sexta-feira, 4 de março de 2011

Fernando Godoi


Ouricuri Caiçara 2011
Serra do Ouro – Murici/AL
25.01.2011 a 30.01.2011

            O planejamento para o Ouricuri Caiçara começou cedo, o Mestre Tamuia (Gérson) juntamente com o Rodrigo, foram conhecer o território do nosso Ouricuri que de acordo com o planejado iria ser na Serra da Nacéia, mas por motivos de o local não esta dentro dos padrões para a realização do Ouricuri, o Mestre e o Severo (Severino) voltaram dias depois para o local e constataram que o local realmente não estava em condições de receber o grupo que ali estava confirmado. Reuniões foram feitas para decidir qual o local de nosso Ouricuri, algumas sugestões foram dada, mas pelo grupo ser em sua maioria sem experiências na mata, foi decidido melhor voltarmos a Serra do Ouro (local do Ouricuri 2010), pois alguns membros mais experientes (Mestre, Severo, João, Eu, Guilherme e Rafael) ajudariam no Ouricuri. Mas tínhamos um grupo de 18 pessoas no qual o Mestre e o Severo como os mais experientes puderam contar com os Tuxauas – denominação dada aos componentes que participaram de dois ou mais Ouricuri – João Arruda e Eu.
            No ano de 2010 participei de dois Ouricuri, a) Janeiro 2010: Serra do Ouro; b) Julho 2010: Caminhada ate a Foz do Rio São Francisco. Com isso por ter participado de dois acampamentos recebi a responsabilidade de ser um Tuxaua, e logo em um Ouricuri onde a maioria dos participantes eram sem experiência na mata. Portanto o Ouricuri teve um peso diferente para mim, pois estaria eu em uma posição de liderança diferentemente dos outros que participei.

O Início

            Para muitos o Ouricuri começou apenas no dia 25 de janeiro quando chegamos a Murici, para outros começou na madrugada do dia 26 de janeiro quando iniciamos nossa caminhada rumo a Serra do Ouro, mas para mim o acampamento começou bem antes, ate porque não poderia deixar de valorizar o trabalho de planejamento que já citei acima (mesmo que como um resumo). Também quando comecei a planejar para o Ouricuri, para mim o acampamento já tinha começado. Quando estava arrumando minha bagagem tirando da caixa todo o material utilizado no outro acampamento já me veio às lembranças e aquela vontade maior de voltar a participar do Ouricuri.

25.01.2011 – Destino Murici/AL

            No horário marcado nos encontramos próximo a Policia Rodoviária Federal, para nossa partida com destino a Murici. Tive a companhia de Douglas e Nathany ate o local marcado, chegando lá encontramos com o pessoal vindo de Palmeira dos Índios e Arapiraca (Marcos, Raul, Isvânia, Leilane “Shitara”), algum tempo depois chegou o Jonathan Henrique. Juntamos aos outros Caiçaras próximo ao ponto onde lá estavam Rafael, Severo. Contamos ainda com a presença importantíssima de Rubião, Rafael Cabral e Jocasta que não puderam ir para o acampamento, mas foram lá dar o apoio. Posteriormente chegaram Guilherme, Henrique “Caê”, Arthur, Thássia, Rodrigo e o Cícero (Zapata) informou que nos encontrava lá no hotel pois o mesmo estava de carro e ainda tinha um compromisso antes de chegar a Murici. Ficamos conversando e no aguardo do Mestre, onde o mesmo chegou já dentro da Van que iria nos levar ate a cidade de Murici. Gostaria de destacar um fato que ocorreu, segundo o Rubião, a mãe do Rafael teria pedido a ele que fizessem algo para que o cabelo do filho dela ficasse sujo, ou algo do tipo que quando o mesmo voltasse pudesse cortar o cabelo pois tinha passado no vestibular e não queria cortar o cabelo, como o Rubião não iria pro acampamento ele passou a missão para mim, eu ate brinquei na hora pode deixar Rubião comigo “missão dada é missão cumprida” uma brincadeira referente ao filme Tropa de Elite, mas infelizmente não contávamos que o Rafael fosse voltar tão cedo, então conseqüência foi:
Missão não cumprida, foi abortada por motivo de retorno antes do tempo previsto do elemento em questão.
            Chegamos à Murici no final da tarde, onde nos instalamos no Hotel. O Mestre liberou para que pudesses andar pela cidade, mas que as 19:00h  tivéssemos de volta no Hotel para o jantar e a reunião final antes da partida que aconteceria as 03:00h do dia 26.01.2011. Após o jantar fizemos nossa reunião (João Arruda chegou e juntou-se ao grupo) com as últimas instruções sobre o acampamento, nos apresentamos e foi ali o último momento para que as dúvidas fossem tiradas. Fui dormi pensando como seria o acampamento e sabendo da minha responsabilidade como um dos líderes. Dormi muito bem, creio que ao contrario de muitos companheiros que estavam nervosos e ansiosos com o que iriam encontrar.

