terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Relatório Jocasta


No dia 05/ 01 às 14h: 47 min eu sai da cidade de Atalaia para então me encontrar com os demais caiçaras e outros participantes do acampamento rumo a serra do ouro, situada em Murici – AL. Quinze pessoas saíram do bairro do Tabuleiro dos Martins – Maceió-AL – para enfrentar uma experiência que provocaria, no mínimo, uma reflexão sobre a condição de vida em que estamos inseridos, em contraponto a outro contexto, distanciado dessa forma existencial a que estamos acostumados.
Ao sairmos de Maceió, em um transporte de linha rodoviária da associação dos motoristas de Murici, fomos em direção a pousada, onde nos alojamos para passar a noite, este momento serviu ainda para que algumas pessoas pudessem rever suas bagagens conforme o peso e a necessidade dos materiais. Após a última refeição na cidade (na pousada), foi coordenado pelo mestre Gerson/Tamuia uma apresentação, onde todos puderam relatar a respeito do objetivo e das expectativas que esperava-se ter neste acampamento. Durante a apresentação algumas falas me chamaram atenção, quando colocavam que o motivo pelo qual estavam participando era a respeito da aventura e diversão. Parece-me que esses são sentimentos no qual fogem da proposta e do que de fato iram encontrar no caminho e na nossa estadia na mata, pois nossa proposta (proposta dos caiçaras) vai além desses princípios (para mim nesse contexto e/ou quando se tem em vista apenas essa perspectiva de aventura e diversão, torna-se fútil e inviável). Basta lembrar alguns pontos que o mestre levantou em seu documento sobre as informações gerais que serviram como indicadores para reflexão. 

 “[...] Presumo que você seja capaz de calcular o esforço humano que existe por trás de seu alimento? Se você não sabe o esforço, o trabalho, a luta por trás de cada existência e deseja conhecer, chegou o momento” (SILVA, Gerson A. JR.).

O objetivo fica muito claro em um dos parágrafos do documento:

