sábado, 27 de agosto de 2011

Fernando Godoi

Ouricuri Caiçara 2011

Caminhada: Pajuçara (Maceió-AL) até Rio Persinunga (Divisa entre Maragogi-AL e São José da Coroa Grande-PE)

20.07.2011 a 24.07.2011

Como de costume minha preparação para caminhada começou bem antes, desta vez tive uma pequena dificuldade, por motivos pessoais tive a necessidade de alterar meu horário na faculdade tendo que estudar no período da noite, com isso ficou comprometido temporariamente meus treinos com o grupo, devido ao compromisso dos estudos. Mas eu sabia das dificuldades que poderia ter com um mal preparo físico, então me dediquei a correr de segunda a sexta na praia durante a manhã, também segui a risca a recomendação do Mestre Gerson, no qual ele me disse que não parasse de treinar a elasticidade como escalas e ponte. Para acompanhar o preparo físico, diariamente após as corridas na praia, procurava fazer exercícios de barra e apoio. Foi a forma que encontrei para me preparar para mais um desafio, tinha consciência que o trabalho do grupo não parava então tive que buscar alternativas para me preparar também.

20.07.2011 – Devagar se chega lá...

Por volta das 14h encontrei os caiçaras no local de treinamento em frente ao Alagoinhas, onde foi nosso ponto de partida. Desta vez o número de participantes mais que dobrou em relação à última caminhada, fiquei muito feliz com a maior participação dos companheiros. Dos cinco guerreiros da última caminhada quatro estavam presentes nessa, isso me deixou muito empolgado, pois ficou a construção do grupo ficou fortalecida com a boa base que tínhamos. Após as instruções do Mestre Gerson e as palavras dos membros mais antigos saíram onze guerreiros rumo ao objetivo: Rio Persinunga que divide Alagoas e Pernambuco. No primeiro dia o Mestre embalou a caminhada com a música “Devagar de chega lá...”, no início sempre aquele processo de adaptação com o peso, conseguimos dormir próximo a um Resort onde fizemos nossa janta e fomos dormir em nossas barracas, o grupo foi divido em três subgrupos para as barracas. A noite foi muito tranqüila e com um merecido descanso após primeiro dia de caminhada.

21.07.2011 – Uma dificuldade jamais vista.

Amanheceu o dia logo de cara, passamos o Rio Pratagy, demos uma boa parada ainda em Ipioca, no Hibiscus, local onde tivemos nossa primeira desistência, o Arthur já estava exausto e foi o primeiro a conhecer seu limite mais de perto e assim retornou, nós continuávamos a viajem agora em dez guerreiros. Passamos por Paripueira sem nenhuma dificuldade, onde um fato chamou atenção, um ônibus escolar passou onde estávamos descansando e ouvimos gritos de algumas crianças “Olhas os Sem Terras”, isso gerou gargalhadas no grupo e depois seguimos em frente. No inicio da tarde passamos por Sonho Verde e Tabuba. Veio aí o primeiro grande desafio de nossa trajetória atravessar o Rio Santo Antonio. Mas infelizmente tivemos nossa segunda desistência, a travessia era o limite para nosso companheiro Cícero, então ele retornou daquele lugar. Como fizemos com os rios menores primeiro passamos as bolsas no bote e depois passamos nadando, confesso que não tinha noção de quanto era longe o caminho a nadar, pensei que estivesse bem para isso, mas no meio do percurso senti um forte cansaço me faltou oxigenação e não conseguia mais nadar, estava mais ou menos no meio do caminho e não tinha muito o que fazer, tentei manter a calma apesar do momento ruim que estava passando, mas olhei pro lado e procurei alguém, foi quando avistei o Lucas Fittipald e que me ajudou, logo atrás prevenindo que isso acontecesse o Mestre Gerson e o Rafael vinham nadando trazendo com eles o bote, foi aí que o Lucas Fittipald me ajudou a chegar ate o bote e assim pude concluir o percurso do rio. Quando cheguei às margens o Mestre me parabenizou pela calma que tive no momento tão delicado e eu estava muito exausto, nunca tinha me sentido tão fraco e cansado, aqueles momentos me abalaram muito, passei o resto da tarde e a noite pensando no que aconteceu, pensando no que poderia ter acontecido comigo, mas fui forte e confiei em meu grupo e no meu Mestre. Passamos a noite em Ilha da Crôa onde não tive uma noite muito, não consegui parar de pensar no que tinha acontecido e quando passava pela minha cabeça que poderia ter acontecido algo mais grave, isso martelou muito meus pensamentos e não dormi muito bem. Foram fundamentais para mim os momentos de reflexão antes de comer e ir dormir, assim pude falar de como estava à caminhada e ouvir dos demais companheiros como eles estavam também, apesar de ter me abalado, não desanimei e renovei as forças para os Km que ainda tinham pela frente.

