quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

GLAUCIANE COSTA DO NASCIMENTO


Diário de Bordo



Acampamento Grupo Caiçara
Dias: 5 a 10 de janeiro de 2010
Mestre: Gérson Alves








Glauciane Costa do Nascimento
Faz algum tempo que tive conhecimento do Acampamento Caiçara, não fazia idéia do que me esperava, logo que recebi as informações iniciais do programa. Com o passar dos dias comecei a interagir mais com o grupo e passei a ser apreciadora dos capoeiras.
Com respeito da palavra se assim posso chamar, a “cultura” da capoeira é fascinante e logo me comprou, com suas idéias de transformar pessoas e fazê-los ter uma melhor forma de vida. Todas as reuniões que tive a oportunidade de assistir antes de ir ao acampamento foram impulsionadoras na decisão de ir para o acampamento.
Faz certo tempo que venho acampando com amigos e sempre passamos dias e noites acampados em algum lugar por aí. Mas depois de participar do Acampamento Caiçara comecei a perceber que meus acampamentos anteriores foram piqueniques e hoje consigo me conhecer como uma sobrevivente, que de certa forma superou todas as dificuldades propostas pelo grupo e pelo mestre e sobrepujar essas dificuldades em busca de realizações futuras.
Dia cinco ainda foi tudo muito confuso para mim, tinha todas as coisas imagináveis ainda para serem organizadas e pela chuva e dificuldades outras que aconteceram neste dia antes da viajem, muitos dos que conversei foram tentados a desistir, pelas dificuldades que foram aparecendo ainda no começo do dia.
Orgulho-me por desde cedo nunca ter desistido de meu ideal, fui para o acampamento com a proposta e intenção únicas de me conhecer como pessoa, reavaliar meus limites e ter um conhecimento integral do relacionamento com o outro.
Chegamos ao Hotel de Murici – AL, por volta do fim da tarde. Mesmo antes de chegar ao hotel já consegui criar uma interação com o pessoal do acampamento, isso me fortaleceu bastante, como lembro de minha fala ainda pela noite após o jantar, onde comentei sobre as pessoas que lá estavam e do quanto eu estava grata pela oportunidade que a mim foi conferida e o desejo de que a noite logo passasse para que a caminhada pudesse começar e o acampamento fosse montado.
Não sabia fisicamente as dificuldades que me esperavam, no início da caminhada tudo estava tranqüilo, mas com o tempo a mochila nas costas começou a pesar e as dificuldades já vinham aparecendo, não estava condicionada fisicamente e isso me fez mal inicialmente na caminhada, esperava ansiosa pela primeira parada, onde poderia tirar a mochila das costas, sentar um pouco e tomar água.
Percebi que a ânsia não era exclusividade minha, as pessoas que mantive interação durante a caminhada também demonstravam certo cansaço e desejo pelo descanso. Paramos por um tempo e logo seguimos a caminhada, por diversas vezes, mesmo que por pouco tempo, demos algumas paradas, para alguns, isso era um tanto complicado, pois acreditavam que seria melhor seguir direto em detrimento das paradas, particularmente essas paradas me fortaleceram a cada segundo.
Tivemos paradas para banho, tomamos água, pegamos e comemos algumas frutas e assim conseguimos chegar ao local onde ficaríamos acampados. Chegando ao local, nos deparamos com mais dificuldades, a falta de água foi a predominante, era perceptível que isso preocupou todos naquele momento e já haviam alguns que pensaram em desistir.
Confesso ter sido um problema que eu não contava, mas estava ali disposta a passar por todas as dificuldades, acredito que imprevistos acontecem e isso não poderia ter sido determinado por nenhum de nós.
Conversamos por um tempo, Gérson lançou a questão de quem gostaria de voltar para casa e já houve pronunciação mesmo nesse primeiro momento. Contudo, seguimos mais um pouco o caminho até o local que ficaríamos acampados, até então ainda nos encontrávamos na estrada.
Ao chegar ao ponto tão esperado, me deparei com uma mata fechada, com árvores muito altas e não se via mais nada senão árvores, folhas e o céu em meio às altas árvores. Senti que seria complicado permanecer por ali, quando se está acostumada a certos privilégios da cidade e senti naquele momento que seria um problema que eu deveria encarar e assim voltar uma pessoa com novas experiências e um perfil modificado e renovado.
