sábado, 27 de agosto de 2011

Fernando Godoi

Ouricuri Caiçara 2011

Caminhada: Pajuçara (Maceió-AL) até Rio Persinunga (Divisa entre Maragogi-AL e São José da Coroa Grande-PE)

20.07.2011 a 24.07.2011

Como de costume minha preparação para caminhada começou bem antes, desta vez tive uma pequena dificuldade, por motivos pessoais tive a necessidade de alterar meu horário na faculdade tendo que estudar no período da noite, com isso ficou comprometido temporariamente meus treinos com o grupo, devido ao compromisso dos estudos. Mas eu sabia das dificuldades que poderia ter com um mal preparo físico, então me dediquei a correr de segunda a sexta na praia durante a manhã, também segui a risca a recomendação do Mestre Gerson, no qual ele me disse que não parasse de treinar a elasticidade como escalas e ponte. Para acompanhar o preparo físico, diariamente após as corridas na praia, procurava fazer exercícios de barra e apoio. Foi a forma que encontrei para me preparar para mais um desafio, tinha consciência que o trabalho do grupo não parava então tive que buscar alternativas para me preparar também.

20.07.2011 – Devagar se chega lá...

Por volta das 14h encontrei os caiçaras no local de treinamento em frente ao Alagoinhas, onde foi nosso ponto de partida. Desta vez o número de participantes mais que dobrou em relação à última caminhada, fiquei muito feliz com a maior participação dos companheiros. Dos cinco guerreiros da última caminhada quatro estavam presentes nessa, isso me deixou muito empolgado, pois ficou a construção do grupo ficou fortalecida com a boa base que tínhamos. Após as instruções do Mestre Gerson e as palavras dos membros mais antigos saíram onze guerreiros rumo ao objetivo: Rio Persinunga que divide Alagoas e Pernambuco. No primeiro dia o Mestre embalou a caminhada com a música “Devagar de chega lá...”, no início sempre aquele processo de adaptação com o peso, conseguimos dormir próximo a um Resort onde fizemos nossa janta e fomos dormir em nossas barracas, o grupo foi divido em três subgrupos para as barracas. A noite foi muito tranqüila e com um merecido descanso após primeiro dia de caminhada.

21.07.2011 – Uma dificuldade jamais vista.

Amanheceu o dia logo de cara, passamos o Rio Pratagy, demos uma boa parada ainda em Ipioca, no Hibiscus, local onde tivemos nossa primeira desistência, o Arthur já estava exausto e foi o primeiro a conhecer seu limite mais de perto e assim retornou, nós continuávamos a viajem agora em dez guerreiros. Passamos por Paripueira sem nenhuma dificuldade, onde um fato chamou atenção, um ônibus escolar passou onde estávamos descansando e ouvimos gritos de algumas crianças “Olhas os Sem Terras”, isso gerou gargalhadas no grupo e depois seguimos em frente. No inicio da tarde passamos por Sonho Verde e Tabuba. Veio aí o primeiro grande desafio de nossa trajetória atravessar o Rio Santo Antonio. Mas infelizmente tivemos nossa segunda desistência, a travessia era o limite para nosso companheiro Cícero, então ele retornou daquele lugar. Como fizemos com os rios menores primeiro passamos as bolsas no bote e depois passamos nadando, confesso que não tinha noção de quanto era longe o caminho a nadar, pensei que estivesse bem para isso, mas no meio do percurso senti um forte cansaço me faltou oxigenação e não conseguia mais nadar, estava mais ou menos no meio do caminho e não tinha muito o que fazer, tentei manter a calma apesar do momento ruim que estava passando, mas olhei pro lado e procurei alguém, foi quando avistei o Lucas Fittipald e que me ajudou, logo atrás prevenindo que isso acontecesse o Mestre Gerson e o Rafael vinham nadando trazendo com eles o bote, foi aí que o Lucas Fittipald me ajudou a chegar ate o bote e assim pude concluir o percurso do rio. Quando cheguei às margens o Mestre me parabenizou pela calma que tive no momento tão delicado e eu estava muito exausto, nunca tinha me sentido tão fraco e cansado, aqueles momentos me abalaram muito, passei o resto da tarde e a noite pensando no que aconteceu, pensando no que poderia ter acontecido comigo, mas fui forte e confiei em meu grupo e no meu Mestre. Passamos a noite em Ilha da Crôa onde não tive uma noite muito, não consegui parar de pensar no que tinha acontecido e quando passava pela minha cabeça que poderia ter acontecido algo mais grave, isso martelou muito meus pensamentos e não dormi muito bem. Foram fundamentais para mim os momentos de reflexão antes de comer e ir dormir, assim pude falar de como estava à caminhada e ouvir dos demais companheiros como eles estavam também, apesar de ter me abalado, não desanimei e renovei as forças para os Km que ainda tinham pela frente.

