocupou bastante a todos, ao ponto de dois companheiros retornarem a cidade para trazerem um carro. Quando os companheiros retornaram com o carro, os companheiros anteriormente achacados resolveram ficar. E com o cair da noite a natureza nos forneceu um brinde: a chuva, e como nossa barraca não havia inda sido montada o telhado da forma correta, apenas foi posto as folhas de uma forma improvisada para que não penetrasse tanta água pelas folhas. Todos se concentraram em uma única barraca montada sob a liderança do tuxaua Severo, o espaço era insuficiente para todos, de forma que uns ficaram em redes e outros no chão, não deitados mais sentados, por volta das 21h já não aguentando mais as dores devido à má posição, com uma pequena trégua da chuva, eu, Raul, Rodrigo, Guilherme e Henrique, carinhosamente chamado de ‘Caçador’, fomos nos aventurar na inacabada barraca, a qual as redes já estavam armadas, apesar de conter inúmeras goteiras foi uma noite maravilhosa, ao menos para mim, estava numa rede, que para mim parecia uma cama luxuosa, e dormi maravilhosamente, isso se deu ao forte cansaço...(risos). Por volta das 2h, pensávamos nós que estava próximo do amanhecer (risos) a chuva voltou, iniciou-se as goteiras, todos acordaram conversamos um pouco, rimos um pouco e dormimos novamente.
Com o raiar do dia, lindo, com o cantar dos pássaros e sem chuva e todo mundo animado... brincadeirinha...(risos) para alguns a noite foi péssima, para outros, como eu, foi boa. Para quem estava comigo na barraca fomos obrigados a levantar e se dirigir para a outra, pois a chuva voltou muito forte e o numero de goteiras havia triplicado. Após a chuva os trabalhos recomeçaram. Iniciei meu dia de trabalho com a busca d’água e a busca de bambu. Com exceção do trabalho de ‘caçar preá’, expressão muito famosa em nosso acampamento, graças ao Caçador, nenhum outro trabalho se dava individualmente, mas sim coletivamente. Nosso Segundo dia na mata foi basicamente para a construção e finalização de nossa barraca, com a busca de bambus e madeira, para a estrutura, e folhas de pindoba para engendrar a cobertura da barraca bem como em algumas laterais da barraca para que não chova sobre nós. Este segundo dia não foi fácil, assim como o dia anterior, estava mais direcionado para o trabalho, por conseguinte cansativo. Neste dia tivemos o retorno de cinco pessoas, agora estamos em numero de treze caiçaras. Como estávamos meio que sem relógios nossa alimentação se dava de forma irregular, quero dizer comia-se na hora que a comida estava pronta, as vezes o café era na hora do almoço e etc. Criou-se várias formas de averiguar a hora, desde a simples observação do sol até a verificação da umidade...(risos). Em todas as noites tínhamos o momento para reflexão do dia, em que todos falávamos sobre o que estávamos achando da experiência a qual estávamos envolto. Nossa segunda noite, já com a barraca finalizada, cada um em uma rede, com poucas goteiras, se deu de forma mais tranquila e relaxada.
No terceiro dia, sexta feira, ao ir em busca de água umas das companheiras recebe a informação de que um ente querido havia falecido, foi um momento desconcertante a todos o que estavam naquele local. Me propus a retornar com ela para a cidade, o caminho foi difícil pois ela estava passando mal, mas após mais de 7km percorridos uma pessoa se ofereceu a conduzi-la a cidade, desta forma eu retornei ao acampamento. A tarde aprendemos a construir algumas armadilhas tipo arapuca e zarabatana, não houve tempo o suficiente para que cada um produzi-se o seu, mas ficamos com o conhecimento para em outro momento produzir. Foi nesse dia voltado mais para atividades leves que o caiçara Guilherme nos ensinou uma cantiga que veio a se tornar nosso hino (risos), eis a cantiga:
“Voando como Águia, voando alto.
Dando voltas no Universo, dando voltas lá no céu,
Com asas de luz, com asas de amor
Ai que taiaiai, ai que taiaiô”

 Próximo do anoitecer, hora do banho, depois a janta, uma nova reflexão sobre o dia e em seguida a tão merecida noite de descanso.
No sábado, quarto dia e ultimo dia, fomos convidados a explorar as redondezas para tal era necessário adentrar na mata, confesso que pra mim algo incrível, observamos a vegetação local e o seu desenvolvimento, a presença de trilhas deixadas por animais da região,  infelizmente presenciamos resquícios de armadilhas feitas por caçadores. Com isso vê-se que o bicho homem não se contenta com a desestabilização de seu espaço, parte em busca de outros, ignorando o aviso que se tem no inicio da Serra de que é proibido caçar e derrubar árvores, mas para o ‘ser humano’ regras foram criadas para serem quebradas e ao invés de estarmos em uma evolução estamos em uma involução. O desbravamento foi feito com alegria e musica, inclusive o nosso hino, (risos). Finalizamos nosso desbravamento no topo da Serra do Ouro, onde a uma estação de testes da UFAL. De volta ao acampamento, em que tinha ficados dois companheiros, pois seria necessário que alguém ficasse para o preparo da alimentação dos demais. Para que possamos viver é importante que se faça uma divisão de tarefas, pois como seria se todos fizessem a mesma coisa? Com certeza um caos. No acampamento a alimentação já estava pronto graças ao bom desempenho de nossos companheiros. Após o almoço continuamos a aprender a confecção de armadilhas, bem interessantes e criativas utilizadas e originadas dos índios, nativos de nosso país. Incrivelmente esse dia passou de forma quase que imperceptível, mal sentimos o dia passar e com isso ao mesmo tempo em que foram momentos alucinantes de uma alegria enorme era também de uma dor, de uma nostalgia, pois era nosso ultimo dia neste local. Dando continuidade a nossa rotina, banho, janta e reflexão de toda a experiência vivida, aprendizado, e cantoria. Mais uma noite e a ultima na Serra do Ouro. Algo notório foi o bom relacionamento por parte dos companheiros ali presentes nesses dias vivenciados com muito suor e alegria. Como diz o saudoso Vinicius de Moraes: no calendário da vida a datas que não são lembradas, mas há momentos inesquecíveis. Assim foi essa experiência, pois com a ausência de certas futilidades, que na sociedade são essenciais, ali não era de tão necessidade, acabávamos nos perdendo no tempo humano, pois a natureza possui tempo próprio, ao qual difere do criado pelo homem. Enquanto a natureza possui um ritmo lento, evolutivo e de renovação, o tempo do homem possui um ritmo acelerado, em vários aspectos, involutivo e destruidor. Enfim passamos nossa ultima noite e no domingo pela manha levantamos cedo, arrumamos nossas tralhas e por volta das 8h da manha, já com os cantis cheios partimos de volta a nossa casa, no meio do caminho pegamos carona em um caminhão, foi ótimo, pois a caminhada não era pouca, chegamos em Murici por volta das 10h 30min, será que alguém adivinha nossa primeira parada? Se você respondeu um restaurante, acertou, nada melhor do que uma boa refeição depois de algum tempo na mata.
E assim ficamos com a experiência e o conhecimento na mente, algumas marcas no corpo e a certeza que mais dias como esse virá. E quando estes dias chegarem estaremos aptos a dar um novo sim e vive-los, não iguais a estes, pois nada do que foi será, mas com a certeza de que somos fortes para enfrentar o que for preciso.
Salve !

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