No primeiro dia armamos as cabanas mesmo inacabadas, montamos a fogueira, organizamos os lugares para dormir, fizemos algo para comer e sobrevivemos a primeira noite. Acreditei que seria difícil, dormir na mata e que me sentiria só, com medo da escuridão ou mesmo incomodada com as dores nas pernas e nas costas.
Ainda no primeiro dia encontramos um local para tomar banho e conseguimos água para beber. Por fim, o primeiro dia e noite foram tranqüilos, estava tão cansada que nem senti a noite passando, deitei muito cedo e no outro dia quase não acordava.
Como no primeiro dia arrumamos o acampamento apenas para sobreviver a primeira noite, no segundo dia precisaríamos organizar melhor as cabanas para nos prepararmos para a chuva e casualidades. Foi um dia tranqüilo e ao mesmo tempo não muito agradável, particularmente não gosto muito de tarefas repetitivas e foi o que mais fizemos durante todo o dia, para montagem das cabanas, fomos orientadas a montar pequenos molhos de palha e depois uní-los formando o teto da cabana, e ainda precisaríamos organizar as laterais.
Pela manhã fomos orientados a organizar as cabanas, uma por vez, o que não foi cumprido e acabou por atrasar o desenvolvimento do acampamento e o trabalho ficou incompleto. No decorrer do dia foram muitas saídas em busca de água, para tomar banho e nesses trajetos acabamos entrando em contato com alguns moradores do local.
O segundo dia foi assim, cansativo pela repetição, mas proveitoso pelo aprendizado, em meio a tantas repetições sempre em grupo, tive a oportunidade de entrar em contato com algumas pessoas que ainda não havia falado e pude conhecer um pouco mais de cada um deles e me apresentar também, pois sabia que do grupo, muitos já se conheciam, eu por não participar dos treinos e da capoeira em si, não tinha intimidade com o pessoal que ali estava, e pude com isso apreciá-los cada vez mais, conhecer suas particularidades, pontos positivos e negativos e tudo que poderia ser expresso no momento.
Logo ao início do dia, eu e Sérgio, saímos para buscar água e ficamos sabendo pelo motorista de uma ambulância, que uma mulher havia sido assassinada e ao que tudo indicava, nós conhecíamos a família, para mim isso foi um tanto incômodo, voltamos para o acampamento e falamos ao Mestre o que havia acontecido, sentíamos que não deveríamos contar a ninguém sem antes falar ao Mestre para que este resolvesse o que deveria ser feito, fomos orientados a fazer silêncio e sermos os mais discretos possíveis para que nosso acampamento não pudesse ser prejudicado por coisas outras que não faziam parte de nosso projeto.
Foi um dia bem produtivo, todos se empenharam ao máximo, demonstraram estar integrados com o grupo e com o trabalho para ser desenvolvido pelo projeto inicial do acampamento. Jantamos todos juntos, afinal, todas as refeições eram feitas em conjunto, sempre esperávamos um pelo outro e logo nos servíamos.
Recolhemo-nos em termos, pois ficamos em nossas cabanas, já deitados e vez por outra uma pessoa saía de sua cabana e vinha ter conosco. Brincamos um pouco antes de dormir, o que nos proporcionou conhecer mais um ao outro. Posso dizer que esse acampamento, mesmo que em seu início, me fez construir muitas amizades, pessoas especiais que me fizeram seguir firme em todos os momentos, bons ou ruins, principalmente em meio a dificuldades.
Dificuldades essas que foram bem expressas na segunda noite, ainda não tinham construído as cabanas como orientado pelo Mestre, contudo passamos mal uns bocados, quando a chuva começou a cair, muitos começaram a se mobilizar, não tive muita reação, como já havia participado de alguns acampamentos e já havia passado também por dificuldades com chuva, passei toda a noite na rede, mesmo que molhada.
O que me chamou bastante atenção nesta noite, foi à atenção dos meninos que estavam em minha cabana, o cuidado que eles demonstravam para comigo e Dayse, me cederam seus lençóis e até uma capa de chuva que um deles havia levado, estava na lateral da cabana e com isso não fiquei isenta da chuva, mas acredito que suportei bem a noite, mesmo com chuva e trovões que amedrontavam.
Passamos toda a noite acordados e a chuva só foi parar de cair com o amanhecer e o aparecimento do sol, com o sol chegou a segunda Tuma que nos encontraria, foi incrível o aparecimento deles logo no início do dia, eles enfrentaram a chuva durante toda a caminhada até o acampamento.
No terceiro dia em acampamento, com a experiência deles em acampamento, o dia caminhou com maior agilidade e o trabalho foi desenvolvido de forma produtiva, terminamos todas as cabanas de forma honrosa, pois seguimos todas as orientações do Mestre e como brincaram: “que a chuva venha que estamos preparados, pode cair até canivete do céu hoje”.
Aconteceram alguns imprevistos, um que de certa forma me deixou pensativa, sobre o grau de dificuldade que teríamos em meio a acidentes, que foi o acontecimento com Guilherme, que ao se machucar decidiu voltar para casa, foi triste ter de se despedir de alguém que era considerado importante tanto quanto os outros naquele momento, alguém que sempre estava disposto a ajudar, a aprender e ensinar.
Nesta noite, a terceira na mata, fizemos um momento de reflexão, onde todos puderam se expor e refletir sobre o programa do acampamento, pessoalmente nesse momento de reflexão da noite, só conseguia pensar o quanto eu já havia me superado e desenvolvido certas habilidades, me surpreendi comigo mesma, ao pensar em todas as dificuldades que já havia enfrentado e me orgulhando por em momento algum ter pensado em desistir, por mais dificuldades que tenham aparecido e pela disponibilidade em ir embora no momento que desejasse, já que por dificuldades encontradas ao chegar, o Mestre modificou algumas de suas regras iniciais de não mais voltar só na quinta ou no domingo, mas deixando livre para que se expressassem a qualquer momento a vontade de ir embora.
Também sentia que não deveria ser assim tão fácil ir embora fora do período determinado, tanto pela dificuldade da volta, quanto pela justificativa, que deveria ser algo agradável a si, eu estava lá por superação de limites, para me reconhecer como pessoa e dar maior valor as coisas que eu possuo, eu encaro minha saída se assim acontecesse como um fracasso em meio a várias possibilidades.
A partir desta noite já não conseguia mais dormir, talvez pela pequena distância entre as redes, os mosquitos, o falatório das pessoas que passava a ser cada noite mais freqüente, mas foi a partir deste terceiro dia que encarei tudo aquilo como natural, coisas que eu não estava acostumada aconteciam cada vez com maior freqüência, posso citar o compartilhamento de talheres e cantis, passar o dia inteiro suja e tomar banho apenas ao cair do sol e ao término das tarefas, comer frutas com as mãos sujas, o banho sempre incompleto. Caramba houve um momento que eu comecei a encarar isso com tamanha naturalidade, que não sabia mais como iria reagir ao voltar para a cidade.
Esses momentos de reflexão em grupo e os momentos em que me encontrava comigo mesma, foram os momentos mais importantes para mim em todo o acampamento, era o momento em que me reconhecia, com minhas fraquezas e limitações, me superando a cada momento.
O quarto dia na mata foi um dos mais gratificantes, levantei muito cedo e pude aproveitar melhor o dia, juntei com uma turma e fomos tomar banho em uma bica que o pessoal no dia anterior havia descoberto, foi uma caminhada prazerosa, fomos conversando e discutindo questões sobre o acampamento, fazendo uma reflexão informal sobre tudo que estava acontecendo com o passar dos dias.
Voltamos para o acampamento, carregados de frutas, foi uma ótima maneira de começar o dia, neste dia aprendemos um pouco do artesanato apresentado pelo Mestre e mesmo não gostando de fazer trabalhos repetitivos e manuais, cumpri com essa tarefa e passei outra parte do dia cozinhando, isso foi para mim uma reconstrução da Glauciane, adoro cozinhar, isso me fez sentir útil naquele momento e para aquelas pessoas.
Pela noite nos reunimos e depois do jantar tivemos outro momento de reflexão nomeado pelo Mestre como: Lavagem de Roupa Suja. Foi uma noite para apontarmos os pontos positivos e negativos do acampamento e dos participantes e como havia pensando na noite anterior sobre o momento reflexão, esse não poderia ter sido diferente, foi tão importante quanto.
