OURICURI CAIÇARA
SERRA DO OURO – MURICI/AL
05/01/2010 a 10/01/2010
Estou a pouco mais de dois meses no grupo Caiçara, e quando me apareceu a oportunidade de participar do acampamento fiquei muito empolgado para encarar esse desafio diferente na minha vida, pois ate então nunca havia participado de nada parecido e ainda mais todas as regras que foram propostas só foi um motivo a mais para juntar-se ao grupo e encarar essa situação ate então nunca vivenciada.
Não é fácil aceitar passar dias isolados do “mundo”, longe de todo aquele comodismo, longe das facilidades que temos nessa vida. Ainda mais, esquecer celular, computador, aparelhos eletrônicos em geral, comida sempre pronta e/ou feita por outra pessoa, sobreviver longe de papai e mamãe, que não é fácil.
Muitos não fazem idéia da importância desse acampamento, pensam que é uma besteira, coisa de louco ir para mata e ainda mais sem esses recursos que tanto facilita nossa vida. Para mim lá era o momento de me conhecer verdadeiramente como ser humano, refletir sobre minha vida, como anda ou o que fiz e o que ainda posso fazer para melhorar não só a mim e sim a todos que convivem comigo e constroem a cada dia minha historia de vida.
O inicio foi tenso já que estava um grupo de pessoas que ate então a maior parte nunca haviam se quer se falado, sabiam nem o nome do outro e passar por tudo isso necessita de todo aquele espírito coletivo para melhor efetuar as tarefas. Chegamos em Murici/AL já estava anoitecendo, nos instalamos no Novo Hotel. Na hora do jantar tivemos um momento de apresentação de cada um, isso foi importante porque foi o pontapé para conhecermos uns aos outros. Descansamos e as 3:45h partimos rumo a Serra do Ouro, uma longa caminha de aproximadamente 20Km a pé com todo o peso nas bolsas, carregando o material necessário.
A longa caminhada teve uma duração de mais ou menos 7 horas, contando com paradas para descanso, banho no rio, catar algumas frutas para ate então seguirmos ao local do acampamento. O peso da mochila estava ate tranqüilo mais para uma caminhada de 20km com quase 20Kg sendo carregado com todo o esforço, tornou mais difícil o desafio, as paradas foi essencial para dar novo ânimo ao grupo de continuar em frente. Chegando ao local apareceu a primeira dificuldade, o riacho estava seco naquele local, muita gente achou ruim disseram que não íamos conseguir sobreviver naquele local sem água pois ela é essencial para a vida do homem, mais foi apenas uma dificuldade que surgiu já que havia água próximo ao local, mais ou menos 10min de caminhada. Estava ali toda a água para beber, cozinhar, tomar banho e qualquer outra necessidade. A dificuldade para encher os cantis de água foi superada pela força de vontade de alguns guerreiros que muitas vezes subiram e/ou desceram em direção ao rio, carregavam dentro da mochila, aproximadamente 15 litros de água.
No local, ainda restavam algumas armações das barracas feitas pelos companheiros que participaram do outro acampamento. Mas devido ao tempo, serviu apenas para passar a primeira noite, afinal estávamos cansados devido a longa caminhada e fizemos as cobertas das barraca para agüentar o primeiro dia. Acomodamos-nos e colocamos as redes para nossa dormida, jantamos e no final da noite, todos em maioria, exaustos, devido ao longo dia, foram todos dormir.