 “O objetivo do processo é retirar todo luxo da vida moderna. Visto que, nossa pretensão é levar o sujeito a refletir como é a vida sem as facilidades e os confortos da atualidade. Pensamos fazê-lo ter uma idéia do que é uma vida sem celular, sem tv, sem Internet, sem geladeira, sem comida industrializada, sem mamãe e sem papai” (SILVA, Gerson A. JR).     
Na madrugada do dia 06/01 aproximadamente às 4h: 30 min saímos da pousada na caminhada para a serra do ouro, acredito que nesse momento, boa parte das pessoas estavam carregadas, além das bagagens, de ansiedade e adrenalina para enfrentar o novo em um percurso entre 20 km á 25 km, após algumas horas de caminhada algumas pessoas puderam entender o quanto significante é peso de algumas gramas desnecessárias. A primeira parada para descanso ocorreu a aproximadamente á 4 horas de caminhada, foi inevitável o sentimento de querer esvaziar a bagagem no intuído de maneirar o peso e o desconforto para facilitar o resto do percurso. Uma forma de diminuir o peso foi ingerir os alimentos, frutas, e água. Na segunda para podemos nos refrescar com um banho em uma água gelada, causando a sensação de relaxamento, momentâneo, pois ainda havia um longo percurso para seguir. Por causa do acúmulo da caminha e por a partir dessa parada a estrada passa a ser íngreme o cansaço vai tomando maiores proporções.  
Em fim às 10h: 30 min. chegamos ao local onde iríamos passar quatro dias convivendo com pessoas dos mais variados comportamentos, de crenças e valores, em um lugar e situação completamente nova (para boa parte dos participantes e alguns caiçaras como eu). De cara, antes mesmo de subirmos ao lugar onde ficaríamos acampados, podemos nos deparar com o primeiro obstáculo (que para uma pessoa foi tido como crucial a ponto desta a firmar que iria passar apenas este dia, voltando na manhã seguinte, já para outras esse era um obstáculo a ser enfrentado. Adotando algumas estratégias, como por exemplo, ir procurar água em outros lugares na mata, estratégia realizada com êxito, foi montado uma equipe que ficou encarregada dessa responsabilidade). Um ponto a ser observado é a respeito da forma como as pessoas se comportaram nesse momento referente à dificuldade apresentada, podemos pensar como essas pessoas reagem frente aos obstáculos da vida, sabendo que basicamente só existem duas possibilidades (fuga ou enfrentamento), assim não pode ser diferente diante desse contexto, alguns decidiram se agrupar e continuar no acampamento enfrentando as dificuldades, assim como teve quem optasse pela fuga, voltando para o conforto da vida da cidade, acreditando que dessa forma estaria resolvido o problema. Será que a fuga é de fato a melhor estratégia? E quando se tratar de um ciclo fechado onde à fuga só levará para outra situação que exigirá: uma fuga constante ou um posicionamento de enfrentamento para que possa conseguir resolver determinada problemática, ou seja, entre viver fugindo (preso em um ciclo vicioso) e encerrar determinados ciclos para que possamos iniciar novas experiências (para este contexto estou tomando as palavras: enfrentamento e resolução, como se fossem sinônimos. Contudo, cada situação exigirá escolhas distintas), qual seria a melhor escolha?  Essas observações não são levantadas com o intuito de provocar uma discussão ligada a questões de valores (positivo ou negativo) ou do que é certo ou errado, referente às escolhas que fizemos durante o acampamento. Pois, espero que cada pessoa possa ter tido uma tomada de consciência a respeito das suas ações, e com isso não fiquem esperando que alguém possa lhes dizer o que é certo ou errado.
 Acredito que a partir desse momento já posso substituir o termo (que venho utilizando para as pessoas que estão presentes nessa experiência) participantes por guerreiros, assim como o peso da palavra a nossa atitude passa ser uma afirmação de ser caiçaras. A partir desse momento o que me interessa é observar a forma como cada guerreiro vai lidar com essa nova condição.
Nossa primeira atividade consiste em montarmos cabanas provisórias para passarmos a noite, deveríamos montar um teto com folha da palmeira ouricuri e outras folhas. Foram divididos grupos por atividades, as meninas ficaram responsáveis para cortar cipó, para fazer as amarrações, e folhas. Os meninos montavam as cabanas e cortariam as palhas das palmeiras. Três barracas foram montadas na quais duais o tuxaua Luan ficou responsável pela divisão dos guerreiros que ficariam em cada cabana. Quando percebemos que o céu escurecia e após termos nos alimentado, fomos dormir.
No dia 07/01 acordamos e tomamos café juntos (ainda posso lembrar os sabores de alguns alimentos, tais como: banana verde cozinhada com gosto de inhame, granola, café com rapadura). Nossa atividade ainda se tratava em refazer o teto das cabanas, sendo preciso desconstruir para construir um teto firme capaz de aquentar a chuva. Precisaríamos trabalhar como um de grupo no sentido amplo, do todo (de todos em função de cada cabana), e não de maneira subgrupais. O que houve, inicialmente, foi um trabalho repartido por cabana na medida em que estavam alojadas. Com isso houve uma demanda de trabalho maior e tempo perdido, até que pudessem perceber que seria mais rápido e eficaz se trabalhássemos todos por cada cabana. As atividades desenvolvidas pelas meninas desde o início estavam focadas em colher as palhas que fossem capazes de cobrir as três cabanas, mas ao decorrer do trabalho já havíamos percebido que não iria dar para fazer a coberta das três cabanas, pois tinha pouca palha (já tirada) e o trabalho estava confuso e lento. Duas barracas foram desfeitas e apenas uma pode ser refeita, fugindo das orientações do mestre. Ao escurecer apenas duas barracas existiam, foi feita uma divisão para agrupar todos os guerreiros.  
Na madrugada do dia 08/01 algumas surpresas, a primeira foi à chuva que fez com que ficássemos encharcados, e novamente saberíamos que deveríamos refazer o teto. Realmente uma situação de total desconforto, sei que cada pessoa teve uma sensação diferenciada, mas para mim além do desconforto de estar molhada e com frio, existia um outro fator no qual me deixava em uma situação bastante incomoda. O meu medo de trovão e raios, senti muito medo, não havia nada que eu pudesse me sustentar e me dar segurança, me sentia totalmente vulnerável, mantinha os olhos fechados e cobertos com um casaco.  A segunda surpresa foi à chegada dos caiçaras e tuxaua Severino e João Arruda, mesmo antes que esses chegassem ao lugar onde estávamos alojados, o Gerson já se questionava sobre o estado do tempo (chuvoso) e a vinda dos dois caiçaras, ele afirmava que os meninos já estariam a caminho, enquanto algumas pessoas acreditavam que esta afirmação pudesse parecer absurda. Pouco tempo depois de nossa conversa, ouvimos barulho de fogos, o Gerson então afirma que eles haviam chegado. Eu confirmei, pois Severino tinha dito no treino que quando chegasse iria soltar fogos. Fiquei impressionada com o curto espaço de tempo em que estamos conversando a respeito dos tuxaua’s e a sua chegada. Um pensamento me deixou encantada com essa situação, é a respeito da relação existente eles, construída na base da confiança e da coragem. São sentimentos que admiro, quando se consegui cultiva-los na relação com o outro, toma uma forma de força e resistência para qualquer batalha. Parabéns caiçaras, cada vez mais me sinto orgulhosa de fazer parte desse grupo e aumenta a certeza de querer fazer história junto com vocês.
Retomamos as atividades, finalmente conseguimos finalizar as cabanas.
O dia 09/01, acredito que foi o dia mais tranqüilo em relação às atividades a serem desenvolvidas. A tranquilidade pairava momento oportuno para o desenvolvimento de atividades que exigissem mais da concentração. A proposta de aprendizagem na confecção de materiais artesanais como, por exemplo, cestos, e arapucas, lanças, arco e flecha, foi lançada para aqueles que tivessem interesse. Dessa forma recebemos instruções para desenvolver os instrumentos conforme a vontade de cada um.
Em algumas rodas de conversas, principalmente deste dia, pude perceber que os assuntos levantados estavam relacionados sobre os dias em que estávamos acampados, faziam um levantamento sobre as atividades e os acontecimentos em geral, e outro ponto era o sobre o que iríamos fazer quando chegássemos em casa. Algumas teorias a respeito das necessidades básicas de sobrevivência humana passam a ser confirmada de uma maneira bem simples, em uma conversa. Apesar de não termos passado fome, pois havia comida em abundância, mesmo assim a necessidade por alguns alimentos industrializados ou da forma do preparo da comida a que estamos acostumados, foi o principal ponto levantado como um aspecto primordial a ser feito quando chegassem em suas casas, determinadas comidas foram citadas como sendo um fator no qual sentiram falta, o  segundo estava relacionada a sexualidade.
No dia 10/01, antes de saímos ainda conversamos um pouco sobre a forma como montar armadilhas para pessoa. Ás 12h: 00 estávamos voltando para nossas casas, o Tuxaua João Arruda saiu um pouco antes. O grupo ficou dividido em dois, o primeiro a chegar à cidade de Murici é o grupo coordenado pelo Tuxaua Severino e Luan. Depois o grupo coordenado pelo mestre chega e então todos nós podemos seguir para Maceió, eu ainda precisei pegar outro transporte para chegar em casa, Atalaia que fica a 48km da capital.  