Mas também foi um momento que me deparei com tantas diferenças que não havia me dado conta durante todos os outros dias de acampamento que se passaram, pude compreender que apesar de muitos demonstrarem estar tranqüilos e encarando de forma honrosa tudo que acontecia ali, possuíam suas imperfeições, os humanos que eu admirava eram tão falhos quanto eu própria.
Como havia falado no início, um de meus propósitos no acampamento era para também poder compreender essa relação com o outro e saber que apesar das imperfeições expostas naquele momento, essas pessoas permaneciam sendo especiais para mim.
Ao fim desta reflexão, ao nos recolhermos para nossas cabanas, tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas e também de ouví-las e como isso foi importante para mim, foram os momentos mais gratificantes do acampamento, poder ter essa relação com o outro, poder escutá-lo e compreendê-lo, reconhecendo que as diferenças precisam existir para que a relação possa ser concretizada.
E posso dizer que saí deste acampamento uma nova pessoa, com novas amizades e com novos planos, projetados para fazer diferente aqui, de volta a essa realidade paralela.
O último dia chega e o desejo de permanecer fica cada vez maior, maior até do que o desejo de voltar a ter todas as mordomias da vida cotidiana. Aprendemos em pouco tempo algumas técnicas com cordas e mobilizações, armadilhas e amarrações e por incrível que pareça, foi uma das atividades que mais me chamou atenção, pena que já foi à última.
Na caminhada de retorno a cidade, como sabia que não haveria mais volta e sabia também o que me esperava e não me restava mais nada, senão seguir em frente e refletir um pouco mais sobre a importância deste trabalho em mim, Eu como pessoa. Segui na frente, sendo acompanhada como eu posso dizer? Por uma das maiores revelações deste acampamento como pessoa, amigo e companheiro.
Chegamos à cidade e ficamos à espera do grupo que havíamos deixado para trás, chegamos à cidade exaustos, a todo o momento na estrada pedindo chuva, para que o mormaço cessasse um pouco, foi uma volta não tão sacrificante quanto a ída, acredito que por caminha e saber onde iríamos chegar, diferente da ida que só caminhávamos sem saber se já estava perto, se ainda estava longe, ou mesmo por onde estávamos.
Num contexto geral posso classificar esse acampamento como sendo a primeira de muitas experiências que se forem permitidas gostaria de participar, foi um período de reconhecimento, de superação, de aprendizagem e porque não dizer também, de ensino. Foi de grande proveito participar de toda essa experiência e ter sobrevivido, ter me transformado em algo melhor como pessoa. Só tenho a agradecer ao grupo Caiçara pela oportunidade e por todos os momentos proporcionados.
Não poderia terminar um diário de bordo, sem abordar as contribuições necessárias para minha sobrevivência todos os dias do acampamento:
Gérson – Mestre sem igual, já o conhecia como professor e já o apreciava como tal, conhecendo-o agora como mestre e participando de algo orientada por ele, foi uma experiência sem tamanho. Agregador de valores e conhecimentos indiscutíveis me mostrou como devo agir, não com palavras direcionada a mim, mas para bom ouvinte, poucas palavras bastam. Sacrificou-se como muitos para permanecer firme nesta causa e conseguiu honrosamente atingir as minhas expectativas, orientou todo um grupo e as pessoas que integravam este grupo o reconhecem como o Mestre e não é à toa.
Sérgio – Uma das maiores surpresas neste acampamento fez tudo que estava a seu alcance, sempre disposto a ajudar e em muitas das tarefas contribuiu como ninguém, não é à toa que quando me perguntaram quem eu nomeava como um dos responsáveis pelo evento o seu nome surgiu por diversas vezes, ele foi uma das maiores graças também, histórias e piadas e outras coisas que não são necessárias citar, ele foi assim uma das pessoas especiais para mim neste acampamento e que eu aguardo poder participar de outros tendo sua presença.
Luciano - A graça e a autoridade, uma mistura que só o Luciano para possuir, por diversas vezes me impulsionou quando eu me achava fraca, uma revelação de responsabilidade que eu só conhecia na faculdade, com os trabalhos e apresentações, mas nesse acampamento pude conhecê-lo em suas responsabilidades como provedor e cuidador.