22.07.2011 – Parada necessária.

O Sol nasceu outra vez e junto dele minha vontade de superar aquele dia tão difícil que passei. Caminhamos um pouco e ainda de manhã chegamos ao inicio da Praia de Carro Quebrado, local onde fizemos uma parada que devido o desgaste de alguns companheiros decidimos fazer uma parada mais longa, nos alimentarmos para aí em seguida seguir viagem. Olhava para o pessoal e era notável o esforço de alguns, algumas bolhas no pé vinham incomodando muita gente e o desgaste ia sendo muito maior, com isso notei que estava muito bem fisicamente e me recuperava do problema do rio no dia anterior. Ficamos a manhã toda descansando e após o meio dia continuamos nossa caminhada, com autorização do Mestre, Eu, Rafael, Guilherme e Igor, fomos na frente. Praia de Carro Quebrado, uma beleza natural, suas falésias chamam muito atenção e as dificuldades que passávamos era muito bem recompensada pela bela paisagem. Ao final encontramos uma bica natural, onde recuperamos nossas energias e esperamos os demais companheiros, então seguimos rumo ao Rio Camaragibe, já era finalzinho da tarde, passamos as coisas (bolsas) do mesmo jeito que os rios anteriores, sendo que dessa vez, Eu, Lucas Neves e Lewilson passamos em uma jangada, enquanto os demais foram nadando. Chegamos a Barra do Camaragibe, onde jantamos e seguimos destino a São Miguel dos Milagres, lá encontramos o Nininho que foi fazer o apoio e dar aquela ajuda, é sempre bom rever os amigos. Dessa vez tive uma noite tranqüila e dormi me preparando psicologicamente para os próximos Km.

23.07.2011 – Desistência, uma grande surpresa.

Acordamos bem e dispostos para seguir nosso destino, alguns companheiros continuavam as lutas pessoais contra suas dificuldades, mas persistiram e continuamos nossa trajetória. Logo pela manhã chegamos ao Rio Tatuamunha, esse não tão grande em relação aos Rios Santo Antonio e Camaragibe que passamos, mas encarei esse como um desafio pessoal, vencer o trauma que havia se instalado na travessia do Rio Santo Antonio. Certo que a distância não era muito grande mais o que ficou de importante pra mim foi à vitória de ter conseguido atravessar nadando e superar o acontecimento de alguns dias atrás. O tempo ficou nublado e em seguida veio a chuva, por volta do meio dia chegamos a Porto de Pedra, muitos guerreiros estavam desgastados e pra surpresa de todos, após o almoço o Rafael chegou ao seu limite e foi o terceiro e último a desistir, essa foi a desistência que mais me abalou, até por conta dos laços de afinidades que já tenho com ele de outros Ouricuris, mas ele foi muito guerreiro e ao exemplo dos demais sobe reconhecer seu limite, a surpresa ficou por conta que não estávamos esperando sua desistência mas infelizmente aconteceu. A chuva parou e atravessamos o Rio Manguaba, agora o próximo destino era Japaratinga, caminhamos a tarde toda e ao entardecer chegamos. Fizemos uma rápida parada onde alguns companheiros aproveitaram para tomar um banho nas famosas Bicas de Japaratinga, passamos rápido e no final da cidade decidimos dormir as margens do Riacho do Salgado já em Maragogi, decidimos andar pelo asfalto, onde mais a frente avistamos um grave acidente no qual levou a morte de um motociclista, o trânsito estava um caos e tudo parado, muita movimentação na estrada por parte de ambulâncias, perícia e IML. Já era tarde e apertamos um pouco o passo e fomos dormir após o Riacho do Salgado, bem no início de Maragogi, o clima foi fechando e a chuva chegou, junto a ela veio um forte temporal, tivemos até dificuldades na montagem das barracas, mas conseguimos montar e dormir, se bem que não esperávamos o que nos aguardava durante a madrugada.

24.07.2011 – Após madrugada difícil, a recompensa da chegada.

O último dia começou mais cedo do que o esperado, após o dia anterior no qual mais caminhamos, faltavam poucos Km para conclusão e quando esperávamos uma noite tranqüila e calma, veio uma tempestade que nunca tinha presenciado em minha vida, o vento era muito forte as barracas inclinavam, a chuva dificultou ainda mais, começou a entrar água nas barracas e com isso o sono foi embora a preocupação era enorme, e não consegui dormir direito, Guilherme que estava na mesma barraca, sofre junto. Algum tempo depois a barraca onde estava o Mestre Gerson, Lucas Fittipald e Igor, teve uma de suas hastes danificadas com isso, todos vieram para nossa barraca, nessa altura o sono não existia mais. Os guerreiros da outra barraca (Rodrigo, Lucas Neves e Lewilson) começaram a levantar acampamento, a chuva diminuiu e o temporal acabou, levantamos e seguimos nossa viagem. Na passagem por Maragogi, ficou a lembrança de um belo nascer do Sol, que mesmo com o tempo nublado, começou a clarear e mudar o clima. Faltavam poucos Km, então seguimos rumo ao destino final, Rio Persinunga. Lewilson e Igor foram os primeiros a chegar, em seguida Eu e Guilherme, um pouco depois Mestre Gerson, Rodrigo, Lucas Neves e Lucas Fittipald.

A felicidade de ter concluído mais esse desafio foi muito grande, escrever sua própria história são para poucos, ainda mais nos tempos de hoje onde a maioria busca um maior conforto e viver em uma zona de comodidade, fazer feitos como fizemos é para poucos, fico feliz de fazer parte de um grupo tão importante como Caiçara, e hoje posso dizer que junto com o grupo já caminheiro todo litoral Alagoano de Norte a Sul, realmente um grande feito que me orgulho e tenho certeza que esses fatos históricos que ajudam a construir minha historia de vida vai ser motivo de orgulho para meus familiares e futuros descendentes. Gostaria de deixar manifestada aqui todo meu agradecimento a todos os guerreiros (Mestre Gerson, Rafael, Rodrigo, Guilherme, Arthur, Lucas Neves, Lewilson, Lucas Fittipald, Cícero e Igor) que fizeram parte de mais essa história, fico com grandes ensinamentos e lições. Apesar de toda dificuldade que essa caminhada nos reservou, queria deixar um agradecimento especial ao Mestre Gerson, pois como os demais do grupo que hoje aqui estão, devo muito a ele por mudanças significativas e crescimento pessoal que venho tendo ao longo do tempo, final do ano completo dois anos de Caiçara e vejo um tempo de muito progresso em e muitos ensinamentos para vida, seja nas relações pessoais, familiares, estudos, como o Mestre sempre frisa a Caapoeira é um ensinamento para toda vida.

Salve!

Fernando Godoi

Maceió, Agosto d

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Lewilson Fernandes



Relatório - Lewilson Fernandes da Silva

“[...] Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará (João do Vale/José Cândido)”.

O Ouricuri Caiçara caminhada Maceió-AL – Rio Persinunga-PE 2011 começou para mim desde inicio como algo muito grande, já que seria a maior aventura por mim realizada nesses 23 anos de vida. Concomitante com a preparação para essa aventura, eventos particulares ocorreram, dentre eles um momento de quase morte e conseqüentemente a decisão de parar de beber. Comentando sobre a caminhada com pessoas muito importantes para mim como meu pai, minha mãe e minha esposa me deram além de nenhum incentivo (exceto minha esposa), conselhos para desistir e que não conseguiria. Não tive como os culpar, visto que vim demonstrando esse comportamento de desistência e irresponsabilidade há muito tempo, vim perceber que estava perdendo algo muito difícil de conseguir e fácil de perder que é a confiança devido ao comportamento de alcoolista. Resolvido fazer a caminhada mesmo sem o preparo físico adequado, mas com uma meta de não desistir, aqui não preciso dizer que se era grande como aventura tornou-se maior como provação que outros comportamentos podem ser aprendidos, no meu caso de não desistência dentre outros.
Feito uma pequena introdução do momento anterior a caminhada, vamos então ao primeiro dia. Com saída de Arapiraca as 07h30min e chegada em Palmeira dos Índios por volta das 08h30min. Encontrei-me com o camarada Lucas Neves e feitos os últimos preparativos seguimos viajem para Maceió. Na praia da Pajuçara esperamos a reunião de todos os onze camaradas e depois da fala e de uns cânticos de capoeira pelo Mestre Gerson seguimos viajem, dentre os cânticos a música Fogo de Palha do mestre Fanho ecoou durante todo o percurso de minha caminhada.
Com uma pesada mochila, algumas inquietações e muita vontade de não desistir comecei a caminhar na areia de Maceió, sem muito desgaste físico, mas no fim do dia cansado principalmente pela areia fofa no decorrer do caminho. Dormimos depois de um excelente jantar não luxuoso, mas não menos saboroso que qualquer banquete. Nesse primeiro dia tive maior contato com os que já me eram conhecido, como os camaradas Lucas Neves, Cícero, Rodrigo e o Mestre Gerson.
  No segundo dia seguimos mais entrosados, tivemos momentos de brincadeira logo pela manhã com a travessia do guerreiro Cícero que mesmo sem muita habilidade em natação resolveu enfrentar o rio e consegui passar e seguir a caminhada. Tivemos nesse dia pela manhã a primeira desistência dos guerreiros Arthur pela manhã e logo na beira do Rio Santo Antônio Cícero. Nas águas do rio Santo Antônio passei por uma real possibilidade de afogamento, no qual ao chegar sua margem euforia e temeridade me seguiram por mais duas travessias. À noite ocorrido uma reflexão entre todos os companheiros agora bem mais próximos houve para mim uma diminuição de temeridade do rio que proporcionou maior tranqüilidade.
Terceiro dia os calos nos pé tornaram quase insuportável a caminhada, mas sem querer parecer melhor que ninguém suportaria mais dor, tanto que suportei, contudo sem as reflexões e a companhia de todos os camaradas teria desistido. Para melhor incentivo de caminhar nada melhor que boas paisagem e companhia, itens que não faltaram momento algum. Praia do carro quebrado é muito maravilhosa. Com água mineral recolhida por nós para saciar a sede seguimos até um trecho que eu e Lucas Neves caminhamos sozinhos, trecho que foi desgastante e de stress principalmente para o Lucas que foi amenizado com o reagrupamento de todos. Com uma primeira passagem por asfalto na caminhada houve pra mim muito desgastante e a dormida em São Miguel dos Milagres que era para ser tranqüila, foi agitada, pois tivemos que remover a barraca de lugar dada às implicações climáticas.
O quarto dia foi para mim o dia mais desgastante, com os calos estourados e a péssima escolha de usar sandália ao invés do tênis, fez com que passasse uma grande parte do percurso sozinho que foi de grande reflexão, dentre elas positivas e outras de até desistência. A caminhada por mais um trecho de asfalto a noite foi muito cansativa e dolorosa chegando ao meu limite de stress, mas mais uma vez o companheirismo de todos com ênfase nesse momento dos camaradas: Rodrigo, Guilherme, Lucas Neves e Mestre Gerson ajudaram a seguir. Quando montamos barraca o que mais queria era descanso, mas o clima de ventania e chuva impossibilitou isso, fazendo com que dormíssemos no máximo três horas de sono antes de seguir viajem pela manhã.
No ultimo dia da caminhada mais que nos outros dias superação, companheirismo foram palavras que não saiam de minha cabeça, pois estava de fato perto de realizar o objetivo e mostrar que mesmo muito cansado e dolorido chegaria, que acima de tudo não desistiria de um objetivo que realmente vislumbrasse e que continuar o mesmo (desistente e irresponsável) seria até um determinado dia cômodo, mas o incomodo disso por uma vida toda não valeria à pena.
Vislumbrei objetivos e caminhei. Fui, andei e cheguei, mas nunca estive só e agradeço aos meus companheiros pelas divisões de aprendizagens, pois não foi fácil, mas cada centímetro caminhado foi muito mais do que conquistado e merecido por mim, foi devido por guerreiros... Tão merecedores quanto eu.
Alguns poderão se perguntar por que a música do começo, mas é fácil de explicar com a seguinte citação:
Não quero saber quem é melhor que eu, pois estou me melhorando a cada dia e se eles não se melhorarem passarei tranqüilo. Ser infeliz não é pressagio para felicidade, felicidade é que é pressagio para mais felicidade, depende de muitas contingências (micro e macro políticas), mas acima de tudo de querer e ainda querer ser (mais) feliz. Lewilson Fernandes da Silva, 2011.

Encerro esse relatório com alegria, saudades e também com um muito obrigado a todos e em especial ao Mestre Gerson.
Abraços...

Rodrigo Gluck


Estou no grupo caiçara há quase dois anos, durante esse tempo no grupo eu tive a oportunidade de participar de vários eventos marcantes e conhecer diversas pessoas interessantes que fazem, ou faziam parte do grupo. Lembro que no começo quando uma pessoa saia do grupo, um desanimo batia em mim. Muitas pessoas que eu criei laços de amizades já não estão mais no caiçara, necessitei de tempo para aprender a lidar com essas situações de evasão. O mestre sempre disse que uma atividade de luta é repetitiva, onde cobra do sujeito um mínimo de perseverança e comprometimento.
Antes da nossa caminhada ele passou um texto para ser lido, o nome do texto é O que há de errado com o mundo ocidental, de autoria de B. F. Skinner. O texto em si trata das facilidades que hoje em dia o sujeito encontra nas suas atividades. Com o mínimo de esforço as pessoas hoje são reforçadas por seus comportamentos, tornando assim as pessoas incapazes de produzirem e realizarem os feitos que se propõem, as tornando acomodadas e facilmente manipuladas por estratégias de controle das agências controladoras.
A proposta da caminha é possibilitar que por meio de uma atividade mortificante, o sujeito comece a atentar para como as coisas mais simples no cotidiano, dão trabalho. Em um ambiente sem as mordomias e reforçadores facilmente disponíveis, esse necessita adotar uma postura diferenciada de enfretamento, ter perseverança e ser proativo nas atividades realizadas. Constantemente o sujeito é posto em frente as suas limitações e esse aprender a trabalhá-las e ter persistência em seus objetivos.
Durantes os seis meses posteriores ao processo do Ouricuri na Mata da Serra do Ouro, houve algumas mudanças em minha vida. Mudei para Palmeira dos Índios para estudar na Universidade Federal. Eu tinha algumas metas e objetivos a serem traçados durante o ano de 2011 e essa transferência era o inicio para alcançá-las. Por falta de habilidades e de disciplina, o único objetivo que realmente alcancei durante esses seis meses foi à transferência, acabei saindo do foco e deixando as metas de lado, fiz besteiras que não só me prejudicaram, mas também as pessoas próximas a mim. Agradeço a paciência que o mestre teve comigo nesse período e ate hoje, me pergunto o porquê dele ser tão compreensivo nessas limitações que tive nesse período.
No primeiro evento que fui com o mestre Gerson na Serra da Barriga, na época nem capoeira eu era. O mestre me falou uma frase que me marcou bastante e que eu procuro sempre empregá-la em minha vida, ele disse que não adianta um sujeito ser uma flecha com potencial, se essa for lançada no escuro sem um alvo a ser atingido, de nada vai adiantar, só vai ser algo que pode ou não ter sucesso. Durante esses seis meses a luz foi apagada e meu alvo retirado, fui só uma flecha atirada ao nada.
Antes de eu viajar, fui resolver umas coisas com meu tio e tive uma conversa que me fez refletir bastante, nós estávamos num elevador de um edifício comercial descendo para ir embora, o elevador possuía uma televisão e a noticia que estava passando na hora era sobre Strauss-kahn e a reviravolta que o caso tinha tido, quando eu entrei no carro com meu tio ele parecendo um capoeira, olhou para mim e disse como era engraçado o quanto o mundo da voltas, um dia o cara é acusado no outro traz evidencias de ser inocente e assim vai o processo da vida. Depois continuamos conversando sobre outro assunto pertinente, sobre como acerta nas veias certas para ganhar dinheiro na vida, o meu tio disse que só era preciso na verdade o sujeito ter duas coisas, paciência e persistência, que um dia a oportunidade iria chegar, aquela conversa me deu um grande baque na hora em relação a minha ânsia em ganhar dinheiro imediatamente e de forma solta, sem planejamento.
Fui então ao processo de ouricuri querendo reavaliar minhas metas para o final do ano, querendo modificar algumas posturas minhas em relação à resolução de problemas e fazer mais uma vez algo que eu me orgulhasse na vida. No outro ouricuri da caminhada ate a foz, eu não consegui completar o percurso por conta de quatro km e isso ainda estava martelando na minha cabeça. Meu apelido no outro ouricuri foi teimoso, onde mesmo eu estando com uma lesão no pé esquerdo eu segui mais 22 km rumo à foz, mesmo com todos falando para eu ficar, mas mesmo assim não fui teimoso o bastante para concluir uma atividade que eu tinha proposto, aliás, isso é um grande mal que eu tenho, começo as atividades e não termino de forma devida. Isso era algo que eu queria trabalhar nessa caminha. 
O mestre em um momento de reflexão na caminhada, perguntou como essa atividade era para construirmos novos repertórios comportamentais para o enfretamento do cotidiano. Vou agora responder de forma satisfatória. Primeiramente eu aprendi a respeita da singularidade de cada integrante do grupo caiçara, cada um ali é um guerreiro que de forma diferente procurou lidar com as situações de desgaste. Nós crescemos sim sozinhos e em alguns momentos da vida isso é necessário, mas o crescimento junto com pessoas visando um objetivo similar é algo realmente gratificante e com resultados impressionantes. A certeza de se ter um grupo sólido que permita o crescimento mútuo e ter a construção de memórias com pessoas que valem à pena é algo de um valor inestimável, posso falar que aprendi a valorizar mais isso nessa viajem.
Em segundo lugar vendo algumas pessoas como o Lucas Neves, o Lucas Fittipald, o Lewilson e o Cícero, conhecidos como a ala geriátrica, observando também os iron-mans com suas ajudas constantes ao grupo, onde esses também estavam passando por problemas como o Guilherme mesmo me disse que no começo não tinha certeza da sua chegada, observando o Rafael que mesmo com uma lesão grave continuou ate o limite e vendo também o mestre que desenvolveu no pé umas bolhas e mesmo assim não perdeu a postura, me fez mostrar o valor que a persistência nas atividades traz para o sucesso destas. Falo sem medo que fiz bem isso nessa caminhada e vou procurar utilizar em outras atividades em minha vida.
Em terceiro lugar ter paciência e planejamento, minha diferença de postura era nítida nessa caminhada, eu não estava mais impaciente, afoito e desorientado em termos de reconhecer meus limites. Dessa vez eu pude ser mais analítico, capoeira e observar mais uma forma de solucionar os problemas sem o uso da força. Eu fui fazer a rota com o mestre, estudei os mapas, coisa que na outra caminhada não fiz e que representa atitude de liderança. Outro ponto que observei é o planejamento, a cada rio na viajem o mestre tinha um plano para se atravessar e isso me ensinou bastante, pois tudo ocorreu bem mesmo tendo 11 pessoas nessa caminhada, as únicas horas que poderiam não ter sucesso foi justamente porque as pessoas não reconheceram suas limitações e traçaram formas de contornar estas.