26.01.2011 – Caminhada, trabalho e chuva forte na madrugada

            Acordamos 03:00h e partimos em direção a Serra do Ouro, como eu já conhecia o caminho para mim foi tranqüilo pois já tinha uma noção do que viria pela frente pudendo assim preparar não apenas fisicamente mas também psicologicamente. Foram horas caminhando durante uma média de 20Km, tivemos nossas paradas estratégicas, pudemos aproveitar um belo banho em uma das paradas e fora que a paisagem é muito bonita o que proporcionou várias fotos, registradas por mim e pelo Severo. Quando chegamos no local o Mestre, o Severo e Eu, fomos olhar o melhor local para nos instalarmos e decidimos pelo mesmo local do outro ano, “mesmo local” na verdade só em termo de localização pois a natureza esta em constante modificação e com isso sempre traçando novas experiências.
Dividimos os grupos e começamos à trabalhar, o que na verdade não é fácil, ate construirmos nossas barracas (não por completas) levou tempo e a noite chegou e tivemos que ficar todos na mesma barraca, o cansaço era nítido nos participantes. Um momento de tensão foi quando o Henrique “Caê” passou mal no final da tarde e a preocupação foi grande, então Eu e João Arruda nos disponibilizamos em ir ate a cidade no objetivo de pegar o carro para que o “Caê” pudesse voltar para casa devido às condições que o mesmo encontrava-se, levou algumas horas e não foi fácil de completar esse objetivo ate porque estávamos cansados devido ao dia longo que tivemos mais ainda tínhamos uma energia para que pudéssemos ajudar nosso companheiro que estava ali precisando de uma ajudar maior. Felizmente quando retornamos ao acampamento o companheiro estava muito melhor e não retornou naquele dia, decidiu agüentar mais uma noite e retorna no dia seguinte juntamente com outros companheiros que viria a desistir e com os que já tinham seu retorno programado naquela data. O Henrique ate que queria voltar mesmo já estando bem só pelo nosso esforço, mas conversamos e ele ficou mais aquela noite. O mestre ainda brincou fazendo referência a minha cara de espanto quando cheguei e disse: “Vamos? O João está no carro esperando”. E descobri que ele não iria voltar mais, parecia que nosso esforço tinha sido em vão, mas felizmente ele se recuperou e todos entenderam que o susto inicial pela situação não tinha nada em relação ao “Caê”, mas a brincadeira tomou conta e todos nós comemos algo antes de ir dormir, pois não deu tempo de cozinhar nada devido ao esforço do dia. Durante a noite a chuva foi muito forte e duradoura o que fez para algumas pessoas uma noite tensa e desconfortável, como eu já tinha passado por uma experiência dessa no outro acampamento não senti tanto como alguns em sua primeira vez na mata e levar logo esse susto.