Letícia – Companheira de todos os momentos, mulher guerreira e meiga, forte e ao mesmo tempo frágil, uma das pessoas que mais trabalhou para o progresso do acampamento e elaboração das tarefas, sem medir esforços. Pessoa especial que fará muita falta mesmo eu que só a conheci no acampamento criei uma grande apreciação por ela, Letícia é o nível entre brincadeira e responsabilidade.
Fernando – Companheiro especial e ainda descubro que é meu conterrâneo, por diversas vezes foi a pessoa que me fez sentir bem e me sentir querida, um dos que se sacrificou no cuidado de mim e de Dayse na noite da chuva, com ele aprendi o significado da palavra guerreiro, e o reconheço como tal, por sua disposição e vontade em ajudar em todos os momentos necessários. Uma alegria que recebi por ter participado do acampamento. Foi com ele que fiz o trajeto da volta, foi ele que me impulsionou a não desistir e não parar nem para tomar água, seguimos de forma impressionante para mim, quando parei para pensar que na ida parei por diversas vezes e na volta tinha alguém comigo sempre me instigando a seguir. Conversas simples, até bobas, mas tão importantes no final de tudo, pelo conhecimento recíproco e amizade criada. Quando ao fim de tudo, ao chegar à cidade me chama de guerreira e me dá um abraço.
Pizza – Pessoa sem igual aprendi a aceitá-lo de seu jeito simples, e como fui privilegiada por tê-lo conhecido, sempre prestativo e dedicado a todos. Não provei de seu café, mas sei o quanto foi apreciado e desejado pelos capoeiras. Desde a caminhada que eu já o observava como uma pessoa forte, por sua disposição e por sua forma de encarar certas coisas e assim o foi, não foi de surpreender ele ter sido tão comentado por sua capacidade de sobrevivência.
Dayse – Nossa, foi uma das pessoas mais especiais que conheci, participei de todos os seus momentos de fraqueza e acredito ter contribuído de alguma forma em suas decisões e em seu fortalecimento no acampamento, tanto quanto ela me ajudou muito com sua companhia, seus conhecimentos. Acredito ter sido uma das maiores guerreiras na classificação feminina, por diversos motivos e em diversos momentos veio se superando como pessoa e acrescentando muito em sua capacidade de relacionar-se com outros. Posso falar que a ensinei que “não devemos mudar para agradar aos outros, mas porque precisamos dos outros”.
Luan – Para muitos a decepção do acampamento, mesmo por seu posto que deveria ter sido encarado de forma ativa e se apresentou como um participante como todos os outros, na verdade não só como isso, mas por diversas vezes sendo chamado atenção por seus comportamentos contraditórios. Por não ter tido contato algum com Luan antes do acampamento, não pude reconhecê-lo como organizador do evento, nem mesmo responsável pelos que ali estavam, mas pude conhecer a simplicidade de um rapaz que não estava em bons dias, o que interferiu muito em seu crescimento no acampamento. Mesmo os que o conheciam de muito tempo acreditam em sua recuperação e seu fortalecimento pessoa, que direi eu, que o conheci em sua fragilidade?
Severino – O famoso Severo, esse nome não foi escolhido à toa, pessoa marcante e sempre bem humorada, mas foi com este que eu aprendi que as coisas que eu preciso, eu é que preciso correr atrás para consegui-las, passei as últimas noites em sua cabana e reconheço sua importância e o tanto de conhecimento e experiência vieram sendo carregadas naquela pequena mochila nas costas. Fotografo nato, que me fez enxergar de maneira mais agradável tudo o que acontecia, pois encarava tudo com uma naturalidade que me saciava.
João Paulo – Uma graça de rapaz levava tudo na brincadeira e ao mesmo tempo, tudo com seriedade. Fez muito e sempre com muita disposição. Um verdadeiro enigma, não se alimentava, mas sempre com todo gás e toda disposição, mal dormia e já acordava me perguntando como estavam seus músculos. Cheio de planos e com muita disposição para realizá-los, pessoa muito especial que sou grata por ter conhecido.
João Arruda – Não tive muito contato, mesmo por ter chegado na segunda turma e por sempre estar em tarefas diferenciadas das minhas e por poucas vezes ter-mos a oportunidade de nos comunicar-mos. Mas desde cedo demonstrou sua capacidade e disposição ao levar Guilherme até a cidade e depois voltar. Poucas foram às vezes que dialoguei com João, mas em todas demonstrou atenção e desejo de integração. Sempre se mostrava disposto a ajudar e fazia tudo que estava a seu alcance, não é à toa que o Mestre tão bem falou dele.
