Estou no grupo caiçara há quase dois anos, durante esse tempo no grupo eu tive a oportunidade de participar de vários eventos marcantes e conhecer diversas pessoas interessantes que fazem, ou faziam parte do grupo. Lembro que no começo quando uma pessoa saia do grupo, um desanimo batia em mim. Muitas pessoas que eu criei laços de amizades já não estão mais no caiçara, necessitei de tempo para aprender a lidar com essas situações de evasão. O mestre sempre disse que uma atividade de luta é repetitiva, onde cobra do sujeito um mínimo de perseverança e comprometimento.
Antes da nossa caminhada ele passou um texto para ser lido, o nome do texto é O que há de errado com o mundo ocidental, de autoria de B. F. Skinner. O texto em si trata das facilidades que hoje em dia o sujeito encontra nas suas atividades. Com o mínimo de esforço as pessoas hoje são reforçadas por seus comportamentos, tornando assim as pessoas incapazes de produzirem e realizarem os feitos que se propõem, as tornando acomodadas e facilmente manipuladas por estratégias de controle das agências controladoras.
A proposta da caminha é possibilitar que por meio de uma atividade mortificante, o sujeito comece a atentar para como as coisas mais simples no cotidiano, dão trabalho. Em um ambiente sem as mordomias e reforçadores facilmente disponíveis, esse necessita adotar uma postura diferenciada de enfretamento, ter perseverança e ser proativo nas atividades realizadas. Constantemente o sujeito é posto em frente as suas limitações e esse aprender a trabalhá-las e ter persistência em seus objetivos.
Durantes os seis meses posteriores ao processo do Ouricuri na Mata da Serra do Ouro, houve algumas mudanças em minha vida. Mudei para Palmeira dos Índios para estudar na Universidade Federal. Eu tinha algumas metas e objetivos a serem traçados durante o ano de 2011 e essa transferência era o inicio para alcançá-las. Por falta de habilidades e de disciplina, o único objetivo que realmente alcancei durante esses seis meses foi à transferência, acabei saindo do foco e deixando as metas de lado, fiz besteiras que não só me prejudicaram, mas também as pessoas próximas a mim. Agradeço a paciência que o mestre teve comigo nesse período e ate hoje, me pergunto o porquê dele ser tão compreensivo nessas limitações que tive nesse período.
No primeiro evento que fui com o mestre Gerson na Serra da Barriga, na época nem capoeira eu era. O mestre me falou uma frase que me marcou bastante e que eu procuro sempre empregá-la em minha vida, ele disse que não adianta um sujeito ser uma flecha com potencial, se essa for lançada no escuro sem um alvo a ser atingido, de nada vai adiantar, só vai ser algo que pode ou não ter sucesso. Durante esses seis meses a luz foi apagada e meu alvo retirado, fui só uma flecha atirada ao nada.
Antes de eu viajar, fui resolver umas coisas com meu tio e tive uma conversa que me fez refletir bastante, nós estávamos num elevador de um edifício comercial descendo para ir embora, o elevador possuía uma televisão e a noticia que estava passando na hora era sobre Strauss-kahn e a reviravolta que o caso tinha tido, quando eu entrei no carro com meu tio ele parecendo um capoeira, olhou para mim e disse como era engraçado o quanto o mundo da voltas, um dia o cara é acusado no outro traz evidencias de ser inocente e assim vai o processo da vida. Depois continuamos conversando sobre outro assunto pertinente, sobre como acerta nas veias certas para ganhar dinheiro na vida, o meu tio disse que só era preciso na verdade o sujeito ter duas coisas, paciência e persistência, que um dia a oportunidade iria chegar, aquela conversa me deu um grande baque na hora em relação a minha ânsia em ganhar dinheiro imediatamente e de forma solta, sem planejamento.
Fui então ao processo de ouricuri querendo reavaliar minhas metas para o final do ano, querendo modificar algumas posturas minhas em relação à resolução de problemas e fazer mais uma vez algo que eu me orgulhasse na vida. No outro ouricuri da caminhada ate a foz, eu não consegui completar o percurso por conta de quatro km e isso ainda estava martelando na minha cabeça. Meu apelido no outro ouricuri foi teimoso, onde mesmo eu estando com uma lesão no pé esquerdo eu segui mais 22 km rumo à foz, mesmo com todos falando para eu ficar, mas mesmo assim não fui teimoso o bastante para concluir uma atividade que eu tinha proposto, aliás, isso é um grande mal que eu tenho, começo as atividades e não termino de forma devida. Isso era algo que eu queria trabalhar nessa caminha.
O mestre em um momento de reflexão na caminhada, perguntou como essa atividade era para construirmos novos repertórios comportamentais para o enfretamento do cotidiano. Vou agora responder de forma satisfatória. Primeiramente eu aprendi a respeita da singularidade de cada integrante do grupo caiçara, cada um ali é um guerreiro que de forma diferente procurou lidar com as situações de desgaste. Nós crescemos sim sozinhos e em alguns momentos da vida isso é necessário, mas o crescimento junto com pessoas visando um objetivo similar é algo realmente gratificante e com resultados impressionantes. A certeza de se ter um grupo sólido que permita o crescimento mútuo e ter a construção de memórias com pessoas que valem à pena é algo de um valor inestimável, posso falar que aprendi a valorizar mais isso nessa viajem.
