domingo, 23 de outubro de 2011
(PAJUÇARA/AL – RIO PERSINUNGA/PE)
Iniciarei o relatório tecendo um pouco acerca dos dias que antecederam a caminhada.
Deixei para adquirir os materiais e mantimentos necessários para a atividade no final de
semana anterior ao início da mesma, haja vista estar um pouco apreensivo por não ter me
preparado, no que tange ao condicionamento físico, para a atividade. Na segunda-feira, dois
dias antes do início da caminhada, tive febre, o que me deixou ainda mais apreensivo. No
entanto, contei com o apoio e entusiasmo do meu irmão e de minha namorada. Meus pais
também estavam apreensivos. Assim sendo, gostaria de enfatizar a contribuição dada por
meu irmão durante a preparação para a atividade. Meu irmão é militar, por isso detêm algum
conhecimento que me foi útil tanto na escolha de uma mochila que oferecesse uma boa
distribuição de peso, elemento que apesar de ordinário foi motivo de reclamação de alguns
durante os primeiros quilômetros da caminhada, quanto na separação e impermeabilização
dos mantimentos trazidos na mesma, fatores que muito facilitaram a manipulação dos
mantimentos durante as breves paradas realizadas durante o trajeto. Friso também a “força”
dada pela minha namorada, que em nenhum momento aparentou duvidar que eu conseguiria
chegar até o destino final da caminhada.
Iniciamos a caminhada com um grupo formado por onze homens por volta das
13h30min do dia 20 de julho de 2011, uma quarta-feira, na pretensão de chegarmos ao ponto
final do trajeto no sábado ou domingo subsequente. Concluímos a atividade com um grupo de
oito homens na manhã do domingo por volta das 12h00min, o que resultou em uma atividade
de pouco menos que quatro dias.
O primeiro dia de caminhada não foi desgastante, percorremos apenas cerca de
15km, o que a princípio me preocupou por temer termos de compensar o “atraso” no dia
seguinte, o que poderia ser deveras desgastante. No entanto, durante as reflexões realizadas
na noite do mesmo dia e em decorrência dos apontamentos elencados por alguns dos
companheiros pude perceber que a decisão tomada pelo grupo foi a mais prudente.
Já no segundo dia, nos fundos do restaurante Hibisco, tivemos a desistência do
companheiro Arthur Paredes, que já vinha sentindo fortes dores no tornozelo há algumas
dezenas de quilômetros. Ainda neste dia contamos com um grande desafio, a travessia
do rio Santo Antônio, que foi, para mim, um momento determinante na caminhada, nele
tivemos a desistência do companheiro Cícero Albuquerque. Acredito que a necessidade de
atravessar o rio foi um elemento de peso para sua decisão. Diante do rio temi atravessá-lo
o que me fez avaliar as possibilidades decorrentes da escolha que deveria tomar naquele
momento, dentre elas: poderia tentar atravessá-lo a nado, o que avaliava ser perigoso; poderia
desistir, me resguardando; ou poderia buscar um meio alternativo para atravessá-lo, o que me
possibilitaria dar continuidade a caminhada. Avaliei e decidi por ser prudente, escolhendo
um meio alternativo para a travessia. Assim sendo, peguei carona em uma pequena jangada,
segurei em sua borda e contribui batendo as pernas. A princípio minha escolha me parecia
um pouco constrangedora, fui o único que decidiu atravessar por este meio. No entanto, no
decorrer da travessia o companheiro Fernando, um dos sujeitos que aparentemente menos
sofrera desgaste durante toda a caminhada, haja vista ter um bom condicionamento físico se
cansou e graças ao auxílio oferecido pelo companheiro Lucas Fitipalddi não se afogou. Este
evento me fez ter certeza que minha escolha foi a correta. Já na margem soube que o amigo
Lewilson, por pouco, também não se afogou durante a travessia.
Deste evento guardo a fala do amigo Rodrigo ao relembrar, durante o momento
de reflexão do dia, as palavras de seu avô “a maior virtude de um homem é reconhecer seu
limite”. No entanto, o mesmo completou as sábias palavras de seu avô evidenciando que
reconhecer um limite não implica em parar diante do mesmo, mas sim em trabalhar no intuito
de construir habilidades que permitam superá-lo.
A partir do terceiro dia passei a sentir muito incomodo na sola dos pés, incomodo
decorrente das bolhas formadas durante a caminhada, o mesmo me possibilitou administrar a
dor, elemento extremamente aversivo. Este incomodo me acompanhou até alguns dias após o
final da caminhada.
Durante a parada na Ilha da Croa, próxima a Praia do Carro Quebrado, e mais adiante
em Barra Grande, já bem próximo do destino final, contribui com o preparo da refeição,
atividade que foi bastante satisfatória. Diante disso refleti sobre o porquê de não ter o hábito
de contribuir no preparo das refeições e em outros afazeres domésticos, só tive resposta a esse
questionamento ao ler o texto “O que está errado com a vida cotidiana no mundo ocidental?”,
no qual Skinner afirma que
as pessoas pagam às outras para produzirem as coisas que consomem, e
assim evitam o lado aversivo do trabalho, mas elas perdem o lado reforçador
também. O mesmo ocorre àqueles que são ajudados por terceiros, quando
poderiam ajudar a si mesmos (SKINNER, 1987).
No quarto dia de caminhada tivemos a desistência do companheiro Rafael, vale
frisar que sua desistência foi decorrente de uma lesão, o que poderia implicar em sequelas
graves caso insistisse em continuar. Por ser ele um dos sujeitos que muito contribuíram nas
travessias dos rios, junto com Prof. Gérson, Guilherme, Higor e, num primeiro momento,
Lucas Fitipalddi e Rodrigo, refleti sobre a importância de cada um dos sujeitos do grupo
para a conclusão da atividade. Decorrente desta reflexão pensei sobre a necessidade de
estruturar novos repertórios, adquirir novas habilidades, que possibilitem não apenas concluir
atividades como essa com menos dificuldade, mas principalmente em adquirir habilidades que
me possibilite contribuir ainda mais para que o grupo supere desafios como os encontrados
durante o percurso.
Esta atividade me possibilitou refletir sobre minha postura diante de circunstâncias
aversivas, fez-me lembrar de algumas atividades com as quais me envolvi e que diante
de pequenos empecilhos desisti. Fez-me perceber que metas e objetivos implicam em
perseverança e planejamento, fez-me atentar para a importância de traçarmos projetos de
vida. A caminhada foi um ensaio para as grandes realizações de um sujeito. Todas as grandes
realizações de um sujeito, aquelas que serão relembradas por seus descendentes contaram
com inúmeros desafios, contaram com escolhas e estas exigiram discernimento e ponderação,
ao mesmo tempo que coragem. As travessias dos rios me possibilitaram isso, fui corajoso o
bastante para enfrentar os que achei ser capaz, mas cauteloso o bastante para buscar meios
alternativos de atravessar aqueles a que respondia temeroso. A chegada ao rio Persinunga me
fez perceber que as grandes conquistas de um sujeito são decorrentes de um longo período
de labor, que grandes conquistas implicam em grandes desafios. No último momento de
reflexão o Prof. Gérson expôs a importância de conseguirmos traçar e alcançar grandes metas
e objetivos mesmo que isso implica em longos percursos solitários.
Por fim, aproveito para agradecer e parabenizar todos os participantes dessa
difícil empreitada, os que participaram efetivamente da caminhada e os que contribuíram
indiretamente para sua realização. Agradeço principalmente ao Prof. Gérson, primeiramente
pela formação oferecida por ele nas rodas de capoeira, nas atividades acadêmicas e em
atividades como essa, mas também pela seriedade com que planejou esta atividade, sem
dúvida elemento determinante para o sucesso da mesma, e aos amigos Rodrigo e Lewilson
pelo “espírito” constante de camaradagem com o qual percorremos esse longo trajeto.
Aproveito ainda, para apresentar uma letra que compôs acerca dessa grande realização:
Senhores peço licença
Senhores peço licença
Pra contar-lhes uma história
De um percurso, de um trajeto (colega velho)
Que eu trago na memória
E onze valentes guerreiros
Que vivem pra buscar a glória (camarada)
De Maceió a São José
De Maceió a São José
São José em Pernambuco
Tudo isso feito a pé
E dormindo à beira mar
Cada rio atravessado (colega velho)
A nado de cá pra lá (camarada)
Se estás a duvidar
Mas se estás a duvidar
Disso tudo que lhe digo
Tenho aqui sete caboclos (colega velho)
pra validar o que digo (camarada)
IÊ, viva meu mestre/grupo
IÊ, que me ensinou
IÊ, a ser mais forte
IÊ, a resistir
Lucas Costa Neves Rocha
Palmeira dos Índios, 25 de setembro de 2011
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