27.01.2011 – Trabalho de recuperação

            O dia anterior não foi fácil, alguns companheiros passaram mal e a conseqüência foi à desistência, esses companheiros voltaram junto com outros que tinham avisado previamente seu retorno por motivos justificados.
            Após as partidas começamos nossas divisões de trabalhos para dar continuidade e enfim finalizar a tarefa do dia anterior das barracas, então um grupo foi pegar água e o restante ficou na reconstrução. Apesar do cansaço do dia anterior e da noite não tão boa, o trabalho foi muito bem executado, a barraca que estava no comando do Severo precisou de poucos ajustes para ficar boa e a barraca que tava o Mestre juntamente com meu grupo o esqueleto tava pronto faltava finalizar a coberta. Eu e Thássia ficamos na parte do teto por sermos os mais leves para a situação. Douglas se destacou com sua habilidade em dar nó. A turma da pesada formada por Rodrigo, Guilherme, Arthur, Jonathan Henrique, ficaram na responsabilidade de cortar os troncos para a fogueira. As meninas: Isvânia, Nathany e Leilane “Shitara”, mostraram uma garra e uma força nos trabalhos que ajudou bastante o grupo. O Mestre e o Severo sempre nos trabalhos e ajudando com suas experiências. Final da tarde, os trabalhos enfim concluídos, fui fazer minhas necessidades higiênicas e fisiológicas. A noite chegou, dessa vez mais tranqüila em relação a anterior, fizemos a janta por sinal muito boa (já estava com saudade do feijão com arroz) logo após nos reunirmos e tivemos nosso momento de reflexão o que é de suma importância para o objetivo do Ouricuri, pois, é através dele que podemos ver como esta o pessoal, o dia-dia para cada um e compreender como esta cada pessoa naquele momento. Antes de dormir as conversas são as melhores, momentos de descontração e animação, no qual podemos nos conhecer ainda mais.

28.01.2011 – Aprendendo com os recursos da própria mata

            O inicio foi tenso, devido à volta precoce da Nathany devido o falecimento de um parente, o Douglas acompanhou a mesma na volta ate um ponto onde ela pegou uma carona e retornou a cidade.
            Mas o dia nos reservava outras coisas, após dias de muito trabalho e cansaço na construção de nossas instalações, era hora de aprender a fabricar objetos com os recursos que o meio ali nos oferecia. O Mestre com sua experiência e sabedoria nos ensinou a fazer arcos, flechas, zarabatanas, conseguimos ate fazer colher no qual ajudou muito na hora de cozinhar e preparar a comida. O Severo ainda construiu uma flauta e um banco na lateral da barraca, tudo isso com o material base que tivemos no local o “bambu” que por sinal segundo o Mestre, ainda tem varias outras funções que ajuda em nossa sobrevivência. A tarde foi muito proveitosa, aprendemos ainda como fazer armadilhas. Mas tinha um companheiro que insistia em “caçar preá” com seu próprio jeito (essa expressão foi muito utilizada em nosso acampamento).
            Sempre no final da tarde íamos fazer nossas necessidades (salve que alguns companheiros (as) também faziam ao longo do dia). À noite jantamos e fizemos nossa reflexão, depois cantamos onde tivemos um destaque, o Guilherme, mostrou-se um excelente cantor, puxou várias músicas com o pandeiro que levamos e além das músicas de capoeira, uma música se destacou e considerados por muitos foi o hino do acampamento: “Voando como águia, voando alto. Dando voltas no universo, dando voltas lá no céu, com asas de luz, com asa de amor. Ai que taiaiai, ai que taiaiô”.

29.01.2011 – Um dia que passou muito rápido

            Ultimo dia nosso na mata, a convite feito na noite anterior pelo Mestre em nossa reflexão, o grupo foi conhecer a mata, desbravar mesmo o território que ali estávamos alguns dias. Mas enquanto o grupo foi para atividade de exploração do local, alguém tem que ficar e fazer o almoço. Como já conhecia a área me prontifiquei a ficar e cuidar da comida, como o Mestre e o Severo foram para a exploração e eu por ser um Tuxaua decidi ficar e cuidar da comida, Leilane “Shitara” estava com algumas bolhas nos dedos e preferiu ficar e cuidar do almoço. Foi de grande ajuda, pense em uma mulher de garra e que fez valer o apelido dado a ela. Dividimos as tarefas, quanto cuidava do fogo, ela preparava a comida com um tempero especial preparado por ela e sua avó, tudo estava sob controle, ate um “fogão de três bocas” eu consegui improvisar para adiantar o almoço. Mas a lenha acabou, e tive que cortar, o que não é muito minha área (força física), de acordo com as próprias palavras da “Shitara” em seu relatório, “Fernando tomava conta do fogo que com sua audácia fez um fogão de três bocas para adiantar, era preciso cortar mais lenha vi Fernando pálido com tamanho esforço e tentei ajudar, deu certo, pelo menos fez valer meu apelido de Shitara”.
            No horário da tarde continuamos a fabricar os instrumentos que tínhamos apreendidos no dia anterior, foi um dia bom mas que passou muito rápido. Então chegou a última noite nossa, ali no acampamento, o que para muitos que estão de fora, devem estar pensando “nossa, ainda bem que ta acabando já tava na hora de voltar para casa”, acredito que o sentimento de todos, era de saudade já do local que nós mesmos construímos e passamos momentos únicos, sei que a saudade de casa era fato para muitos dos bravos guerreiros que ali resistiram ate o final.