Minhas Considerações Finais
Não tenho como me posicionar ou simplesmente direcionar o meu olhar e minhas impressões a respeito do acampamento com um foco dicotômico, como algumas pessoas tem o hábito de se referir que enquanto acadêmico (a) de psicologia (é um exemplo, mas pode ser qualquer outro curso ou mesmo uma profissão) sou de determinada forma e enquanto pessoa sou de outra. No decorrer do meu relatório existem algumas observações onde pode ser visto o meu posicionamento a respeito de uma análise voltada para a forma do comportamento humano (sabendo que cada sujeito possui sua subjetividade, entretanto, levo em consideração as variáveis que interferem nesse processo, como: o contexto social, sobre as condições na qual o sujeito se desenvolve; assim como o fator orgânico, biológico). Eu estou em um processo constante de mudanças e quando me coloco para determinada atividade, estarei enquanto pessoa e isso significa estar de maneira a considerar todas as variáveis que interferem no meu processo de desenvolvimento. Há uma complexidade de fatores que se entrelaçam. Quando afirmo que sou, causa uma idéia de que estou falando de um ser estático, mas se eu consigo compreender a dimensão e a Constância das mudanças desse ser, o mais adequado seria falar que eu estou de determinada maneira.
O acampamento contribuiu bastante na dinâmica da minha vida, serviu como reflexão e mudanças, posso afirmar que essa experiência é um laboratório de aprendizagem. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário