Ouricuri Caiçara 2011
Serra do Ouro –
Murici/AL
25.01.2011 a
30.01.2011
O planejamento para o Ouricuri
Caiçara começou cedo, o Mestre Tamuia (Gérson) juntamente com o Rodrigo, foram
conhecer o território do nosso Ouricuri que de acordo com o planejado iria ser
na Serra da Nacéia, mas por motivos de o local não esta dentro dos padrões para
a realização do Ouricuri, o Mestre e o Severo (Severino) voltaram dias depois
para o local e constataram que o local realmente não estava em condições de
receber o grupo que ali estava confirmado. Reuniões foram feitas para decidir
qual o local de nosso Ouricuri, algumas sugestões foram dada, mas pelo grupo
ser em sua maioria sem experiências na mata, foi decidido melhor voltarmos a
Serra do Ouro (local do Ouricuri 2010), pois alguns membros mais experientes
(Mestre, Severo, João, Eu, Guilherme e Rafael) ajudariam no Ouricuri. Mas
tínhamos um grupo de 18 pessoas no qual o Mestre e o Severo como os mais
experientes puderam contar com os Tuxauas – denominação dada aos componentes
que participaram de dois ou mais Ouricuri – João Arruda e Eu.
No ano de 2010 participei de dois
Ouricuri, a) Janeiro 2010: Serra do Ouro; b) Julho 2010: Caminhada ate a Foz do
Rio São Francisco. Com isso por ter participado de dois acampamentos recebi a
responsabilidade de ser um Tuxaua, e logo em um Ouricuri onde a maioria dos
participantes eram sem experiência na mata. Portanto o Ouricuri teve um peso
diferente para mim, pois estaria eu em uma posição de liderança diferentemente
dos outros que participei.
O Início
Para muitos o Ouricuri começou
apenas no dia 25 de janeiro quando chegamos a Murici, para outros começou na
madrugada do dia 26 de janeiro quando iniciamos nossa caminhada rumo a Serra do
Ouro, mas para mim o acampamento começou bem antes, ate porque não poderia
deixar de valorizar o trabalho de planejamento que já citei acima (mesmo que
como um resumo). Também quando comecei a planejar para o Ouricuri, para mim o
acampamento já tinha começado. Quando estava arrumando minha bagagem tirando da
caixa todo o material utilizado no outro acampamento já me veio às lembranças e
aquela vontade maior de voltar a participar do Ouricuri.
25.01.2011 – Destino
Murici/AL
No horário marcado nos encontramos
próximo a Policia Rodoviária Federal, para nossa partida com destino a Murici.
Tive a companhia de Douglas e Nathany ate o local marcado, chegando lá
encontramos com o pessoal vindo de Palmeira dos Índios e Arapiraca (Marcos,
Raul, Isvânia, Leilane “Shitara”), algum tempo depois chegou o Jonathan
Henrique. Juntamos aos outros Caiçaras próximo ao ponto onde lá estavam Rafael,
Severo. Contamos ainda com a presença importantíssima de Rubião, Rafael Cabral
e Jocasta que não puderam ir para o acampamento, mas foram lá dar o apoio.
Posteriormente chegaram Guilherme, Henrique “Caê”, Arthur, Thássia, Rodrigo e o
Cícero (Zapata) informou que nos encontrava lá no hotel pois o mesmo estava de
carro e ainda tinha um compromisso antes de chegar a Murici. Ficamos
conversando e no aguardo do Mestre, onde o mesmo chegou já dentro da Van que
iria nos levar ate a cidade de Murici. Gostaria de destacar um fato que
ocorreu, segundo o Rubião, a mãe do Rafael teria pedido a ele que fizessem algo
para que o cabelo do filho dela ficasse sujo, ou algo do tipo que quando o
mesmo voltasse pudesse cortar o cabelo pois tinha passado no vestibular e não
queria cortar o cabelo, como o Rubião não iria pro acampamento ele passou a
missão para mim, eu ate brinquei na hora pode deixar Rubião comigo “missão dada
é missão cumprida” uma brincadeira referente ao filme Tropa de Elite, mas
infelizmente não contávamos que o Rafael fosse voltar tão cedo, então
conseqüência foi:
Missão
não cumprida, foi abortada por motivo de retorno antes do tempo previsto do
elemento em questão.
Chegamos à Murici no final da tarde,
onde nos instalamos no Hotel. O Mestre liberou para que pudesses andar pela
cidade, mas que as 19:00h tivéssemos de
volta no Hotel para o jantar e a reunião final antes da partida que aconteceria
as 03:00h do dia 26.01.2011. Após o jantar fizemos nossa reunião (João Arruda
chegou e juntou-se ao grupo) com as últimas instruções sobre o acampamento, nos
apresentamos e foi ali o último momento para que as dúvidas fossem tiradas. Fui
dormi pensando como seria o acampamento e sabendo da minha responsabilidade
como um dos líderes. Dormi muito bem, creio que ao contrario de muitos
companheiros que estavam nervosos e ansiosos com o que iriam encontrar.
26.01.2011 – Caminhada,
trabalho e chuva forte na madrugada
Acordamos 03:00h e partimos em
direção a Serra do Ouro, como eu já conhecia o caminho para mim foi tranqüilo
pois já tinha uma noção do que viria pela frente pudendo assim preparar não
apenas fisicamente mas também psicologicamente. Foram horas caminhando durante
uma média de 20Km, tivemos nossas paradas estratégicas, pudemos aproveitar um
belo banho em uma das paradas e fora que a paisagem é muito bonita o que
proporcionou várias fotos, registradas por mim e pelo Severo. Quando chegamos
no local o Mestre, o Severo e Eu, fomos olhar o melhor local para nos
instalarmos e decidimos pelo mesmo local do outro ano, “mesmo local” na verdade
só em termo de localização pois a natureza esta em constante modificação e com
isso sempre traçando novas experiências.
Dividimos os grupos e começamos à trabalhar,
o que na verdade não é fácil, ate construirmos nossas barracas (não por
completas) levou tempo e a noite chegou e tivemos que ficar todos na mesma
barraca, o cansaço era nítido nos participantes. Um momento de tensão foi
quando o Henrique “Caê” passou mal no final da tarde e a preocupação foi
grande, então Eu e João Arruda nos disponibilizamos em ir ate a cidade no
objetivo de pegar o carro para que o “Caê” pudesse voltar para casa devido às
condições que o mesmo encontrava-se, levou algumas horas e não foi fácil de
completar esse objetivo ate porque estávamos cansados devido ao dia longo que
tivemos mais ainda tínhamos uma energia para que pudéssemos ajudar nosso
companheiro que estava ali precisando de uma ajudar maior. Felizmente quando
retornamos ao acampamento o companheiro estava muito melhor e não retornou
naquele dia, decidiu agüentar mais uma noite e retorna no dia seguinte
juntamente com outros companheiros que viria a desistir e com os que já tinham
seu retorno programado naquela data. O Henrique ate que queria voltar mesmo já
estando bem só pelo nosso esforço, mas conversamos e ele ficou mais aquela
noite. O mestre ainda brincou fazendo referência a minha cara de espanto quando
cheguei e disse: “Vamos? O João está no carro esperando”. E descobri que ele
não iria voltar mais, parecia que nosso esforço tinha sido em vão, mas
felizmente ele se recuperou e todos entenderam que o susto inicial pela
situação não tinha nada em relação ao “Caê”, mas a brincadeira tomou conta e
todos nós comemos algo antes de ir dormir, pois não deu tempo de cozinhar nada
devido ao esforço do dia. Durante a noite a chuva foi muito forte e duradoura o
que fez para algumas pessoas uma noite tensa e desconfortável, como eu já tinha
passado por uma experiência dessa no outro acampamento não senti tanto como
alguns em sua primeira vez na mata e levar logo esse susto.
27.01.2011 – Trabalho
de recuperação
O dia anterior não foi fácil, alguns
companheiros passaram mal e a conseqüência foi à desistência, esses
companheiros voltaram junto com outros que tinham avisado previamente seu
retorno por motivos justificados.
Após as partidas começamos nossas
divisões de trabalhos para dar continuidade e enfim finalizar a tarefa do dia
anterior das barracas, então um grupo foi pegar água e o restante ficou na
reconstrução. Apesar do cansaço do dia anterior e da noite não tão boa, o
trabalho foi muito bem executado, a barraca que estava no comando do Severo
precisou de poucos ajustes para ficar boa e a barraca que tava o Mestre
juntamente com meu grupo o esqueleto tava pronto faltava finalizar a coberta.