Por fim, esse ouricuri foi muito produtivo para mim, pude trabalhar tudo que eu tinha proposto antes da viajem, tive uma mudança significativa de postura ao concluir o trajeto mesmo sem condições de andar direito. Agora em casa já procuro modificar comportamentos moleculares que sei que resultam numa mudança de escala molar. Mesmo tendo pessoas que facilitam as atividades para mim, estou procurando realizá-las, para que em outros ambientes eu não fique acomodado. O ultimo ponto é que só de eu estar fazendo esse relatório dentro do prazo, para mim já é uma grande mudança. Obrigado a todos os Caiçaras que estiveram comigo nesse processo e gostaria de falar um pouco de cada um antes de concluir esse relatório.
Arthur Paredes eu não tive a oportunidade de conhecê-lo, mas o pouco de tempo que esteve presente se mostrou um cara calmo, analítico e prestativo. Ao Cícero eu construí uma grande admiração, onde mesmo tendo limitações visíveis, aceitou o desafio coisa que muitos nem isso tiveram coragem e foi ate seu limite físico, Cícero isso é característica, a meu ver, de pessoas significantes e diferenciadas.
O Rafael eu conheço bastante já de outras atividades no grupo, ele é um dos sujeitos mais guerreiros que eu conheço, acho suas característica bem parecidas com as do Gerson, para mim foi um baque sua desistência, mas por conhecê-lo sei que foi algo inevitável. Lucas Fittipald, sempre nas minhas situações mais difíceis da caminhada ele estava do lado dando força. Quem o conhece logo ver suas características de pessoa disposta e acostumada a ter uma postura de enfrentamento na vida. Na vinda já para casa ele me disse que eu fui sua inspiração na caminhada, aquilo me deixou bem feliz e digo que sem a imagem dele, do outro Lucas e do Lewilson eu não teria tanta coragem e perseverança.
O Lucas e o Lewilson foram às figuras da caminhada, são sinais de pessoas perseverantes e disciplinadas com o que se propõem mesmo com o pé cheio de bolhas e com a falta de experiências em outras atividades que exijam do sujeito uma atitude de enfretamento, eles chegaram ate o final. Obrigado aos dois pelas reflexões e descontrações na barraca.
Os iron-mans, Guilherme, Igor e Fernando estão de parabéns pela forma física e acima de tudo pelas ajudas prestadas constantemente ao grupo como todo. Deram-me bastante inspiração nessa caminhada, onde sempre com o astral alto procuravam animar o grupo. Tive a oportunidade de conhecer o Igor, um cara com um potencial enorme, e que mostra que se realizar as escolhas certas, vai crescer bastante na vida, espero cultivar uma amizade com ele. Guilherme e Fernando são parceiros antigos e essa caminhada só fez aumentar os laços que eu tinha com eles, juntos, nós iremos crescer bastante no grupo caiçara.
Já o mestre, eu não tenho muito que falar somente que devo muito do meu crescimento nesses dois anos a ele, gostaria de agradecer a sua paciência em relação a minhas limitações, que muitas vezes o prejudica de forma direta, espero manter nossa amizade por muito tempo.
Por fim obrigado a todos os membros Caiçaras que estiveram na torcida por essa nossa empreitada, vamos crescer mais e mais nessa vida, outros eventos virão e digo que são esses momentos na vida que vale à pena. Ate o batizado!

Maceió, Julho de 2011
Rodrigo Gluck