22.07.2011 – Parada necessária.

O Sol nasceu outra vez e junto dele minha vontade de superar aquele dia tão difícil que passei. Caminhamos um pouco e ainda de manhã chegamos ao inicio da Praia de Carro Quebrado, local onde fizemos uma parada que devido o desgaste de alguns companheiros decidimos fazer uma parada mais longa, nos alimentarmos para aí em seguida seguir viagem. Olhava para o pessoal e era notável o esforço de alguns, algumas bolhas no pé vinham incomodando muita gente e o desgaste ia sendo muito maior, com isso notei que estava muito bem fisicamente e me recuperava do problema do rio no dia anterior. Ficamos a manhã toda descansando e após o meio dia continuamos nossa caminhada, com autorização do Mestre, Eu, Rafael, Guilherme e Igor, fomos na frente. Praia de Carro Quebrado, uma beleza natural, suas falésias chamam muito atenção e as dificuldades que passávamos era muito bem recompensada pela bela paisagem. Ao final encontramos uma bica natural, onde recuperamos nossas energias e esperamos os demais companheiros, então seguimos rumo ao Rio Camaragibe, já era finalzinho da tarde, passamos as coisas (bolsas) do mesmo jeito que os rios anteriores, sendo que dessa vez, Eu, Lucas Neves e Lewilson passamos em uma jangada, enquanto os demais foram nadando. Chegamos a Barra do Camaragibe, onde jantamos e seguimos destino a São Miguel dos Milagres, lá encontramos o Nininho que foi fazer o apoio e dar aquela ajuda, é sempre bom rever os amigos. Dessa vez tive uma noite tranqüila e dormi me preparando psicologicamente para os próximos Km.

23.07.2011 – Desistência, uma grande surpresa.

Acordamos bem e dispostos para seguir nosso destino, alguns companheiros continuavam as lutas pessoais contra suas dificuldades, mas persistiram e continuamos nossa trajetória. Logo pela manhã chegamos ao Rio Tatuamunha, esse não tão grande em relação aos Rios Santo Antonio e Camaragibe que passamos, mas encarei esse como um desafio pessoal, vencer o trauma que havia se instalado na travessia do Rio Santo Antonio. Certo que a distância não era muito grande mais o que ficou de importante pra mim foi à vitória de ter conseguido atravessar nadando e superar o acontecimento de alguns dias atrás. O tempo ficou nublado e em seguida veio a chuva, por volta do meio dia chegamos a Porto de Pedra, muitos guerreiros estavam desgastados e pra surpresa de todos, após o almoço o Rafael chegou ao seu limite e foi o terceiro e último a desistir, essa foi a desistência que mais me abalou, até por conta dos laços de afinidades que já tenho com ele de outros Ouricuris, mas ele foi muito guerreiro e ao exemplo dos demais sobe reconhecer seu limite, a surpresa ficou por conta que não estávamos esperando sua desistência mas infelizmente aconteceu. A chuva parou e atravessamos o Rio Manguaba, agora o próximo destino era Japaratinga, caminhamos a tarde toda e ao entardecer chegamos. Fizemos uma rápida parada onde alguns companheiros aproveitaram para tomar um banho nas famosas Bicas de Japaratinga, passamos rápido e no final da cidade decidimos dormir as margens do Riacho do Salgado já em Maragogi, decidimos andar pelo asfalto, onde mais a frente avistamos um grave acidente no qual levou a morte de um motociclista, o trânsito estava um caos e tudo parado, muita movimentação na estrada por parte de ambulâncias, perícia e IML. Já era tarde e apertamos um pouco o passo e fomos dormir após o Riacho do Salgado, bem no início de Maragogi, o clima foi fechando e a chuva chegou, junto a ela veio um forte temporal, tivemos até dificuldades na montagem das barracas, mas conseguimos montar e dormir, se bem que não esperávamos o que nos aguardava durante a madrugada.