Eu e Thássia ficamos na parte do teto por sermos os mais leves para a situação.
Douglas se destacou com sua habilidade em dar nó. A turma da pesada formada por
Rodrigo, Guilherme, Arthur, Jonathan Henrique, ficaram na responsabilidade de
cortar os troncos para a fogueira. As meninas: Isvânia, Nathany e Leilane
“Shitara”, mostraram uma garra e uma força nos trabalhos que ajudou bastante o
grupo. O Mestre e o Severo sempre nos trabalhos e ajudando com suas
experiências. Final da tarde, os trabalhos enfim concluídos, fui fazer minhas necessidades
higiênicas e fisiológicas. A noite chegou, dessa vez mais tranqüila em relação
a anterior, fizemos a janta por sinal muito boa (já estava com saudade do
feijão com arroz) logo após nos reunirmos e tivemos nosso momento de reflexão o
que é de suma importância para o objetivo do Ouricuri, pois, é através dele que
podemos ver como esta o pessoal, o dia-dia para cada um e compreender como esta
cada pessoa naquele momento. Antes de dormir as conversas são as melhores,
momentos de descontração e animação, no qual podemos nos conhecer ainda mais.
28.01.2011 –
Aprendendo com os recursos da própria mata
O inicio foi tenso, devido à volta
precoce da Nathany devido o falecimento de um parente, o Douglas acompanhou a
mesma na volta ate um ponto onde ela pegou uma carona e retornou a cidade.
Mas o dia nos reservava outras
coisas, após dias de muito trabalho e cansaço na construção de nossas
instalações, era hora de aprender a fabricar objetos com os recursos que o meio
ali nos oferecia. O Mestre com sua experiência e sabedoria nos ensinou a fazer
arcos, flechas, zarabatanas, conseguimos ate fazer colher no qual ajudou muito
na hora de cozinhar e preparar a comida. O Severo ainda construiu uma flauta e
um banco na lateral da barraca, tudo isso com o material base que tivemos no
local o “bambu” que por sinal segundo o Mestre, ainda tem varias outras funções
que ajuda em nossa sobrevivência. A tarde foi muito proveitosa, aprendemos
ainda como fazer armadilhas. Mas tinha um companheiro que insistia em “caçar preá”
com seu próprio jeito (essa expressão foi muito utilizada em nosso
acampamento).
Sempre no final da tarde íamos fazer
nossas necessidades (salve que alguns companheiros (as) também faziam ao longo
do dia). À noite jantamos e fizemos nossa reflexão, depois cantamos onde tivemos
um destaque, o Guilherme, mostrou-se um excelente cantor, puxou várias músicas
com o pandeiro que levamos e além das músicas de capoeira, uma música se
destacou e considerados por muitos foi o hino do acampamento: “Voando como águia, voando alto. Dando
voltas no universo, dando voltas lá no céu, com asas de luz, com asa de amor.
Ai que taiaiai, ai que taiaiô”.
29.01.2011 – Um dia
que passou muito rápido
Ultimo dia nosso na mata, a convite
feito na noite anterior pelo Mestre em nossa reflexão, o grupo foi conhecer a
mata, desbravar mesmo o território que ali estávamos alguns dias. Mas enquanto
o grupo foi para atividade de exploração do local, alguém tem que ficar e fazer
o almoço. Como já conhecia a área me prontifiquei a ficar e cuidar da comida,
como o Mestre e o Severo foram para a exploração e eu por ser um Tuxaua decidi
ficar e cuidar da comida, Leilane “Shitara” estava com algumas bolhas nos dedos
e preferiu ficar e cuidar do almoço. Foi de grande ajuda, pense em uma mulher
de garra e que fez valer o apelido dado a ela. Dividimos as tarefas, quanto
cuidava do fogo, ela preparava a comida com um tempero especial preparado por
ela e sua avó, tudo estava sob controle, ate um “fogão de três bocas” eu
consegui improvisar para adiantar o almoço. Mas a lenha acabou, e tive que
cortar, o que não é muito minha área (força física), de acordo com as próprias
palavras da “Shitara” em seu relatório, “Fernando
tomava conta do fogo que com sua audácia fez um fogão de três bocas para adiantar,
era preciso cortar mais lenha vi Fernando pálido com tamanho esforço e tentei
ajudar, deu certo, pelo menos fez valer meu apelido de Shitara”.