30.01.2011 – Saudade da mata e retorno pra casa

            Acordamos cedo, era dia de retorna para casa após uma grande experiência na mata que por sinal vai deixar uma grande saudade (mas por pouco tempo, afinal início do próximo ano terá outro Ouricuri, seja na Serra do Ouro ou em outra serra e/ou mata). Arrumamos nossa bagagem, reunimos tudo e procuramos sair o mais cedo possível para evitar o horário em que o sol estivesse mais forte. Enquanto arrumávamos as coisas, o pessoal liderado pelo Guilherme cantava e animava aqueles últimos momentos nossos ali na mata. De acordo com a nossa proposta de Ouricuri, levamos apenas o necessário, o que ficou em excesso tipo: sacolas, garrafas, produtos que demorariam muitos anos para a natureza decompor, fizemos nosso papel de cidadania e preservação do meio ambiente, queimamos tudo que ali viesse prejudicar o habitat natural. Na caminhada de volta, mais ou menos na metade do caminho, contamos com uma carona em um caminhão, o que ajudou bastante a volta para cidade de Murici. Chegando lá próximo da hora do almoço, decidimos almoçar em um restaurante e em seguida pegamos o transporte de volta para casa.

            Para mim, foi uma experiência que levarei para o resto de minha vida, é sempre bom ter essa oportunidade de poder estar junto com os Caiçaras nos Ouricuri, esse já é meu terceiro Ouricuri e a cada um sempre uma experiência nova. Esse foi especial por já ser um Tuxaua e ter carregado uma responsabilidade de liderança juntamente com o Mestre, o Severo e o João Arruda (que por outros motivos não pode ficar ate o final). Aprendi muitas coisas, há um ano tudo era muito novo pra mim hoje já estava no papel de Tuxaua e podendo compartilhar minhas experiências com os companheiros que ali estavam pela primeira vez, mas ao mesmo tempo estava sempre buscando aprender mais, buscar novos conhecimentos, e não se acomodar na posição de Tuxaua. O Ouricuri pra mim hoje é fundamental, no inicio do ano ir para a mata e no meio do ano a caminhada, pois são momentos raros e que me ajudam a construir minha história de vida. No início me incomodava o que muitos diziam minhas aventuras, me chamavam de louco, doido, maluco, coisa de gente que não tem o que fazer, mas hoje me sinto tranqüilo em relação às essas pessoas, pois como o Mestre sempre nos diz, prefiro ser ator da minha própria historia do que ficar sentado assistindo ela passar, muitos pensam em fazer algo, outros vão lá e fazem. E ate porque essas pessoas que falavam isso, hoje chegam pra perguntar como foi, procuram ver as fotos e vídeos e algumas ate dizem: “queria ter a vontade e disposição pra fazer o que vocês fazem”. Por fim, gostaria de parabenizar a todos que fizeram parte do Ouricuri, pela força de vontade, perseverança, luta contra seu próprio limite dia a dia e pelo espírito em equipe. Esse foi sem dúvida um dos melhores se não o melhor Ouricuri Caiçara realizado ate hoje, e que eu tive a grande oportunidade de participar, se eu pudesse resumir em uma palavra, ela seria sem dúvidas “UNIÃO”.

Salve!

Fernando Godoi

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