Em segundo lugar vendo algumas pessoas como o Lucas Neves, o Lucas Fittipald, o Lewilson e o Cícero, conhecidos como a ala geriátrica, observando também os iron-mans com suas ajudas constantes ao grupo, onde esses também estavam passando por problemas como o Guilherme mesmo me disse que no começo não tinha certeza da sua chegada, observando o Rafael que mesmo com uma lesão grave continuou ate o limite e vendo também o mestre que desenvolveu no pé umas bolhas e mesmo assim não perdeu a postura, me fez mostrar o valor que a persistência nas atividades traz para o sucesso destas. Falo sem medo que fiz bem isso nessa caminhada e vou procurar utilizar em outras atividades em minha vida.
Em terceiro lugar ter paciência e planejamento, minha diferença de postura era nítida nessa caminhada, eu não estava mais impaciente, afoito e desorientado em termos de reconhecer meus limites. Dessa vez eu pude ser mais analítico, capoeira e observar mais uma forma de solucionar os problemas sem o uso da força. Eu fui fazer a rota com o mestre, estudei os mapas, coisa que na outra caminhada não fiz e que representa atitude de liderança. Outro ponto que observei é o planejamento, a cada rio na viajem o mestre tinha um plano para se atravessar e isso me ensinou bastante, pois tudo ocorreu bem mesmo tendo 11 pessoas nessa caminhada, as únicas horas que poderiam não ter sucesso foi justamente porque as pessoas não reconheceram suas limitações e traçaram formas de contornar estas.
Por fim, esse ouricuri foi muito produtivo para mim, pude trabalhar tudo que eu tinha proposto antes da viajem, tive uma mudança significativa de postura ao concluir o trajeto mesmo sem condições de andar direito. Agora em casa já procuro modificar comportamentos moleculares que sei que resultam numa mudança de escala molar. Mesmo tendo pessoas que facilitam as atividades para mim, estou procurando realizá-las, para que em outros ambientes eu não fique acomodado. O ultimo ponto é que só de eu estar fazendo esse relatório dentro do prazo, para mim já é uma grande mudança. Obrigado a todos os Caiçaras que estiveram comigo nesse processo e gostaria de falar um pouco de cada um antes de concluir esse relatório.
Arthur Paredes eu não tive a oportunidade de conhecê-lo, mas o pouco de tempo que esteve presente se mostrou um cara calmo, analítico e prestativo. Ao Cícero eu construí uma grande admiração, onde mesmo tendo limitações visíveis, aceitou o desafio coisa que muitos nem isso tiveram coragem e foi ate seu limite físico, Cícero isso é característica, a meu ver, de pessoas significantes e diferenciadas.
O Rafael eu conheço bastante já de outras atividades no grupo, ele é um dos sujeitos mais guerreiros que eu conheço, acho suas característica bem parecidas com as do Gerson, para mim foi um baque sua desistência, mas por conhecê-lo sei que foi algo inevitável. Lucas Fittipald, sempre nas minhas situações mais difíceis da caminhada ele estava do lado dando força. Quem o conhece logo ver suas características de pessoa disposta e acostumada a ter uma postura de enfrentamento na vida. Na vinda já para casa ele me disse que eu fui sua inspiração na caminhada, aquilo me deixou bem feliz e digo que sem a imagem dele, do outro Lucas e do Lewilson eu não teria tanta coragem e perseverança.
O Lucas e o Lewilson foram às figuras da caminhada, são sinais de pessoas perseverantes e disciplinadas com o que se propõem mesmo com o pé cheio de bolhas e com a falta de experiências em outras atividades que exijam do sujeito uma atitude de enfretamento, eles chegaram ate o final. Obrigado aos dois pelas reflexões e descontrações na barraca.
Os iron-mans, Guilherme, Igor e Fernando estão de parabéns pela forma física e acima de tudo pelas ajudas prestadas constantemente ao grupo como todo. Deram-me bastante inspiração nessa caminhada, onde sempre com o astral alto procuravam animar o grupo. Tive a oportunidade de conhecer o Igor, um cara com um potencial enorme, e que mostra que se realizar as escolhas certas, vai crescer bastante na vida, espero cultivar uma amizade com ele. Guilherme e Fernando são parceiros antigos e essa caminhada só fez aumentar os laços que eu tinha com eles, juntos, nós iremos crescer bastante no grupo caiçara.
Já o mestre, eu não tenho muito que falar somente que devo muito do meu crescimento nesses dois anos a ele, gostaria de agradecer a sua paciência em relação a minhas limitações, que muitas vezes o prejudica de forma direta, espero manter nossa amizade por muito tempo.
Por fim obrigado a todos os membros Caiçaras que estiveram na torcida por essa nossa empreitada, vamos crescer mais e mais nessa vida, outros eventos virão e digo que são esses momentos na vida que vale à pena. Ate o batizado!
Maceió, Julho de 2011
Rodrigo Gluck
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