No horário da tarde continuamos a fabricar os
instrumentos que tínhamos apreendidos no dia anterior, foi um dia bom mas que
passou muito rápido. Então chegou a última noite nossa, ali no acampamento, o
que para muitos que estão de fora, devem estar pensando “nossa, ainda bem que ta acabando já tava na hora de voltar para casa”,
acredito que o sentimento de todos, era de saudade já do local que nós
mesmos construímos e passamos momentos únicos, sei que a saudade de casa era
fato para muitos dos bravos guerreiros que ali resistiram ate o final.
30.01.2011 – Saudade
da mata e retorno pra casa
Acordamos cedo, era dia de retorna
para casa após uma grande experiência na mata que por sinal vai deixar uma
grande saudade (mas por pouco tempo, afinal início do próximo ano terá outro
Ouricuri, seja na Serra do Ouro ou em outra serra e/ou mata). Arrumamos nossa
bagagem, reunimos tudo e procuramos sair o mais cedo possível para evitar o
horário em que o sol estivesse mais forte. Enquanto arrumávamos as coisas, o
pessoal liderado pelo Guilherme cantava e animava aqueles últimos momentos
nossos ali na mata. De acordo com a nossa proposta de Ouricuri, levamos apenas
o necessário, o que ficou em excesso tipo: sacolas, garrafas, produtos que
demorariam muitos anos para a natureza decompor, fizemos nosso papel de
cidadania e preservação do meio ambiente, queimamos tudo que ali viesse
prejudicar o habitat natural. Na caminhada de volta, mais ou menos na metade do
caminho, contamos com uma carona em um caminhão, o que ajudou bastante a volta
para cidade de Murici. Chegando lá próximo da hora do almoço, decidimos almoçar
em um restaurante e em seguida pegamos o transporte de volta para casa.
Para mim, foi uma experiência que
levarei para o resto de minha vida, é sempre bom ter essa oportunidade de poder
estar junto com os Caiçaras nos Ouricuri, esse já é meu terceiro Ouricuri e a
cada um sempre uma experiência nova. Esse foi especial por já ser um Tuxaua e
ter carregado uma responsabilidade de liderança juntamente com o Mestre, o
Severo e o João Arruda (que por outros motivos não pode ficar ate o final).
Aprendi muitas coisas, há um ano tudo era muito novo pra mim hoje já estava no
papel de Tuxaua e podendo compartilhar minhas experiências com os companheiros
que ali estavam pela primeira vez, mas ao mesmo tempo estava sempre buscando
aprender mais, buscar novos conhecimentos, e não se acomodar na posição de
Tuxaua. O Ouricuri pra mim hoje é fundamental, no inicio do ano ir para a mata
e no meio do ano a caminhada, pois são momentos raros e que me ajudam a
construir minha história de vida. No início me incomodava o que muitos diziam minhas
aventuras, me chamavam de louco, doido, maluco, coisa de gente que não tem o
que fazer, mas hoje me sinto tranqüilo em relação às essas pessoas, pois como o
Mestre sempre nos diz, prefiro ser ator da minha própria historia do que ficar
sentado assistindo ela passar, muitos pensam em fazer algo, outros vão lá e
fazem. E ate porque essas pessoas que falavam isso, hoje chegam pra perguntar
como foi, procuram ver as fotos e vídeos e algumas ate dizem: “queria ter a vontade e disposição pra fazer
o que vocês fazem”. Por fim, gostaria de parabenizar a todos que fizeram
parte do Ouricuri, pela força de vontade, perseverança, luta contra seu próprio
limite dia a dia e pelo espírito em equipe. Esse foi sem dúvida um dos melhores
se não o melhor Ouricuri Caiçara realizado ate hoje, e que eu tive a grande
oportunidade de participar, se eu pudesse resumir em uma palavra, ela seria sem
dúvidas “UNIÃO”.
Salve!
Fernando
Godoi
Belas palavras, Capoeira. Valeu!
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