quinta-feira, 11 de março de 2010

SEVERINO


CAIÇARA 2010.1


            A preparação para essa viagem não requereu muito esforços porque já tínhamos uma noção do caminho. No hotel comuniquei ao João que iríamos mudar a nossa estratégia de partida, pois nosso objetivo era evitar o sol escaldante da manhã, então resolvemos sair à uma hora e trinta minutos da madrugada. Com o equipamento necessário para as varias situações que planejei, fomos descansar por algumas horas, ajustamos o despertador para uma hora da manhã, assim conduzimos nossa partida do Novo Hotel.
            Na mais completa escuridão, sob o reinado da lua minguante, partiu a ultima resistência dos caiçaras, pois andar nesta atmosfera sombria e ao mesmo tempo permeada por raios e trovões, somente estes guerreiros destemidos ousariam tal proesa.
            A nossa visão limitada pela ausência de luz na estada de barro dificultava muito nosso trajeto, além disso,  a chuva ia aumentado cada vez mais. Quando estávamos num certo ponto da estrada, pisei em algo ou alguma coisa que tentou me dá uma queda, pois fui até o chão com se tivesse levado uma rasteira de costa, porém  num movimento matrix,  dei um role e sai num aú, mas já era tarde porque tinha molhado a calça quase toda. Depois lembrei que naquele lugar havia uma pedra que tomava toda a extensão da estrada e com a chuva deixou-a toda molhada com se fosse sabão. O João quando me viu dando o Rolê e saindo no Aú, não perdeu tempo foi logo dizendo:  vamos jogar Severo e caiu na gargalhada por um bom tempo. Contudo, Eu disse: João, eu acho que foi um caboclo que tento me dar uma rasteira, mas não consegui.
            Caminhar com alguém durante certo tempo é participar um pouco da vida de cada um, durante esta noite em clima hostil, percorremos uma longa estrada, desafiando os mistérios da noite, agradecendo a natureza pela generosidade de iluminar nossos passos com seus relâmpagos, musica de trovões. Assim, a cada passo tinha a certeza de que não deveríamos parar, pois nossa jornada foi conduzida com muita prosa, comedia, suspense e muita satisfação, mesmo com os clarões dos raios e muita tempestade...
            Quando surgiram os primeiros raios solares, já estávamos bem próximo do nosso ponto de parada, a neblina coroava as serras com um véu branco, a musicalidade dos pássaros rompia o silencio da floresta. Uma mangueira nos convidou para deliciar seus frutos e percebi que tinha muita alimentação a nossa disposição, além disso, tinha cajueiro nas margens da estrada, com isso tivemos um café da manhã regado a frutas tropicais.
            O nosso percurso transcorreu sem nenhuma anormalidade ou imprevisto, pois nossa vontade de chegar logo era tamanha que não paramos para descansar. Ao chegarmos ao local de entrada na mata soltamos alguns foguetes para avisar que o acampamento não seria o mesmo com a chegada da ultima resistência dos caiçaras.
            O primeiro  contato com o acampamento mostrou-me uma imagem de desolação, cansaço e esgotamento físico e emocional de alguns componentes, entretanto outros nos receberam com euforia, curiosos para saber como foi nossa jornada. Como  a vida é engraçada, enquanto eu e o João nos divertíamos com nossos causos e prosas para passar o tempo durante a noite, o grupo na mata agonizava na chuva em meios a raios e trovões, por outro lado, tudo isso, no nosso ponto de vista era luz e musica para a nossa caminhada que se torna mais prazerosa.
            Quando se vive no seu habitat natural a vida flue mais tranqüila, porém a mudança do meio ambiente gera desconforto por um certo período até  nosso organismo começar o processo de adaptação, pois nossos sentidos ficam mais aguçados na floresta.
            Um noite infernal, assim, pessoas definiam a noite com muita chuva na mata, não conseguiram dormir e o dia foi transcorrendo naturalmente, quando em poucos tempo que estava lá tive que exercer meu oficio diário de cirurgião. O garoto quase decepou o dedo com um facão de 15 polegadas ao tentar cortar uma palha de palmeira. Ao olhar para o garoto seu semblante pálido como uma folha seca. Teve uma breve sincope, o caiçara Luciano pegou-o pelo braços e o conduziu até uma rede  para que eu pudesse realizar a sutura, verifiquei freqüência cardíaca e pulso que estavam  anormal, mas aos poucos foi retomando a consciência e a partir daí iniciei os procedimento operatório paras restabelecer a homeostasia do corpo.
            No restante do dia trabalhei para a construção de uma cabana com a participação de quase todos, houve um momento de discussão  para saber qual a melhor maneira de se fazer o telhado, pois não queria passa pelos mesmos problema do dia anterior.
            À noite após o jantar, tivemos o nosso primeiro momento reflexivo sobre o acampamento e notei que alguns estavam se superando, vencendo seus medos, expondo partes de seus conflitos pessoais, mostrando um pouco de si em cada momento. Naquele ambiente sombrio onde a escuridão imperava em quase tudo, um feixe de luz  da nossa fogueira aquecia e revelava homens e mulheres que buscavam algo mais de si mesmos, outras vezes tentando esconder seu defeitos
            No frio e na escuridão por mais que tentamos se impor e mostrar discernimento nas explanações, um pouco da nossa personalidade vai se revelando com características positivas e negativas. Portanto, sabemos nós que é a vida na sua dinâmica desses encontros de pessoas de formações diferentes, atitudes e comportamentos diversos que se confluem para uma unidade caiçara e passando por todas as transformações emocionais, onde uns se revelam na fortaleza do altruísmo e outros na covardia de si mesmo, como seus objetivos mesquinhos, mergulhado no egoísmo e egocentrismo para sua sobrevivência e seu bem-estar, não se importando com a unidade do grupo. Assim, o acampamento foi sendo permeado com diferentes personalidades, divergências pessoais e, sobretudo com muita alegria e companheirismo daqueles que incorporaram o espírito caiçara.
            O retorno a civilização ocorreu numa marcha única sobre o sol  a pino de meio dia, a dor na descida ia aumentando a cada passo, mas era preciso continuar, chegou um momento que o meu corpo sublimava de dor, mas não podia desistir porque estava lutando contra mim mesmo. Por fim, após  três horas, conclui minha caminhada. Estava exausto, mas feliz e pronto para qualquer desafio que a vida me impusesse.




            Não importa a condição que a vida lhe mostre, siga em frente como o tempo, pois você alcançará o resultado.


José Severino dos Santos.


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