24.07.2011 – Após madrugada difícil, a recompensa da chegada.

O último dia começou mais cedo do que o esperado, após o dia anterior no qual mais caminhamos, faltavam poucos Km para conclusão e quando esperávamos uma noite tranqüila e calma, veio uma tempestade que nunca tinha presenciado em minha vida, o vento era muito forte as barracas inclinavam, a chuva dificultou ainda mais, começou a entrar água nas barracas e com isso o sono foi embora a preocupação era enorme, e não consegui dormir direito, Guilherme que estava na mesma barraca, sofre junto. Algum tempo depois a barraca onde estava o Mestre Gerson, Lucas Fittipald e Igor, teve uma de suas hastes danificadas com isso, todos vieram para nossa barraca, nessa altura o sono não existia mais. Os guerreiros da outra barraca (Rodrigo, Lucas Neves e Lewilson) começaram a levantar acampamento, a chuva diminuiu e o temporal acabou, levantamos e seguimos nossa viagem. Na passagem por Maragogi, ficou a lembrança de um belo nascer do Sol, que mesmo com o tempo nublado, começou a clarear e mudar o clima. Faltavam poucos Km, então seguimos rumo ao destino final, Rio Persinunga. Lewilson e Igor foram os primeiros a chegar, em seguida Eu e Guilherme, um pouco depois Mestre Gerson, Rodrigo, Lucas Neves e Lucas Fittipald.

A felicidade de ter concluído mais esse desafio foi muito grande, escrever sua própria história são para poucos, ainda mais nos tempos de hoje onde a maioria busca um maior conforto e viver em uma zona de comodidade, fazer feitos como fizemos é para poucos, fico feliz de fazer parte de um grupo tão importante como Caiçara, e hoje posso dizer que junto com o grupo já caminheiro todo litoral Alagoano de Norte a Sul, realmente um grande feito que me orgulho e tenho certeza que esses fatos históricos que ajudam a construir minha historia de vida vai ser motivo de orgulho para meus familiares e futuros descendentes. Gostaria de deixar manifestada aqui todo meu agradecimento a todos os guerreiros (Mestre Gerson, Rafael, Rodrigo, Guilherme, Arthur, Lucas Neves, Lewilson, Lucas Fittipald, Cícero e Igor) que fizeram parte de mais essa história, fico com grandes ensinamentos e lições. Apesar de toda dificuldade que essa caminhada nos reservou, queria deixar um agradecimento especial ao Mestre Gerson, pois como os demais do grupo que hoje aqui estão, devo muito a ele por mudanças significativas e crescimento pessoal que venho tendo ao longo do tempo, final do ano completo dois anos de Caiçara e vejo um tempo de muito progresso em e muitos ensinamentos para vida, seja nas relações pessoais, familiares, estudos, como o Mestre sempre frisa a Caapoeira é um ensinamento para toda vida.

Salve!

Fernando Godoi

Maceió, Agosto d

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