No segundo dia de acampamento, tivemos as primeiras desistências, um homem e uma mulher foram embora do acampamento. Mas o dia era longo e tínhamos que continuar, reunimos todos que ali estavam e começamos a trabalhar na reforma das barracas, para melhor segurança de todos. Passamos o dia todo no mesmo trabalho, alguns já davam sinais de cansados e no final da tarde o ritmo de trabalho caiu muito, daí começaram a aparecer às primeiras dificuldades, a noite aproximava-se e as barracas ainda não estavam totalmente prontas e seguras. Por volta da meia noite começou a chover, a tensão bateu em todos, preocupados se a barraca conseguiria ou não nos proteger da chuva. Perto das três horas da madrugada, a barraca começou a apresentar várias goteiras, a chuva ficou mais forte, relâmpagos e trovões, não cessaram durante toda madrugada, atrapalhando assim o sono de todos, as redes encharcaram, o frio aumentava ao passar do tempo, ninguém conseguia mais dormir, ficamos acordados naquela preocupação a madrugada inteira. A chuva só veio parar por volta das cinco horas da manha, já estava amanhecendo, quando algumas pessoas conseguiram enfim tirar um pequeno cochilo, no meu caso uma hora foi o suficiente para acordar de animo novo e tentar assim animar meus companheiros que passaram ali junto a mim aquela noite péssima, devido a todas as dificuldades. Percebi que mesmo diante de todas aquelas o companheirismo foi a peça chave para que conseguíssemos passar aquela noite, um ajudando ao outro, em nossa barraca estavam instalados seis pessoas, dentre os quais, duas mulheres e quatro homens. Para descontrair já ao amanhecer, um companheiro nosso começou a cantar, música no qual foi cantada por todos ali naquela barraca e a partir daí tentamos nos animar para continuar seguindo em frente.
No dia seguinte, chegaram ao acampamento dois novos companheiros, que devido as suas atividades profissionais só puderam comparecer nesse momento. A manhã começou difícil, pois as barracas ainda não estavam totalmente aptas, e durante os preparativos da refeição da manha, um amigo nosso, feriu-se com o facão, na mão esquerda, abrindo um profundo corte. Em seguida teve que suturar sua mão com quatro pontos para fechar o ferimento, essa mini cirurgia foi feita por um membro mais experiente e que tinha conhecimento nessa área. Logo após esse acontecido, o companheiro ferido, não agüentou e desistiu, sendo assim o terceiro a ir embora para casa.
O dia mal começou e já teve todos esses acontecimentos, o que nos restava era reformar as barraca. Estávamos ali mais um dia fazendo barraca, muita gente não gostou, soltou ate umas piadinhas fora de hora, “a gente veio só para fazer barraca foi?”. Mais enquanto o principal que era nossa “base” não estivesse pronta não teríamos como fazer outras coisas, daí então todo o planejamento foi meio que apertado, pois havia uma prioridade maior ali a ser tomada, a segurança de nossas barracas.
Penso que depois mesmo dessa noite mal dormida, todos se envolveram de uma forma muito eficiente para reforma de vez das barracas, não foi só o telhado, as paredes ficaram mais resistentes, uns utilizaram as palhas das palmeiras e outros juntaram-se e aprenderam a fazer uma esteira do tronco da bananeira descascada, um verdadeiro artesanato fabricado em plena “mata”. No final do dia, após o esforço de todos, as barracas enfim estavam prontas e seguras. Podemos assim, depois da refeição da noite, ficar-mos todos juntos a fogueira e ter assim nosso primeiro momento de reflexão, por tudo que havíamos passados desde que chegamos ao local do acampamento.
Naquele momento, imaginei toda dificuldade passada por mim e meus companheiros: na construção das barracas; para caçar as folhas mais adequadas, os cipós, os troncos de arvores tanto para barraca quanto para fogueira; ir buscar água várias vezes ao dia, carregando os cantis dentro de uma bolsa, catar frutas como, caju, manga, jambo, banana; os insetos que não nos deixavam em paz, nem mesmo o repelente protegia 100% deles. Aprendemos um repelente natural que tem mais eficácia que esses industrializados, “banho de fumaça”, resolvia o problema em instantes só que o cheiro de fumaça fica impregnado no corpo e na roupa, para muitos gerava um grande desconforto, no meu caso, consegui me adaptar o mais rápido possível e aquele cheiro para mim já era natural e me senti mais parte de todo aquele meio ambiental. Essas dificuldades para nossa sobrevivência, fora dificuldade para nossa higiene pessoal: banho, higiene bucal, necessidades fisiológicas, essa então minha maior dificuldade.
O quarto dia considera-se o melhor, pois todos haviam dormido bem, se a noite da chuva foi a pior, essa foi a melhor, nada como dormir tranqüilo e sossegado após tantos dias de trabalhos pesados e repetitivos. Na noite anterior tínhamos combinado de ir logo ao amanhecer para o banho, assim foi feito, algumas das mulheres aproveitaram e lavaram suas roupas, enquanto os homens exploraram a área e após o banho, antes de voltar ao acampamento, catamos algumas frutas para a refeição da manhã. Para carregá-las construímos na hora uma espécie de andor com matérias da própria natureza: pequenos troncos de arvores, troncos de taquara, casca do tronco da bananeira e suas folhas.
As atividades que constavam no planejamento foram enfim trabalhadas com mais foco porque ate então o trabalho era reformar as barracas, e faríamos isso ate ficar corretas. O mestre nos ensinou a confecção de um arco e flecha, de uma lança, dos traçados para confecções de objetos artesanais, também aprendemos alguns nós e a fazer alguns tipos de arapucas. Construí um pequeno cesto, não ficou perfeito, mas me dediquei ao máximo, utilizei muito de minha paciência pois aqueles traçados as vezes não saí do jeito que eu mesmo queria e eu tinha que refazer tudo de novo, lembrei dos dias de reformas das barracas, a repetição é a melhor forma para obter o resultado desejado. Em nossa ultima noite, tivemos mais uma reflexão e uma espécie de “lavamento de roupa suja”, para que o que aconteceu lá, lá mesmo ficasse, e ninguém saísse falando depois por trás sobre ninguém, já que somos seres humanos e sempre existe algumas desavenças mais nada que pudesse abalar a estrutura e a união do nosso grupo.
Na manhã seguinte, e últimos momentos nosso na serra do ouro, nesse acampamento, arrumamos as bolsas, fizemos nossa refeição reforçada e partimos de volta a murici, a caminhada foi bem mais rápido, ate porque não carregávamos mais a mesma quantidade de peso, as paradas foram muito rápidas, apenas para beber água, pelo menos o grupo que estava ao meu lado na caminhada, minha parceira de caminhada, uma mulher muito guerreira fizemos uma grande amizade e ate descobri que ela nasceu na mesma cidade que eu, São José da Laje/AL. O sentimento de voltar para cidade foi tão grande que nem acreditei quando vi a rodovia, as casas, as pessoas, tenho certeza que voltei para civilização uma pessoa renovada, aprendi a dar mais valor a tudo que tenho; minha família, minha casa, meus amigos, meu trabalho, meus estudos, meus objetos. E aquele comodismo que nos rodeia, fico pensando, o que estou fazendo para merecer isso tudo.
Todos que participaram desse acampamento esta de parabéns, são verdadeiros guerreiros porque não é para qualquer um encarar o que encaramos, passar o que passamos, mesmo aqueles que não ficaram ate o final considere-se também um guerreiro, pois só de estar ali já é uma vitória, e tenham certeza muitos do que duvidaram de nós, não fariam metade do que nós fizemos. Deixo aqui minhas saudações e agradecimentos primeiramente ao Mestre Gérson, com quem aprendi muito e agradeço desde já a oportunidade de ir para esse acampamento e de ser um Caiçara. Aos tuxauas, Severino, João Arruda, Luan e Luciano que por sinal não esquecerei jamais o seu lema: “Frio, Sede, Fome, Dor, Cansaço... São sentimentos que eu desconheço”, se bem que um desses pilares quase foi abaixo naquela terrível noite de chuva forte. E para quem estava lá numa primeira experiência assim como eu, meus parabéns por tudo que passamos e meus agradecimentos por ter vocês como companheiros e agora meus amigos: Sérgio, Jocasta, Idson, Cledison, Dayse, Glauciane, Letícia, João Paulo, Emmanuela, Guilherme e Filipe.
No total, o grupo foi formado por dezessete pessoas (cinco mulheres e doze homens) todos foram muito forte e com uma determinação incrível para conseguir superar seus limites e vencer mais esse desafio. Brincamos que no final não ganhamos prêmios de hum milhão de reais, mas a experiência de vida que tivemos durante esse acampamento, nenhum dinheiro do mundo é capaz de comprar.
Fernando Ramos Godoi de Albuquerque
Maceió, 20 de janeiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
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