Junior – Até seu nome infelizmente descobri nos últimos dias do acampamento, foi mais um que não tive muito contato, acredito que por ter se fechado a uma amizade que Luan e ter deixado o desejo de permanecer ali e cativar amizades de lado. Acredito ser uma pessoa que irá crescer muito e que tem muitos planos a serem construídos e consolidados. Limitou-se a muitas coisas como bem foi falado por ele, por sua idade e limitação à responsabilidade do Mestre, mas demonstrava sempre o desejo de querer fazer e saber como fazer, diferente.
Jocasta – Das meninas, a que tive menor contato, pelas conversas em acampamento e mesmo agora com o retorno para a cidade, demonstrou ter sido uma questão grupal de não ter havido uma interação maior dela com o resto do grupo. E mesmo sem saber antecipadamente sobre seus problemas com outra integrante do grupo, já a sentia limitada ao seu mundo, sem dar muito espaço para que outros pudessem interagir. Mas, Jocasta, o pouco que percebi e o pouco que se deixou apresentar, parece ser uma moça muito inteligente, pois tivemos a oportunidade de conversar um pouco sobre faculdade e pesquisas e projetos, e senti que é alguém centrada e firme em suas escolhas.
Guilherme – Garoto simples e agradável participou comigo de diversas tarefas, o que me fez aproximar-me dele e sentir muito sua falta quando teve que voltar para a cidade. Fiquei surpresa com seu desejo de retornar, pois acreditava que de todos era a pessoa mais tranqüila e centrada, mas aprecio seu gesto, por todas as justificativas dadas por ele, compreendi que voltou não porque teria desistido, mas por necessidade e me orgulho muito de ter tido a oportunidade de conhecer pessoas como ele, que me mostraram o momento de parar, de não mais ultrapassar limites, por mais necessário que seja a questão de superação. O pouco que passou lá no acampamento conosco, sinto que foi seu limite, que deu o seu máximo, mas precisou ausentar-se.
Filipe – De todos o que menos mantive contato, na verdade meu contato único com ele foi ainda no hotel antes de nossa partida, durante o único dia que passou conosco no acampamento não tivemos muito contato, foi apenas observá-lo e consegui extrair daqueles poucos momentos, uma pessoa capacitada para liderar e cuidar do outro.
Manuella – Por ter passado o mesmo tempo que Filipe, ficou um tanto limitado também nosso contato, acredito que o que teria para falar dela ainda se resume ao hotel, pois ficamos no mesmo quarto, o pouco que conversamos demonstrou ser uma pessoa tranqüila e disposta a descobrir-se pela superação. Talvez uma visão antecipada, mas não acreditava em sua permanência no acampamento, fiquei feliz tanto quanto pela Dayse, por Manuella ter chegado até o local do acampamento, mas comprovei minha visão antecipada quando o próprio Mestre ao perguntar quem voltaria, citou seu nome como, além da Manuella. Acredito que ela, mesmo com o pouco tempo, já se superou, pois era perceptível o quanto aquele lugar não lhe era agradável.









Glauciane Costa do Nascimento


Evaporar – Littler Joy

Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar
Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar
O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar foi o que ganhei
E ando ainda atrás desse tempo ter
Pude não correr pra ele me encontrar
Não se mexer
Beija-flor no ar
O rio fica lá, a água é que correu
Chega na maré, ele vira mar
Como se morrer fosse desaguar
Derramar no céu, seu purificar
Deixar pra trás sais e minerais
Evaporar

O pessoal era sempre muito musical, e por diversas vezes eu não os conseguia acompanhar, por cantarem músicas da capoeira. Quando me encontrava sozinha, com um tempo para pensar, essa música me vinha a mente. Era uma forma de reconhecer o valor do tempo que eu estava tendo e que eu não poderia perdê-lo, deixando-o passar sem aproveitar todas as oportunidades.
E quando aprendi a me doar, doar meu tempo, me doar como pessoa, foi quando eu mais ganhei, ganhei experiência, conhecimento, amizades, pessoas especiais e acima de tudo me ganhei como uma nova pessoa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário