Relatório Ouricuri Caiçara
Pajuçara / Foz do Rio São Francisco
30.07.2010 a 03.08.2010
A caminhada ate a Foz do Rio São Francisco (Piaçabuçu-AL), contou com a participação de cinco bravos guerreiros Caiçara, dentre eles o Mestre Tamuia (Gérson) a frente com sua experiência de outros Ouricuri.
Partimos de Maceió-AL, precisamente da praia de Pajuçara, por volta das 15h do dia 30 de Julho. O Início foi tenso por estarmos carregando um peso nas mochilas de aproximadamente 15 a 18 Kg e outras superando ate os 20Kg, desde a saída a tensão tomou conta de nós por todo aquele material que carregávamos para nossas possíveis necessidades. A caminhada ate a Foz contém aproximadamente uns 150 Km, do ponto que partimos ate o destino final.
No primeiro dia caminhamos ate a Barra de São Miguel-AL, onde fizemos algumas paradas estratégicas para descanso e repor energias com água, rapadura e/ou nego bom. A primeira parada foi em frente a Braskem ainda em Maceió-AL, a outra foi no posto da Policia Rodoviária Federal, mais a frente quando chegamos em Massagueira, encontramos um caminhão que vendia frutas, compramos melancia e laranja e comemos no próprio local, depois de Marechal Deodoro-AL, paramos em um posto de gasolina, antes da parada final desse dia, alguns Km antes de chegar na Barra, montamos nossas barracas e enfim tivemos nossa primeira noite de sono, alguns guerreiros sentiram febre por conta do peso que carregaram durante o primeiro dia.
Segundo dia, chegamos a Barra lá encontramos com o Paulo que foi dar um apoio e um grande apoio. Chegando na Barra, vem logo em seqüência o primeiro grande desafio, atravessar o Gunga nadando. Ate o local da travessia por onde passávamos já ia juntando o material para construir a balsa para colocar as mochilas e atravessar nadando. O material utilizado para fazer a balsa: bambu, galhos secos e finos, torçal, e a lona da barraca. A beira do Gunga, encontramos o Pai do Mestre e o Cesão, onde junto ao Paulo, também nos deu uma grande força e apoio. Um momento de descontração na construção da balsa, foi quando apareceu um senhor que era pescador de massunim e já chegou falando, “o que vocês estão fazendo? Pegaram essas coisas onde?”, explicamos e o senhor continuou falando, “vão atravessar o Gunga nadando? Com isso? Atravessa nunca!”, o Cesão então disse “ Atravessa sim! Vamos cinquentinha?, o senhor calou-se e foi embora. A balsa teve que ter umas reformulações rápidas antes de ser concluída, contratamos um jangadeiro para ir acompanhando só por segurança e atravessamos, do outro lado Nice e Thássia estavam a nossa espera, com um lanche feito por elas e pela mãe do Arthur.
O cansaço bateu e utilizamos à tarde para descansar e repor as energias tivemos um pequeno atraso por conta disso, mas mesmo assim ao cair a noite tentamos recuperar o tempo, mas mesmo assim nos atrasamos e tivemos que parar e dormir nas Falésias após o Gunga, antes de Lagoa Azeda.
Terceiro dia, uma das partes com uma dificuldade que superamos foi exatamente a passagem pelas falésias, pois o terreno não ajudou, a areia muito fofa e a inclinação foi grande, mas mesmo assim continuamos e a beleza da paisagem compensava as dificuldades, o Sol também foi um elemento que afetou mais o desgaste durante a caminhada. Passamos por 4 rios, mas não foi preciso atravessar. Bem próximo de Lagoa Azeda tivemos que passar pelas pedras, pois não tinha outro caminho a não ser encarar esse desafio, pedras que não visualizamos nos mapas. Conseguimos chegar por volta do meio dia e lá ficamos a espera do Cesão e do Severo, enquanto esperávamos por ele armamos nossas redes numa barraca de um pescador local. Quando chegaram fomos presenteados com galeto, refrigerante, frutas e doces. Não demoramos muito, pois tínhamos que correr atrás do tempo perdido. Adiantamos o passo e final da tarde passamos pelas Dunas de Marapé, onde atravessamos o Rio Jequiá. Já era noite quando chegamos as margens do Rio Poxim, ali montamos nossos equipamentos e dormimos.
Quarto dia, um erro de 2 horas na tabela da maré fez com que atravessássemos o rio com as malas na cabeça e a água acima do nosso peito. Acordamos pela madrugada por conta da maré e seguimos nosso destino, esse dia foi o mais cansativo, pois acordamos antes do Sol nascer e seguimos em direção a Lagoa do Pau (já no município de Coruripe). Quando o Sol nascia já estávamos passando por Lagoa do Pau rumo ao Pontal do Coruripe. Chegamos no Pontal antes do meio dia, descarregamos alguns materiais desnecessários para o seguimento da caminhada. A chuva apareceu, mesmo que passageira, o clima tava frio quando chegamos no Rio Coruripe. Então eu fui o primeiro a cair na água e atravessar, passei por maus momentos por conta da correnteza, mas consegui chegar ao outro lado da margem. Em seguida veio o Mestre e logo após foram juntos: Arthur, Rafael e Rodrigo. Já passava do meio dia quando deixamos Coruripe e nosso próximo destino era Feliz Deserto, mas entre eles tinha Barreira (logo do outro lado do Rio Coruripe), Miaí de cima e Miaí de baixo. Passamos os dois primeiros e final da tarde chegamos em Miaí de baixo, paramos, nos alimentamos e a noite caiu e seguimos ate Feliz Deserto, o frio da noite e a quantidade de rios que passamos foi grande, se bem que os pequenos rios só molhava nossos pés, mas a cada um que passávamos o frio tomava conta de mim e a vontade de urinar era inevitável, por incrível que pareça mas a cada rio que passava era eu parava e tinha que urinar. Já dava para ver a luz do poste de Feliz Deserto, ali foi nosso foco, mas parecia que quanto mais andava a luz não chegava, então por problemas de lesões de alguns companheiros decidimos parar e dormir. O Mestre nos veio com uma boa surpresa, ele havia comprado em Miaí uma caixa de chocolate, então antes de dormir, comemos os chocolates.
Último dia, o desgaste foi grande do dia anterior, então o Mestre permitiu que dormíssemos um pouco mais afinal não estávamos mais atrasados, conseguimos recuperar o tempo perdido. A noite não tínhamos noção da distância que estávamos da luz de Feliz Deserto, quando amanheceu vimos que estávamos bem próximo dela. Faltava uns 30km para nosso destino final. Passado o Feliz Deserto, já estávamos no Peba, Piaçabuçu. Chegamos a um restaurante antes do meio dia, ali paramos para descansar e seguir rumo a Foz. Lá encontramos alguns trabalhadores que ficaram admirados pelo feito conseguido ate ali. Um dos trabalhadores pegou no pé do Rodrigo e ficou tirando onda dele que ele não agüentava mais continuar, e ficou com resenhas com ele, acredito que isso o motivou a ir ate a Foz. Chegava a hora tão esperada, estávamos a 20km da Foz, mas o obstáculo final era muito difícil, pois a paisagem era a seguinte: de um lado o mar do outro uma espécie de deserto. Isso abalou o psicológico, mas mesmo com essas adversidades continuamos rumo a Foz. Faltando alguns Km para a chegada, pedi permissão ao Mestre para adiantar e tentar chegar o mais rápido “correndo”, pois nos km finais nós estávamos revezando andava 5mim e corria 5mim, então pedi para não parar mais e continuar correndo ate a Foz. Consegui chegar ao destino, uma linda paisagem, valeu muito à pena tudo que passei junto dos meus amigos, a recompensa vale muito mais do que qualquer valor financeiro que venha ser ganho, para mim não tem dinheiro no mundo que pague a felicidade que tive em chegar a Foz, do jeito que cheguei e passando pelo que passei junto os Caiçaras. Logo após minha chegada, Rodrigo e Arthur chegaram trazendo o nosso transporte de volta e minutos depois o Mestre Tamuia (Gérson) e o Rafael juntou-se a nós. O objetivo estava completo, todos nós conseguimos fazer o que poucos conseguiram ou nem vão fazer.
Aprendi muito durante todos esses dias, cresci bastante e amadureci como homem. Voltei com uma visão diferente do mundo, afinal uma caminhada igual a nossa me fez mudar realmente. Os momentos de reflexão foi muito importante, pois neles conhecemos um pouco mais de cada um, e a confiança dentre os Caiçaras presente cresceu muito no meu modo de ver, em um das reflexões o Mestre nos disse mais ou menos assim: “Se você quer conhecer um homem de verdade, caminhe com ele três dias e três noites, no final pode dizer que realmente você o conheci.” Só tenho que agradecer a cada um dos Caiçaras (Mestre Gérson, Arthur, Rafael e Rodrigo), pois aprendi muito com cada um deles e não posso esquecer do grupo de Apoio: Paulo, Cesão, o Pai do Mestre (não me recordo do nome), Severino, Nice e Thássia. Caso tenha esquecido algum nome, peço minhas desculpas. Gostaria de concluir com a frase que encerra o vídeo muito bem produzido pela Thássia, “Alguns pensam em fazer algo do qual possam se orgulhar, outros fazem.”
Fernando Ramos Godoi de Albuquerque
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário